26 dezembro 2012

Os habitantes - 5

, sofrer este ou aquele acontecimento, um esbarrão aqui ou lá é uma coisa, mas seguir a vida semeando desejos e sonhos, e na colheita ter apenas esmirrados frutos, nem sempre doces, na maioria das vezes não, exige uma espécie de paciência, aquela que talvez seja parelha à dos monges, uma paciência que se amasia com o divertimento que se dá a partir de abundantes pequenas coisas, um riso farto e uma sensação de felicidade por uma trivialidade qualquer, ria de si mesma, sentia sede e não tomava água, Romana olhou a clarabóia empoeirada lá no alto marcada por camadas de poeira por cima e de olhares por baixo, os dela pelo menos, olhares como de prisioneiros, sede de prisioneiro, e levantou-se rápido, abaixando-se sem dobrar os joelhos como era seu costume, mantendo uma feliz capacidade de flexionar a coluna sem os incômodos da dor, para tomar a chaleira de alumínio no armário, nas portas de baixo de um velho armário de madeira, ferver a água e passar um café novo, logo teria que servi-los, colocou sobre a pia a vasilha e abriu a geladeira, encheu um longo copo de água, tomou-o e lembrou-se de novo do esquadrão, seu marido morto, ninguém sabe quem o matou, todos comentam do esquadrão, arrepiou-se em pensar que a campainha cujos sinetes retiniram em alguma igreja pra o serviço da missa se prestasse agora a chamá-la, logo, logo, para servir o café ao governador e aos seus homens engravatados

4 comentários:

Maria Helena disse...

O seu conto está cada vez mais interessante e senti pena agora quando acabei de ler; queria um pouco mais. Tenho a nítida impressão de já ter visto alguns dos momentos que você escreveu. Parece-me está vendo os movimentos da minha mãe; é tudo tão real ...Valeu!

:.tossan® disse...

Ótimo trabalho poético. Você é um grande escritor. Muito bom mesmo.
Um magnífico ano de 2013.
Um abraço de festa!

Antonio Carlos disse...

Sofrimentos da vida, colhendo frutos bons, as vezes passando por caminhos dificeis de se passar. Seu livro esta ficando bom, com passagens intensas.
Abraço

Paula Barros disse...

O bom de ler seus textos, é que a cada nova leitura, podemos ter uma frase que nos fala, que nos impulsiona, que nos ampara.
"uma paciência que se amasia com o divertimento que se dá a partir de abundantes pequenas coisas"
Que assim seja, que assim prossiga os dias de 2013.
abraço