25 dezembro 2012

Os habitantes - 4

, seguiu Romana para a cozinha por aquelas ruas labirínticas por entre móveis, utensílios de um tempo de gente morta há muito tempo, coisas e mais coisas, altas e baixas, mas sobrepostas umas sobre as outras, se menores, se possível, formando aquelas paredes todas, ela seguia e a dor já passara do ponto do nervosismo, já era possível suportá-la, a dor diminui ou acostuma-se?, as do coração, as da alma não diminuem, habitua-se com elas, elas passam a morar no mesmo prédio, inquilinas do mesmo corpo, chegou à cozinha, escura mas fresca, um quadrado de vidro no alto dava-lhe luz, queria um dia subir lá em cima para lavar aquele vidro de séculos empoeirado, o ar vinha, vinha fresco das muitas sombras do galpão, o ar chegava macio das muitas voltas dadas pra chegar ali, como era agradável aquela cozinha, e sentou-se sem vontade de tomar o gelo e por na perna, na coxa mais especificamente, arriou-se de seus pesos, sentou-se em lembranças de tempos bons, esparramou-se mal ajeitada na cadeira e as mãos levemente apoiadas na mesa, dois dedos da mão direita, quatro da esquerda, medidas e contas que via nas mãos, por que pensava em contas da vida agora?, dois e quatro, o dois dizia da vida os anos bons, e o quatro os anos dos sofrimentos, vinte anos bons porque cheios de esperanças, os primeiros vinte da vida, e quarenta de muitas lutas e sofrimentos, ah, veio-lhe a mente o balde que usava, aquele grande de latão com o qual recolhia no riacho a água para o pote, limpa e brilhante de expectativas, sonhos que nunca ganharam o corrimão na escada das realizações, queria agora um copo d’água, era só levantar e abrir a geladeira, seria bom ter um filho por perto, filho por perto? ai meu Deus!, mas o corpo dizia, aguente a sede e deixe as pernas descansarem, aguente a sede

2 comentários:

Paula Barros disse...

Fantástica associação: "as do coração, as da alma não diminuem, habitua-se com elas, elas passam a morar no mesmo prédio, inquilinas do mesmo corpo"

Uma vez eu estava com muita dor física, e me lembrei de algo que me fez doer a alma, e me lembrei que para a dor do corpo tempos remédio, para a da alma não.

Eurico disse...

Fluxos e refluxos de histórias cheias de poesia são a marca de tua passagem...
Sigamos...

Abç fraterno