21 maio 2013


Que ventos são aqueles que atravessam em assovios casas abandonadas?
(conto)
 
Lembrei de você e pensei, vou escrever uma carta para ele. Na verdade não vou escrever, não consigo, também não se escreve mais deste tipo de carta, é uma besteira, vou escrever aqui na cabeça enquanto ando pela casa. Lançar mão das palavras escritas para dizer o que não organizo bem significa que não ando bem, mas não se preocupe. Você sabe de muitas coisas, não sabe de todas, nem eu, mas eis que penso e falo. Não sei se escrevo em voz alta. Que se dane se alguém ler meus pensamentos!

Os ventos, os ventos me povoam de pequenos mas vastos redemoinhos, empoeirados, são aqueles ventos que sopraram quando nos encontramos naquele passeio bobo de trem pelas montanhas no fim de semana, ventos perdidos, hoje sei, que nos juntaram e também nos separaram. O que vivemos? O que foi aquilo? Hoje meus remédios mais fazem as nuvens caírem do que dar-me uma leveza para viver. Peso. Nem sei direito como escrevo peso para distinguir de peso. A gramática também é o que mesmos importa para alguém que já morreu. Vocês daí devem ler mais as intenções do que as letras. Estou pesada, afinal, é isso que quero dizer, de viver. Decerto são as curvas, as linhas tortas, nossa!, como são tortas as estradas que fiz, você até tentou me endireitar, mas, que importa isso? A vida sempre pesa, agora mais. Os remédios me dão uma zonzeira, e eu queria uma leveza.

Ah, o que me faz leve são os encontros, os bons, o nosso nem sei se foi bom, mas naquele dia me fez leve. Agora por que escrevo? Por que os ventos voltaram mais fortes? São aqueles ventos que atravessam em assovios casas abandonadas, são aqueles que na lavoura abandonada traçam com fios de palha de milho seca os pensamentos que o doutor não gosta de ouvir, mas, como posso pensar outras coisas quando eles sopram? Falo para ele, que me cobra caro, só atende particular. Ele me ouve com medo, vejo nos seus olhos e me dá remédios como se fosse pra se proteger dos ventos. Me dá uns que tira das gavetas e outros que tenho que comprar, sempre tão caros! Fui menina no interior, em espaços abertos de muitos matos e ventos, fantasmas e histórias. Depois me meti com os sonhos de fazer o Brasil ser de todos, na minha juventude. Te conheci depois. Nem sei o que passei, cadeias são espaços quadrados que nos tiram e nos dão coisas. Perdi mais, nem poesia escrevi.

Não tenho mais permissão para dirigir, eu gostava, você se lembra? eu dirigia melhor do que você. Fico aqui, o apartamento é habitado pela Solange durante o dia, à noite os ventos tomam contam, rodam, rodam, e acabam saindo pela área de serviço, mas não encontram ninguém, ela cuida da casa, deixa sempre a janela da sala um tanto aberta para ventilar a casa, ela diz, retirar o mofo, de mim, talvez de mim, ela cuida. Mas a Solange  cuida bem das fotografias, isso faço questão, as paredes estão cheias. Quis falar de você para ela, estou ocupada agora lavando a cozinha, depois você me conta, ela me disse, e eu ouvi, sabe quando você ouve bem uma coisa?, você cala, eu calei, fechei bem as janelas e fiquei esperando que os ventos batessem na vidraça. Virei para o lado do criado mudo para olhar meus remédios. Tinha uma caixa bonita, destas que se vendem por aí, a Solange que comprou, mas me pediu o dinheiro, bem cara essa caixa, é bonitinha, mas cara. Olhei meus remédios como um arranjo de flores. Então me lembrei de você.

08 maio 2013

A janela ficou do outro lado (outro conto)


Onde se esconde a angústia?, ou, mais sincero seria perguntar, onde ele escondia  a angústia?, rodoviárias, não gostava delas, se apavorava em vontades de voltar, mas não voltaria, era assim, o que decidia estava decidido, e pronto, mesmo que lhe custasse um alto preço. Vou-me embora, ele dizia pra si mesmo, vou-me embora, tenho que ir, depois voltarei, e vai ser diferente. Não levava mais do que o necessário para uma semana em alguma pensão de uma rua triste qualquer. Uma sensação lhe percorria por dentro as tripas em ânsias de que a hora não chegasse, da partida, mas ao mesmo tempo a ânsia pedia que a hora chegasse logo, da partida, que o levasse, e o tirasse da rodoviária, que lugar mais esquisito estas tais rodoviárias, mesmo que pequenas, como aquela na sua cidade, pensava.

