08 Novembro 2009

vertere seria ludo IX

Um ciclo de gritos, fracassos, ensaios
de admiração do belo e espanto: códigos
ainda, poemas depois. Alguns cães
ladram diante do hábito amarelo

do monge do farol que vai (ou que vem).

Lâmpadas, labaredas, amor
criam luzes, sinalizam rumos
e mares a se navegar. Se há
uma ventania nos lados de dentro

o vento é um impulso

para a cor dourada do sol. Viver,
invenção de fazer resumos de mares,
pedras, flores, átomos num
rubro mundo pulsante no peito.

O jogo de entendimentos das coisas

firma-se em letras e no preço de dizer
cada uma pelo doce do nome. Espinhos
e vinhos são barcos que passam. Um traço
no fim de tudo mistura no mesmo vaso

o auge do voo das gaivotas e das constelações.

07 Novembro 2009

vertere seria ludo VIII

Uma fragata produz poesia
nos temporais e tempestades
com uma porção de prazer
e outra de sustos. Viver é

cair num abismo, e amar

é o sentido oposto, subir.
O abismo permanece, todavia.
No transverso da sede de falar,
a música ensina o que ainda

não se sabe, ouvir. O fundo

do fundo do coração deve ser escuro,
com pequenas e preciosas luzes,
onde é provável se encontra o verso
que mansamente constrói estrelas.

06 Novembro 2009

vertere seria ludo VII

De qualquer modo é melhor
um trovão de susto e descobrir
o dia, ainda que tarde, do que
acompanhar a sombra do tempo

e ajudá-la a barganhar seus mofados pães

com os chacais. A coragem não virá
dos lamentos em fins de outono
sobre a bondade da palavra renasço
que não foi usada na frase do amanhecer.

Enxergar será lindo, a flor

surgiu do chão resseco, e é única.
A balança que pesa o coração
é regida pela mesma matemática que soma
a claridade, o calor (amor) e a leveza

na longa(?) viagem dos raios do sol.

05 Novembro 2009

vertere seria ludo VI

O que vale no acúmulo
é o tesouro
que do monte foge.
Amontoar só vale

pelo riozinho que

por entre os montes corre.
Beber sua água,
correr por suas margens,
descer nas corredeiras

faz uma riqueza por

dentro, entre os amargos
de viver. Dá um estalo
de desprendimento
soltar do bambuzal

a poesia que jamais foi pega

pelas palavras que por aqui se acham,
ossos descobertos pelos ventos.

04 Novembro 2009

vertere seria ludo V

O tempo de dançar estima-se
é o prazo de um fogo. A vigília
já termina. O tempo é de ir.
Ignora-se as roseiras floridas.

A presença querida se avista

ao longe num outro jardim. Rosas
amarelas e poesias de amor.
Mas, desconhecido é o poema,
o autor e o título do livro. Será

preciso ler a primeira página e encontrar

a tradução de cavalos indomados
na língua virada dessas palavras.
Se assim se der, a festa recomeça.

03 Novembro 2009

vertere seria ludo IV

Mesmo o melhor olhar,
o de amor, sempre acontece,
emudece de ver, ainda que
no dia mais azul.

De que vale a limpidez do dia

quando o passo de ir e a
vontade de dizer te amo
assombra-se em reviravoltas
de incertezas da hora.

O fogo avança, e é,

e seja o que possa significar,
um tanto é pouco, tal
é a ânsia. O que por dentro anda,
anda mais do que se pode ver

do alto da montanha. Talvez

em círculos. Porque também
se perde o passo quando se ama
e se fica dando voltas
no próprio coração.

O bem-te-vi rascunho

traz no bico a flor dourada
de benzer a noite,
para se ter um sonho lindo, apesar.

02 Novembro 2009

vertere seria ludo III

Atirar ao vento as palavras
mais solenes e amaciar
com o refugo dos sonetos,
que é a melhor parte deles,

a sola dos pés e as curvas dos caminhos.

E, a seguir, na hora da noite que convier,
arremessar a pedra dos sonhos no fogo
e deixar ir aos céus as faíscas da liberdade.
Poderá assim nascer um desejo

de cantar os salmos do amanhecer.

