14 outubro 2013


Vozes de abrir janelas, tentativas de olhar – 4

Assim, sem mais nem menos, acordou e teve um sentimento, como quem tem um pensamento, era um triste, não era tristeza, um filhote de cachorro desgarrado da teta da mãe em meio a tantos, fuçando por ali, intrometendo-se. E a manhã tinha sido uma manhã bonita, diga-se, dessas que antecipam o verão.  Foi, na verdade, uma manhã qualquer, pois que todas são bonitas, por elas mesmas, sem depender de nossos olhos, nem das estações, porque simplesmente o mundo vira para o lado do sol de novo, apenas por isso já são bonitas, mesmo quando a infelicidade filhote de cachorro se arranja em jeitos de fuçar a vida procurando suas tetas. Olhar a vida como uma cadela com muitas tetas talvez não fosse a melhor imagem. Sacudiu a cabeça. Ao mesmo tempo respirou levemente mais fundo sem que a mulher percebesse. A maior parte das infelicidades se vive sem lagrimas e sem visibilidades. Ninguém sabe, ninguém saberá e basta. É isso. Queremos entender as coisas para viver, por isso ficamos pensando, pensando. Mas as coisas não têm entendimentos. O que a gente consegue delas são sentimentos. Até os conhecimentos científicos são sentimentos. E foi ali na venda que ele se deu conta disso, revisando a vida, revisando o dia. Cachaça não bebia, nem cerveja. Ficava ali, conversava e ria muito, boas gargalhadas dava. Tinha essa facilidade, de rir muito, por pouca coisa. Suas gargalhadas e gozações não podiam faltar no bar. E ele estava pensando numa piada sobre o balconista. Ficaria pra outro dia. Mas ele já tinha percebido o encantamento dele por aquela garrafa de mel.

28 setembro 2013


Vozes de abrir janelas, tentativas de olhar – 3

Ir à venda era só pretexto pra pensar em tomar o ônibus. Ali em frente ficava o ponto. Ia ali todo dia, como todos, quase todos, depois do trabalho, uma hora pra rir, ou se tentar. Prá que serve o vinho senão pra alegria? A cachaça substitui. Uma alegria vem, e se consegue esquecer certas coisas, quando se está com os outros, quando se enche a cara, esquecimento é descanso de alma, alma é coisa sempre viva, nunca morre, mas precisa descansar. Ia à venda só pensando no ônibus, a venda era o ponto de ônibus, qualquer hora todos iriam vê-lo arrumado, aquela calça jeans nova, a camisa branca sem mancha, tênis dos bons e uma bolsa na mão. E Então todos perguntariam e ele responderia com prazer: Tô indo embora. Mas isso de ir embora é vontade parente do sonho, vem e se desfaz, como asa que se abre para o voo e se desfaz num braço pesado, numa mão grossa, pesos a se carregar. Quanto maior a vontade de ir embora, maior a correia de couro endurecido que prende o sujeito no destino que ele vive como um cavalo arreado. Encostou-se no balcão, viu o colega que só vivia de óculos escuros e sentiu dentro de si uma coisa ruim.

24 agosto 2013


Vozes de abrir janelas, tentativas de olhar - 2

O olhar é coisa que se dá aos outros, mas pode ser também uma coisa que o outro toma, como uma carta que se escreveu em segredo e veio a público pela mão de um “amigo”. As pessoas estão sempre pensando que sabem ler o olhar da gente, mas nem sempre sabem não. Até leem, mas podem estar lendo errado. Ainda lê aquele que lê errado? Mas ele queria que algum dia aparecesse alguém ali naquela venda e que fosse capaz de ler certo nos seus olhos aquela história com começo meio e fim. Especialmente o fim, quando alguém morria. Ao cair da noite ele vinha à venda. Bebia umas poucas doses, ficava ali pelos cantos mais escuros e ia embora. Durante o dia usava óculos escuros.