Era tudo por amor, iria embora por amor, iria com a economia que foi possível fazer ao longo de meses, pouca coisa que conseguiu guardar, iria e voltaria pra casar, ela ficou de esperar, ela o esperaria, combinaram em abraços e beijos e mais beijos, e lágrimas e pare com isso, ele repetia, pare com isso, não te quero mais ver assim, chega de despedidas, de beijar como se a gente nunca mais fosse se beijar, ele dizia consolando-a.

Era tão jovem, 22 anos, magro, uns pelos no rosto, perdidos, mais abundantes no bigode, um olhar de água parada, não sem brilho, mas calmo, calmo como pessoa boa, mas era nervoso, inquieto, teimoso, reclinou-se com a cabeça tocando o vidro da janela do ônibus, nenhuma alegria, apenas decisão, dura decisão, encarar o que Deus mandar, não voltar atrás.

Mas ela apareceu na rodoviária, rompendo o que fora combinado, se o amor propõe fidelidade, o amor também faz romper tratos, ela não aguentou e correu para a rodoviária, quando chegou o ônibus já dava marcha a ré para tomar rumo, ela olhou e viu sua cabeça recostada no vidro como um menino no castigo, sua vasta cabeleira preta, seus olhos buscando sabe-se lá o quê.

Ela estava ali movida por alguma esperança, ele a proibira de ir à rodoviária, mas ela foi. O  ônibus virou-se para o outro lado, dando a volta para pegar a rodovia de tal modo que a janela onde ele estava ficou do outro lado, nunca mais se viram.

03 abril 2013

O pássaro do livro (outro conto)



Aquele livro, ao ver aquele livro no chão da sala algo lhe veio à mente, sem definir-se bem, uma lembrança, um sentimento, uma verdade, uma saudade, ele ficava sobre a mesa, sobre o aparador, sobre a escrivaninha, tinha que se perguntar onde ficava aquele livro, o pássaro colorido na capa, não sabia, na casa dos pais?, de uma colega? e nunca soubera do que tratava aquele livro, era um romance, de um autor de um daqueles países da Europa Oriental, não lia romances naquele período, a vida exigia todo o tempo, toda a mente, todos os interesses, não a vida exatamente, mas aquilo com o qual se identifica a vida, as preocupações, os objetivos, o onde se quer chegar, o que se quer ser, ficava aquele livro em algum lugar, o livro com o pássaro em voo, saindo das tintas, uma espécie de fenix.

Era isso, tinha que ser agora o renascimento, seria, o marido, arquiteto, só sabia trabalhar, escolhera aquele velho apartamento, imenso, no quarto andar, chegara ali pela escada, seguiu seus passos, ele faria com certeza daquele velho apartamento um belo lugar pra viver, pra resnascer, ela pensava, leria o livro que encontrara ali.

Mas estava assustada, inquieta, algo lhe tinha esbarrado no pescoço enquanto subiam o último lance da escada, estava escuro, não porque era noite, mas porque o tempo estava no ponto de derramar-se num temporal  às cinco da tarde, as escuridões tantas vezes se juntam, tomara se juntem na vida das pessoas os amores, os ventos bons e as coisas boas, pensava desorganizadamente, a escuridão da noite que chega mais cedo em abril, a escuridão da tempestade que  não se despede em abril, seria o mais feio dos meses?, decerto não, sua filha nascera em abril, a mais bela das alegrias, mesmo que tenha partido tão pequena, nem mencionaria em pensamento o mês.

O quê? Perguntou-lhe o marido sem dar importância admirando o apartamento novo já brilhante em seus olhos que se voltavam para cada canto, uma coisa tocou-me a nuca, me picou,  um calafrio me percorreu a espinha inteirinha, ele  não deu atenção ao que ela falava entusiasmado com o que via na mente, as mudanças todas já implementadas, o apartamento novinho, e ela entre inquieta com o livro ali no chão, jogado, o pássaro voando da capa, ele não voava para o alto, ele descia, como uma ave de rapina, colorido ainda apesar da poeira e do desgate do sol.