Nada é certo, todavia, vai que
o peso do dia como água
caia sobre as asas do beija-flor
...e tudo seja outra coisa.

01 Novembro 2009

vertere seria ludo II

As outras cores do sol se vão,
escondidas, para debaixo
das asas da coruja.
Enquanto ela voa e, se

no chafariz correr água

bem limpa, as cores
aparecerão no rosto
das crianças que ali brincam
explodindo água em versos.

Dir-se-á que é noite
abrindo-se em belo dia.

31 Outubro 2009

vertere seria ludo I

Por exemplo,
é importante notar
que o inventário do mundo
incluía um verso,

que se perdeu.

Pelas veredas transversas
sabe-se que
o tal verso
foi apagado. Raspou-se a folha

procurando rubís.

No impulso do entusiasmo
removeu-se, por distração,
as cascas das letras. O espírito
expandiu-se e saiu.

Quando isto se deu

houve um estremecimento
que virou a página e
o dia amanheceu.

29 Outubro 2009

Sacolas plásticas IV

Verde e aveludada
em veludo eriçado
a lagarta verde alaranjada
escorregava-se como sentimento
rejeitado, sentido, ressentido
na superfície lisa da sacola azul, poema
sacola, lágrimas palavras,
vírgulas viradas em dia de chuva
em sacolas cheias de lixo aos pés
da árvore de onde caíra
a lagarta. Verde luminosa
a larva viva definia
sobre o azul cerúleo plástico,
definição sem muita clareza,
um mundo, qual não se verde,
cinza talvez, e melancólica voz,
linda música ao fundo da cena,
cinema de retinas, manias
de ver.

23 Outubro 2009

Sacolas plásticas III

Veio um vento
de onde não se sabe. Frio
não era, não era do sul
portanto. Nordeste de todo dia
também não. Era
um vento do chão. Subia
levantando uma sacola.
Ela se ia cheia, poeira
pra todo lado, poeta num livro
enfeitado. Ela subiu, subiu,
asas de um pássaro assanhado,
alma feliz sem saber
que morreu. De repente
o vento doido juntou
os lados plásticos da sacola.
Murcha ela desceu
torta, tonta, vazia. Quem
passava viu.

20 Outubro 2009

Sacolas plásticas II

O resto de suas asas se espalhava,
películas plásticas, pretas, colabadas,
uma nuvem assustadora enrugada,
caída, presa num destino, coisa
triste de se ver. A água seguia,
de um modo ou de outro, ao modo da vida.
Suja mas seguia. A água escapava
até evaporar-se ou cair no ralo e seguir,
mas a sombra ficava, ainda mais enrugada
velha, assustadora. A sombra, a sacola,
grande, preta, agarrada por uma ponta
na pedra do meio-fio não ia, não ia.

19 Outubro 2009



Sacolas plásticas I

Rasgava-se em partes brancas
quase pele artificial, hímen
do mundo, a sacola.
Saiam grãos empapados.
Arroz. Atroz rumo, atrás um cão,
magro, correndo. Um caroço
de manga, saliva seca,
laranjas sem vida,
distintas flores vencidas,
corrompidas de cinza se largavam
pelo mesmo rasgo.

16 Outubro 2009

V

Também pássaros
e a árvore solitária
num campo que passa.
Uma rua à noite, papelões
e passos vagos. Longe,
olhar que se perde. Então
as horas sondam
as asas dos sonhos
e dizem impossibilidades,
e penduram aflições em seus
voos.

... talvez seja cansaço.
IV

No meio o ponto de início,
uma ocasião. Possível
caminho. A pedra,
uma outra atitude.
O futuro não absoluto, nem senhor,
mas presente ali, na manhã.
A manhã que se vive
mesmo já sendo tarde.

... talvez seja ternura.

15 Outubro 2009

III

Recorre-se a si mesmo
e não se é. Escora-se
em muro áspero,
destituído. O conhecido
estrangeiro fica,
e o limite.
O presente torna-se dia
a dia. O que se vê
é o que não pede mais
para ser visto.

... talvez seja tédio.