21 agosto 2013


Vozes de abrir janelas, tentativas de olhar - 1

Não era por necessidade que esfregava aquele pano úmido sobre o balcão da venda, era por costume, as horas não passavam, queria ir embora, não ia, ir pra onde e fazer o quê? Ganhava pouco e nada para ficar no balcão dia e noite. Dia e noite é modo de falar. Esfregava em idas e vindas aquele pano sobre o balcão, a madeira não brilhava, esfregava em círculos, a madeira ficava limpa, mas sebosa, opaca.  Fechava a venda por volta das oito, quando começava o Jornal Nacional. Voltava pro seu quarto, também depósito, atrás da venda, e amargava lembranças de um tempo em que tinha coisas, não muitas, e pessoas, algumas, e histórias, umas poucas. Um ou outro parava na venda durante o dia, um ou outro carro passava naquela estrada. Aquela estrada de estreito asfalto não levava a lugares importantes. Só no fim do dia vinham alguns, no fim virão os anjos? tomara, pensou, vinham na boca da noite os de sempre, fedidos, os sem dinheiro, gastar o que não tinham, rir o que não podiam, rir e xingar palavrões em cada dose de cachaça. Mas ele viu na prateleira uns litros de mel. Estavam ali e ele não os tinha visto. Sempre vendia um ou outro litro nos fins de semana quando apareciam uns perdidos da cidade por ali, donos de alguns sítios na região. Se fosse ele nunca compraria um sitio por ali, preferia a beira do mar. Mas via agora os litros de mel, via-os com desejos e salivação abundante. Estranhava-se, mas queria encher a cara de mel, queria tomar no gargalo, encher- se de doçura.

15 agosto 2013

De meio a meio

Quando escrevo aqui penso que vou em boas semelhanças com um personagem de Guimarães Rosa em A terceira margem do rio, que ao entrar na canoa, pelo olhar do filho, não ia a parte alguma, "só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio".


Mas vamos lá...
As dores vem, isso é certo. No que elas se transformam? Ah, é bom pensar no que se quer viver, se amor ou rancor. Os caminhos se vão, isso é certo. Para onde ir? Os sonhos te levarão, mas é preciso guardar as noites com bons sentimentos. A vida finda, isso é certo. Que sabores dela se desfruta? Tudo depende do carinho e do amor no cultivo do pomar. Ah, sei lá, talvez não seja nada disso, e apenas seja preciso ouvir muitas vezes as crianças cantando.
 

14 agosto 2013


Caem muitas luzes de asas e voos macios pelas manhãs
 
Faz-se uma janela ali, abre-se um lago de luz. Ele olhava a manhã e tudo estava nela, tudo. Mas nada estava completo, apesar de pleno. Vou pescar, ele disse. Como vais pescar, o outro perguntou e exclamou ao mesmo tempo. Vou pescar, ele afirmou novamente. Mas havia outra coisa naquele “vou pescar”. Se te conto agora este conto é pra te fazer um convite. Talvez ele se lembrasse de um poema, um poema de Pablo Neruda, talvez. As certezas se diluíam em uma espécie calma de satisfação e anseios. O poeta falava em pescar luz caída, com paciência, de um poço - que imagino escuro. Caem muitas luzes de asas e vôos macios pelas manhãs, e não pescar seria um desperdício.  Também vou pescar.

13 agosto 2013


Coisa que alcançamos sem aqueles longos treinamentos de monges
A maior parte do tempo se dá na espera de alguma coisa. Canta-se a esperança como um benefício que a alma está sempre a nos dar. Mas há certos dias que melhor é sentir a paz de nada esperar, e assim, sem esperanças, dar-se ao momento para que a vida se dê por ela mesma. Talvez estes momentos exijam uma taça de vinho, uma xícara de café, um olhar atravessando vidros e admirando pequenas feiuras, feiuras que passam ao campo da beleza.
Tem qualquer coisa de “zen” que nos acontece nesses dias, qualquer coisa que alcançamos sem aqueles longos treinamentos de monges. Paisagens que nos rodoviam sem asfaltos e sem placas de sinalização. E se vai por aquela estrada sem partida e sem chegada... e é tão bom.

03 junho 2013


Eu precisava de um amparo quando li aquele poema chinês (novo conto)

 
Eu precisava de um amparo quando li aquele poema chinês, eu procurava um amparo, ou um impulso pra me levantar, rolei com os pensamentos, não sei se rolei ou me arrastei, parecia que eu tinha batido a cabeça em alguma coisa, ou alguma coisa tivesse batido na minha cabeça, as nuvens, as nuvens me acordaram, vi as nuvens quando acordei, o céu estava mais próximo, o céu azul de fazer os olhos se fecharem, ou foram as formigas, as formigas que me picavam me despertaram daquele poema chinês.