Ela tomou o livro, o marido veio-lhe com carinho e bateu o livro na perna esquerda da da calça jeans, soprou sobre a capa, e passou a mão sobre ele, aqui está, disse, o que você me diz, minha querida?, e aquele minha querida ele dizia pra todo mundo, pra seus clientes, pra seus funcionários, uma coisa tocou minha nuca, ela disse, abriu o livro e deu-se com uma frase de Mayakovsky a título de epígrafe, E só Deus, na sua onipotência, soube que eram mamíferos de outra espécie, depois leria o livro, seria bom ler aquele livro, ele já tinha entrado em sua vida, haveria de se lembrar onde, guardou-o na bolsa, o marido falava e ela não ouvia e se dirigiu à cozinha, abriu a torneira e deixou a água escorrer, não ouvia o que o marido falava, ele ia e vinha, já na sua mente tudo estava pronto, ele já vivia no novo apartamento totalmente transformado, a noite e o temporal se uniam.

Depois de lavar bem as mãos ela ergueu seus cabelos torcendo a cabeça levemente na direção da luz escura, quase tocava o ombro com o queixo, seu marido agora a observava, a luz era pouca, quase noite, o temporal resvalava pelas vidraças de uma ampla janela na área de serviço, ele admirou-se de sua beleza, sua elegância, seu corpo marcado pelo vestido que lhe definia em contraste com os flashs dos relâmpagos e trovões a forma da beleza, seus quarenta anos não lhe diminuíra o esplendor, sua dor e luto, nada, era magnífica a mulher que escolhera.

E então sofreu ali uma dor inesperada, não era hora para aquilo, mas sofreu ali a olhar para ela na última réstia de luz do dia, sofreu por tê-la traído, não poucas vezes, sofreu um remorso inadequado para ele e para aquele momento, surpreendia-se consigo mesmo, mas jurara a si mesmo que tudo recomeçaria do zero, o novo apartamento seria o marco de uma vida nova, ela estava ali, isso importava, ela estava ali no escuro da cozinha, e precisava dele, ou ele começava a sentir que mais precisava dela do que supunha, em silêncio ficou a admirá-la, apenas a chuva fazia seus rumores, cantava seus cantos, o temporal entoava seus deboches e seus lamentos, ela repetia o gesto, mão na nuca, não na torneria, ele então foi ao interruptor e acendeu a lâmpada chamando-a pelo nome, havia sinceridade na doçura que impunha à voz, e assustou-se, da sua nuca escorria um filete de sangue que ela tentava estancar com a mão ora pressionada sobre o corte, ora indo à água.


26 março 2013


O meteoro das dores que só doem (outro pequeno conto)

 , tem dores soltas, dores perdidas, avulsas, sem causa e nem finalidade, que só doem, como imensas pedras geladas voando pelo espaço e que, de repente, tangenciam os mundos, elas não estão nem ai para os nossos sóis, para aquilo que ilumina nossos passos, para as escoras que  tomamos para não cair, dizia para si mesmo 
, tem dores de coluna, dores de amores não vividos, dores de uma infecção, mal-estar febril, mas estas outras que sentia ali, cometas desorientados, ameaçadores, nem imaginava que iria sentir, andava por aquela rua trinta anos depois
 
, a rua do lado direito era a mesma, os prédios de quatro andares perpendiculares à rua, lado a lado, irmãos amigos não vencidos pelas diferenças ao longo do tempo, os mesmos prédios, a mesma vida ali, o mundo mudara, não aqueles prédios, passava por ali, com a bolsa de couro de inspiração hippie, era tempo de faculdade, ia para a casa dela, tinham um quê, não sabia exatamente o que existia entre eles, nunca falavam disso, existia e era suficiente, bons momentos vividos, encontros dos mais fortes aos mais ternos, gargalhadas por pouca coisa, sonhos e projetos apenas para o dia seguinte

