O último porto do rio
I
Há aqui agora, sem horas para chegar, um barqueiro que vem quando nunca se espera, e me impõe cobranças de umas cartas. Do cais grita impertinente, me chama de senhor, e exige que lhe entregue sem demora as malditas cartas. Fico em dúvida se não deveria chamar-lhes benditas. Fala-me como se me fizesse um favor, eu que tenho que descer ao cais, mal me toma os envelopes e atira-os dentro de uma bolsa velha de couro sem me olhar, voltado que está para os seus afazeres, os que lhe são importantes. Lido com registros, todos sabem, do que chega e do que sai neste ultimo porto no rio, tudo tenho que por no lápis, sem esquecimentos, desonestidades ou distrações. Cobra-me tão seguro as cartas o sujeito, talvez, por me tomar por quem não sou, e como parece sempre muito apressado, não me ouve as explicações ou tentativas. Também não distingo por qual grito por dentro, mais forte do que o deste endoidecido que sobe e desce nas barcaças, é que me dobro sobre a mesa e deixo ir este rio de insignificantes e pulsantes desejos de dizer o que me são loucuras, anseios de lucidez, vesgos modos de olhar.
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Há aqui agora, sem horas para chegar, um barqueiro que vem quando nunca se espera, e me impõe cobranças de umas cartas. Do cais grita impertinente, me chama de senhor, e exige que lhe entregue sem demora as malditas cartas. Fico em dúvida se não deveria chamar-lhes benditas. Fala-me como se me fizesse um favor, eu que tenho que descer ao cais, mal me toma os envelopes e atira-os dentro de uma bolsa velha de couro sem me olhar, voltado que está para os seus afazeres, os que lhe são importantes. Lido com registros, todos sabem, do que chega e do que sai neste ultimo porto no rio, tudo tenho que por no lápis, sem esquecimentos, desonestidades ou distrações. Cobra-me tão seguro as cartas o sujeito, talvez, por me tomar por quem não sou, e como parece sempre muito apressado, não me ouve as explicações ou tentativas. Também não distingo por qual grito por dentro, mais forte do que o deste endoidecido que sobe e desce nas barcaças, é que me dobro sobre a mesa e deixo ir este rio de insignificantes e pulsantes desejos de dizer o que me são loucuras, anseios de lucidez, vesgos modos de olhar.