Eu fiquei caído ali, olhando as nuvens passando devagar naquele azul muito carregado de luz, eu nunca usaria uma camisa daquela cor, todos me olhariam também, não gosto que me olhem, muitos, gosto apenas que alguém me olhe, as nuvens se amontoavam num lado do céu.
 
Ah, não lembro mais onde o sol se levantava lá naquela vila onde cresci, naquele tempo eu não me preocupava com o tempo, o sol podia se levantar e se esconder e tudo continuava como sempre, se a laranjeira floria e depois dela colhíamos doces laranjas pra se chupar ao seu pé, se um milharal seco era quebrado ao se recolher suas espigas e logo o arado lhe misturava com o chão, palhas viradas em terra, nada mudava.
 
Aquele homem não existia no poema chinês, ele se metia nele, as pessoas se intrometem, mas ele, apesar de intrometido, demonstrava querer me ajudar, ele me reerguia do chão com palavras boas, não me pergunte quais, palavras boas não são aquelas que você pensa, são aquelas que você ouve, mornas, calorosas de um afeto mesmo sem sentimento, porque o homem não me conhecia.
 
Ele me levou para algum lugar, me pôs sentado numa espécie de fundos de uma loja, outras pessoas chegaram, uma mocinha linda com um copo d’água na mão e outro no olhar, preferi este último, mas bebi aquele. Então se repetia a pergunta que só agora eu conseguia ouvir, o que aconteceu rapaz? Eu não sabia responder, apalpei os bolsos da jaqueta e não encontrei o livro de bolso, o livro de poemas chineses.

27 maio 2013


Lâmpadas fracas

 

Chovia, da lanchonete olhava aquela velha casa em frente, de dois pavimentos, em estilo eclético, do início do século 20, perdida entre os prédios. O dia caído se anunciava não pelos ponteiros do relógio que se avizinhava das 17 horas, mas pelas lâmpadas fracas que se acendiam lá pelos fundos, na sala de jantar provavelmente, e que tingiam de melancólica luz as janelas da sala que davam para a rua. Se não fosse até lá agora, nunca mais iria.

Ao chegar pôs os pés e os olhos sobre os três velhos degraus de pedra como se fossem sagrados, ali sentara tantas vezes para descobrir entre aqueles homens que visitavam sua mãe qual seria seu pai, acreditava que ele daria algum sinal de que ele era ele. Iludia-se. Os degraus lavados anunciavam que nada permanece, os passos às pedras serradas deram suavidades, os passos mudam as pedras. Mas não mudaram nos últimos tempos, pareciam os mesmos. Chovia. Não era uma chuva boa, era uma que entristecia. Trazia em suas rajadas coisas dos tempos, de tantos tempos, coisas ardentes e pontiagudas, preferiria não voltar, mas voltava. Já batia à porta, batia sem certeza do que iria fazer. Quando a porta se abriu ele não podia imaginar aquele rosto, era outro, feito do mesmo. Teve um pensamento de beijá-la, e outro pensamento de perguntar coisas, exigir respostas, dizer desaforos.

Quando seus olhos se colocaram sobre os daquela mulher que lhe abria a porta, e antes que de todo estivesse aberta, veio-lhe de imediato o dia em que fora por aquela mesma porta posto para fora de casa. Não esperava aquela lembrança, não se preparara para recordação tão clara exatamente naquele momento. Tinha apenas 12 anos. Não era um filho ruim, muito pelo contrário, e nunca entendera sua expulsão. Sentiu um rubor nas faces. Fora simplesmente abortado aos 12 anos. Agora estava ali, tinha andado mundo, e ela o recebia sem saber a quem recebia. Na verdade ia àquela porta em busca de uma ultima réstia de luz, a esperança de que por detrás daqueles olhos de prostituta pudesse haver um veio de recordação que a ela avisasse: é seu filho.