, a rua, a rua era a mesma do lado direito, mas as casas do lado esquerdo, inclusive a dela, todas abandonadas, casas de um único pavimento, térreas, o meteoro caía sobre ele, portas abertas, plantas e arvoredos secos e lixo, portão enferrujado, dos portões se avistava o que fora a casa um dia, dores desorientadas, meteoros frios e ásperos, sem aviso ou previsão, desgovernando seus passos

, os “nóias’ haviam usado as casas, via-se pela imundicie, mas alguém, talvez algum herdeiro daquelas casas mandara colocar aqueles arames de penitenciária sobre os muros tornando o meteoro das dores ainda mais cruel, do lado direito a rua era tão igual, a mesma de trinta anos atrás, mas aquelas casas na parte de baixo, cinco casas, eram lindas

, cada uma com seu jardim à frente, não grande, mas jardim, dos mais queridos os jardins são os pequenos em que se sabe de cada planta, cada canto, por que passava por ali?, até se esquecera para onde ia, trinta anos, tanto tempo se passara, dores avulsas matam, morria ali de algum modo, ou haveria de viver, sim, viver mais, viver, não, não, nada mais voltaria, a dor não tinha para quê

, não ensinaria nada, era melhor acelerar o passo, mas sentia crateras sobre os pés, sim, devia parar para olhar os detalhes das casas abandonadas, detalhes de carnes do tempo, carnes cortadas com lâmina fina, pensava que parar aliviaria aquela dor, não sabia, o único jeito era tentar, encostar-se ao portão, escorar-se na ferrugem, no ferro corroído, ah vida  férrea!, deveria parar e olhar, olhar, não

23 março 2013

PEQUENO CONTO

, o outono?, ou as chuvas de março?, ou o fim de verão?, ele não tinha o que pensar porque tinha muitos pensamentos e preferia ficar propondo-se questões sem pé nem cabeça pra ocupar a mente, ficava ali na varanda do segundo andar, nem sempre sozinho

, mas aprendera a ficar sossegado com suas questões para enganar a própria mente dada a meditar as dores, ali no mesmo lugar do velho sofá onde a bunda criara um mundo abaulado, uma cratera de pensamentos vagantes

, quando a varanda se povoava daqueles tantos que lhe pareciam estrangeiros, mas que eram seus filhos, netos, bisnetos já teria também? e não sabia mais quem, ficava ali a olhar o mar, mantinha-se como se eles ali não estivessem, olhava para o mar a sentir a maresia, mesmo quando um ou outro querendo aparecer diante dos outros como bem dedicado e amoroso vinha-lhe com abraços e beijos sem muita convicção

, ficava ali a ouvir os ruídos do mar, ruídos que só ali existiam, onde começa o amor?, onde começa o pássaro, no ninho ou no voo? onde começa o amor? começaria o amor na primavera da vida?, talvez comece na sede, na fome, na exaustão, talvez comece na saudade, na urgência de viver, no inverno, no vento sul, no insucesso... onde começa o amor? pois que comece um dia, que não tarde...

26 janeiro 2013

Dias de Cafarnaum - 2


, seus olhos mesclavam carinho e horror, ambos os sentimentos se justificavam na vida que eu apresentava ali naquele lugar e hora, olhar de desorientado, roupas de um perdido, feridas de um assaltado, ela tinha uns 45 anos, ainda linda como se tivesse uns 20, Maria, disse aquela que se tinha curado da febre, deve ser dos nossos, dos que se levantam da desesperança, o que aconteceu, jovem?, Maria perguntou, aquele olhar era o mesmo, como podia!, espantei-me, o olhar dele estava nela, a mesma fisionomia em traços diferentes, ela bela apesar dos anos, ele rude, agreste, marcado de conhecimentos apesar de jovem, são iguais, pensei, são irmãos? me enxergam do mesmo modo, sabem o que não sei

, ela me olhou sem palavras, a principio, esboçou um sorrisso depois, e perguntou, como você se chama? não ouví nada senão minha própria voz, eu me ouvia dizendo, recobre a confiança inicial, retome a esperança de quando você o ouviu pela primeira vez, devo ter agido de modo estranho, aquela que se levantara da febre disse, Maria, o que podemos fazer por ele? o que seu filho pode fazer por ele? ah, sim, eram mãe e filho, concluí, por isso tinham o mesmo olhar, pensei que eram irmãos, Maria respondeu perguntando, o que podemos fazer? e virou-se para mim e era atenciosa, o que você quer? perguntou docemente, sem saber o que dizer fui falando, não se preocupe, não se preocupe, obrigado, obrigado, e fui saindo, não entendi porque corri dali, a mãe e o filho tinham me visto, e isso parecia bastar naquele momento, eles tinham me visto, eles tinham me visto, corri pelas ruas de Cafarnaum, varei na praia, me acalmei ali escorado em um barco, respirei

, ficar ali escorado naquele barco por um momento aliviava todas as preocupações, tudo parecia bem por uns instantes, mas logo o peso se faria sentir ainda mais lacerante, sabia, felicidade são pequenos descansos em jornada longa e exaustiva, diziam que ele oferecia alívio com suas palavras, ainda não sentira esse alívio, sentira o olhar, e não sabia o que fazer depois dele, o mar rugia ao seu lado como se anunciasse tempestade, talvez chegasse mais tarde, ou à noite, escorava-se naquele barco, que já não era senão madeira velha, vida vivida em muitas lutas, e depois? ficar ali como um barco que vai virando areia?, não entendia de barcos, de mar, entendia de montanhas, de vales, de pequenos veios de água, sentiu saudade de sua vila, veio para Cafarnaum por causa dele? o que esperava dele?, ficou confuso, começou a andar e sentiu, sentiu como num clarão de relâmpago, solidão era aquilo, aquela busca, sozinho nas perguntas, sozinho nas respostas, desejou voltar novamente à casa de Simão, às escondidas

20 janeiro 2013

Dias de Cafarnaum - 1 ( um conto em fragmentos para o facebook)

, desaparecer a febre, para desaparecer a dor é preciso estender a mão, ou espichar o olhar, e o ouvido de escutar, pois que também há o ouvido-orelha-apenas, falaram da mulher doente, e ele foi lá, ir lá onde está o doente, se fazer proximidade, solidariedade, vencer a própria assustação de adoecer, de morrer, ele foi e favoreceu a vida, estendeu a mão, ergueu a festa, ela serviu coisas muito boas, pão quentinho, uma taça de vinho, uma bela romã, foi no dia de Cafarnaum, quase ao pôr do sol, outras coisas boas acontecem nesse dia

, depois do pôr do sol, talvez, talvez sentar à porta de casa e olhar o movimentos das coisas, o mar lá fora, talvez andar na praia entre uma luz e outra, entre uma saudade e outra e voltar, mas vieram tantos, eu também, cada qual com uma dor, cada dor uma história, ele os tratou, a noite fez-se mais bonita em Cafarnaum, fiquei por ali, entre escondido e admirado, mas ele me viu, não imaginei que ele fosse me ver, mas me viu, me chamou sem palavras, me disse coisas silenciosas, algumas esqueci, forço o coração pra lembrar

, em Cafarnaum, não sei o que eu buscava, não sei se cura, não sei se palavra, talvez coragem, ou poesia, ou nada, mas ele me viu, um qualquer, em Cafarnaum eu era um qualquer, também em outros lugares, tantos quaisquer estavam ali, e ele perguntava a cada um, o que você quer?, pensei no meu querer quando ele me viu à distância, me vi aprendiz, um daqueles, um outro qualquer falou, se queres tens o poder, e a resposta foi, eu quero, dois quereres se fortaleceram, eu vi, me vi aprendiz, os quaisquer também tem poder, o do querer, o que você quer?, mas o poder do querer se atualiza no plural, na junção, no encontro, foi em Cafarnaum, a noite me cobria de fome e cansaços, me vi amparado por pequena lanterna

, pensei em procurar um abrigo, mas naquela hora, o que eu queria era ficar encoberto pela noite, pesou-me a insegurança de estar em terra estranha, um vento muito frio me atingia, e vinha a laterna na mão de alguém, vinha, talvez viesse da casa de Pedro, passaria por mim sem me ver se eu ficasse bem quieto, mas a lanterna balançava cada vez mais próxima e parou alumiando meu rosto, ofuscando meus olhos, era um senhor de uns 70 anos, na hora perdi um medo e ganhei outro, o que queria de mim? o que eu procurava em Cafarnaum? e ele falou entre professoral e austero, entre firme e sabedor das coisas, ele disse, se ouvires sua voz, não endureças o coração, mas o meu coração, pensei, já se vai em durezas e escassez, amanhã bem cedo vou-me embora de Cafarnaum