A mulher docemente o atendeu. 30 anos depois. Não o reconhecia com certeza. Sentiu-se feito de bobo pelas próprias ilusões. Virou-se sem se despedir, tinha se enganado, foi só o que disse enquanto saía. Um grito. Chovia. Saiu correndo pela rua em direção à marquise da lanchonete do outro lado.

21 maio 2013


Que ventos são aqueles que atravessam em assovios casas abandonadas?
(conto)
 
Lembrei de você e pensei, vou escrever uma carta para ele. Na verdade não vou escrever, não consigo, também não se escreve mais deste tipo de carta, é uma besteira, vou escrever aqui na cabeça enquanto ando pela casa. Lançar mão das palavras escritas para dizer o que não organizo bem significa que não ando bem, mas não se preocupe. Você sabe de muitas coisas, não sabe de todas, nem eu, mas eis que penso e falo. Não sei se escrevo em voz alta. Que se dane se alguém estiver lendo meus pensamentos!

Os ventos, os ventos me povoam de pequenos mas vastos redemoinhos, empoeirados, são aqueles ventos que sopraram quando nos encontramos naquele passeio bobo de trem pelas montanhas no fim de semana, ventos perdidos, hoje sei, que nos juntaram e também nos separaram. O que vivemos? O que foi aquilo? Hoje meus remédios mais fazem as nuvens caírem do que dar-me uma leveza para viver. Peso. Nem sei direito como escrevo peso para distinguir de peso. O primeiro tem som aberto, o outro tem som fechado. A gramática também é o que menos importa para alguém que já morreu. Vocês daí devem ler mais as intenções do que as letras. Estou pesada, afinal, é isso que quero dizer, de viver. Decerto são as curvas, as linhas tortas, nossa!, como são tortas as estradas que fiz, você até tentou me endireitar, mas, que importa isso? A vida sempre pesa... agora mais. Os remédios me dão uma zonzeira, e eu queria uma leveza.

Ah, o que me faz leve são os encontros, os bons, o nosso nem sei se foi bom, mas naquele dia me fez leve. Por que escrevo? Por que agora os ventos voltaram mais fortes? São aqueles ventos que atravessam em assovios casas abandonadas, são aqueles que na lavoura abandonada traçam com fios de palha de milho seca os pensamentos que o doutor não gosta de ouvir, mas, como posso pensar outras coisas quando eles sopram? Falo para ele dos ventos, para o doutor, que me cobra caro, só atende particular. Ele me ouve com medo, vejo nos seus olhos, e me dá remédios como se fosse para se proteger dos ventos. Me dá uns que tira das gavetas e outros que tenho que comprar, sempre tão caros! Fui menina no interior, em espaços abertos de muitos matos e ventos, fantasmas e histórias. Depois me meti com os sonhos de fazer o Brasil ser de todos, na minha juventude. Te conheci depois. Nem sei o que passei, cadeias são espaços quadrados que nos tiram e nos dão coisas. Perdi mais, nem poesia escrevi.

Não tenho mais permissão para dirigir, eu gostava, você se lembra? eu dirigia melhor do que você. Fico aqui, o apartamento é habitado pela Solange durante o dia, à noite os ventos tomam contam, rodam, rodam, e acabam saindo pela área de serviço, mas não encontram ninguém. Ela cuida da casa, deixa sempre a janela da sala um tanto aberta para ventilar, ela diz que é pra retirar o mofo, de mim... talvez de mim... ela cuida. Mas a Solange  cuida bem das fotografias, pra cada uma ela faz perguntas sempre novas enquanto canta uma dessas músicas sertanejas, isso faço questão, de manter as fotografias, as paredes estão cheias. Desejei falar de você para ela, mais uma vez, estou ocupada agora, lavando a cozinha, depois você me conta, ela me disse, e eu ouvi, sabe quando você ouve bem uma coisa?, você cala, eu calei, fechei bem as janelas e fiquei esperando que os ventos batessem na vidraça. Virei para o lado do criado mudo para olhar meus remédios. Tinha uma caixa bonita, destas que se vendem por aí, a Solange que comprou, mas me pediu o dinheiro, bem cara essa caixa, é bonitinha, mas cara. Olhei meus remédios todos coloridos na caixa bonita como se formassem um arranjo de flores. Então me lembrei de você.