, se eu não sabia exatamente o que procurava em Cafarnaum, ir embora de Cafarnaum me colocava outro problema, o que fazer da vida, então? levantei-me pra procurar outro canto pra passar a noite mais protegido do frio, as estrelas e qualquer outro brilho de rumo me tinham deixado, o velho somente me avisara pra não endurecer o coração ao ouvir aquela voz, foi quando senti por um instante uma dor de fim de mundo na cabeça, girei e caí, lá na casa de Simão e André a senhora erguida da febre deixou cair o que tinha nas mãos e disse em susto, mestre!, ele saiu, foi até a porta e olhou, olhou, perguntaram-se por olhares o que tinha acontecido, e o silêncio e o soprar frio do vento respondeu-lhes com assovíos, mas eu estava fora do alcance da vista deles, em outra parte da cidade, suportei até onde podia a dor, o sangue escorria por detrás da orelha direita e encharcava-me a roupa, tudo ganhava paz, o frio desapareceu, foi-se o medo, todos os pensamentos cessaram, acabou-se o não-saber-o-que-fazer-da-vida

, acordei com uns meninos me futucando com varas, como se eu fosse um bicho morto, em dúvida se morto de todo, percebi que ficara desacordado, doía-me a cabeça, o sangue me untava em pagajosa liga entre o tecido e a pele, um gosto férreo revelava-me que a boca também fora alvo de pancadas ou simplesmente acolhera o sangue escorrido, oxalá pudesse ouvir sua voz, nada ouvia senão gargalhadas, Cafarnaum, Cafarnaum, pensei, encontro mais dores aqui, para onde irei agora? os meninos riam e riam me futucando com suas varas, talvez eu necessitasse me mover mais, para que eles parassem, mas me encolhia, mas ele, ele me viu, me amparava nisso, comecei a sentir nas costelas a extremidade pontiaguda de suas varas, o sol já se erguera um bom ângulo no céu, o que me tornei? era já passada a hora de buscar outro rumo, o coração nem rígido nem fechado, apenas machucado

, eu desejava ir-me embora de Cafarnaum, levaram-me minhas poucas coisas, fiquei a perambular pelas ruas, desejar não era a plavra, eu precisava ir embora, mas não ia, desci à praia e fiquei observando os pescadores, os que consertavam as redes, outros se tinham ido pro mar, lavei-me o que pude ali, pensei então em ir para a praça em que se contratam trabalhadores, fui, e enquanto ia sem certezas de ir deparei-me com aquela que se tinha erguido da febre por aquele homem, venha cá, ela disse, venha cá, carregava em seus cestos legumes e peixe, você era um dos que estavam à porta de casa, disse enquanto repetia-se em sua mente o pensamento que viera depois da febre, animai-vos uns aos outros, o que lhe aconteceu? ela perguntou, havia um quê de mãe em sua voz, então outra mulher se aproximou, não sei dizer o que senti em seu olhar


26 dezembro 2012

Os habitantes - 5

, sofrer este ou aquele acontecimento, um esbarrão aqui ou lá é uma coisa, mas seguir a vida semeando desejos e sonhos, e na colheita ter apenas esmirrados frutos, nem sempre doces, na maioria das vezes não, exige uma espécie de paciência, aquela que talvez seja parelha à dos monges, uma paciência que se amasia com o divertimento que se dá a partir de abundantes pequenas coisas, um riso farto e uma sensação de felicidade por uma trivialidade qualquer, ria de si mesma, sentia sede e não tomava água, Romana olhou a clarabóia empoeirada lá no alto marcada por camadas de poeira por cima e de olhares por baixo, os dela pelo menos, olhares como de prisioneiros, sede de prisioneiro, e levantou-se rápido, abaixando-se sem dobrar os joelhos como era seu costume, mantendo uma feliz capacidade de flexionar a coluna sem os incômodos da dor, para tomar a chaleira de alumínio no armário, nas portas de baixo de um velho armário de madeira, ferver a água e passar um café novo, logo teria que servi-los, colocou sobre a pia a vasilha e abriu a geladeira, encheu um longo copo de água, tomou-o e lembrou-se de novo do esquadrão, seu marido morto, ninguém sabe quem o matou, todos comentam do esquadrão, arrepiou-se em pensar que a campainha cujos sinetes retiniram em alguma igreja pra o serviço da missa se prestasse agora a chamá-la, logo, logo, para servir o café ao governador e aos seus homens engravatados

25 dezembro 2012

Os habitantes - 4

, seguiu Romana para a cozinha por aquelas ruas labirínticas por entre móveis, utensílios de um tempo de gente morta há muito tempo, coisas e mais coisas, altas e baixas, mas sobrepostas umas sobre as outras, se menores, se possível, formando aquelas paredes todas, ela seguia e a dor já passara do ponto do nervosismo, já era possível suportá-la, a dor diminui ou acostuma-se?, as do coração, as da alma não diminuem, habitua-se com elas, elas passam a morar no mesmo prédio, inquilinas do mesmo corpo, chegou à cozinha, escura mas fresca, um quadrado de vidro no alto dava-lhe luz, queria um dia subir lá em cima para lavar aquele vidro de séculos empoeirado, o ar vinha, vinha fresco das muitas sombras do galpão, o ar chegava macio das muitas voltas dadas pra chegar ali, como era agradável aquela cozinha, e sentou-se sem vontade de tomar o gelo e por na perna, na coxa mais especificamente, arriou-se de seus pesos, sentou-se em lembranças de tempos bons, esparramou-se mal ajeitada na cadeira e as mãos levemente apoiadas na mesa, dois dedos da mão direita, quatro da esquerda, medidas e contas que via nas mãos, por que pensava em contas da vida agora?, dois e quatro, o dois dizia da vida os anos bons, e o quatro os anos dos sofrimentos, vinte anos bons porque cheios de esperanças, os primeiros vinte da vida, e quarenta de muitas lutas e sofrimentos, ah, veio-lhe a mente o balde que usava, aquele grande de latão com o qual recolhia no riacho a água para o pote, limpa e brilhante de expectativas, sonhos que nunca ganharam o corrimão na escada das realizações, queria agora um copo d’água, era só levantar e abrir a geladeira, seria bom ter um filho por perto, filho por perto? ai meu Deus!, mas o corpo dizia, aguente a sede e deixe as pernas descansarem, aguente a sede

23 dezembro 2012

Os habitantes - 3

, nisso dona Romana se aproximou, de romana ela não tinha senão talvez um jeito de matrona, brasileira é que sim, italiana já da terceira geração no Brasil, e veio meio que espavorida dizendo, o senhor governador, o senhor governador, e de repente ela mudou de assunto e começou a fazer reclamações como se eu é que fosse o governador, e a sugerir, reivindicar com autoridade, o senhor devia fazer uma avenida central por este galpão de tralhas, estão aqui há tanto tempo e ninguém comprou, e esse vai e vem de ruas que mais parece um labirinto, calma dona Romana, eu dizia, calma, acabei me machucando, ela reclamou, nessas quinas velhas, e esses ferros velhos podem infectar alguém se a gente se espetar numa dessas coisas que sabe Deus de onde vem, o senhor faça o favor de fazer uma rua central aqui ou senão faço eu, e o governador? perguntei,  está lá na frente, ele e mais uns homens de paletó preto, parece que vem de enterro, meu Deus!, o que houve? lembrei do esquadrão, respondeu e continuou, ele está lá olhando umas poltronas, aquelas que o senhor quer vender por um preço bem alto e que até hoje ainda não vendeu, calma Dona romana, calma, sim, sim, vou pra cozinha, o senhor tem razão, vou me acalmar, vou colocar um gelo nesse roxo na perna, se precisar o senhor toca a campainha da igreja, mas me dá um tempo, por favor, se bem que eu acho que o senhor não devia tocar pra chamar alguém uma campainha que se tocava na missa pra chamar os anjos para o altar