24 janeiro 2012

Subia, sol escaldante, o pequeno caminho que o levava ao alto do morro onde ia buscar o gado, subia a pé, o pasto já sentia a falta de chuva, e corroia-se de raiva, pois tinha certeza, seu irmão mais velho tinha descoberto onde guardava suas economias, um dinheiro de longo tempo acumulado de pequenos ganhos, um dinheiro pouco que o pai lhe dava e que economizou, pensava numa bicicleta, aquela azul marinho da loja do seu Guilherme, e assim como um pensamento que vem e vai o dinheiro sumiu, seu irmão fez que não sabia, achava-se pelos seus dezoito anos no direito de impor-se sem explicação, dormiam no mesmo quarto, três camas, na parede sobre a cabeceira um quadro de santo para cada um, São Lourenço sobre a sua, o de dezoito sobre o qual caiam suas sérias desconfianças tinha um anjo de asas bem grandes, ele com quinze e o de quatorze com São Roque, este de quatorze lhe tinha muita estima, mas o mais velho desde pequeno gostava de lhe impor sacrifícios e humilhações, nunca de todo conseguia, mas não conseguindo a contento sempre tentava, com as mais inesperadas atitudes, e de nada adiantava reclamar ao pai ou a mãe que não se envolviam com as brigas dos filhos, tantos que tinham, doze, uns já casados e outros ainda moleques, e sabia agora, ele tinha roubado suas economias, decidira vingar-se, haveria de encontrar um jeito, queria matá-lo, mas antes tinha que pensar onde ele poderia ter escondido o dinheiro, os dias passaram e com eles seguiram os pensamentos de nuvens pesadas que não chovem, mormaço e agonia, nas tentativas não encontrara sucesso, procurou por todos os cantos em que o irmão poderia ter escondido o que roubara, o gado desobedecia-lhe, corria para cercá-los e levá-los ao curral, xingava os animais que não lhe obedeciam de imediato, uma das vacas com cria nova exigiu mais cuidado e paciência, acalmou-se um pouco olhando a fragilidade do bezerro, e ao chegar do curral, suado e sujo, em frente de casa no terreiro onde o pai fumava seu  cigarro de palha, o sol abaixava-se em melodias de tristezas no assobio de alguém por perto, viu o irmão, que voltava do lugarejo ali distante uns cinco quilômetros, todo sorridente e pedalando uma bicicleta novinha, exatamente aquela que ele tinha namorado no Armazém do seu Guilherme, comprei pai, economizei um dinheiro e comprei.

11 comentários:

EDER RIBEIRO disse...

Não importa aonde, no campo ou na cidade, as perdas nos tira do sério. Abçs.

Paula Barros disse...

Ai, que ódio deste irmão. Dá vontade de matar mesmo.

Ouvindo Orlando Silva, voltei mais ou menos ao ano de 1973, quando meu avô morreu e alguns lps dele ficaram com meu pai. Um lps mais grossos e menores que os de vinil da minha época.

Estas músicas me fazem ter nostalgia. Eu sofro de umas saudades que não sei se são minhas. Lembrei até de uma radiola de madeira. Os lps confirmei com minha mãe.

Paula Barros disse...

"e assim como um pensamento que vem e vai o dinheiro sumiu,"

"os dias passaram e com eles seguiram os pensamentos de nuvens pesadas que não chovem, mormaço e agonia,"

"o sol abaixava-se em melodias de tristezas"

Relendo, e deixando frases que me chamam a atenção. Ressalto ainda a descrição dos santos sobre a cama e o cuidado com o bezerro.

E na releitura a raiva do irmão que roubou a bicicleta retorna.

(os barcos estão lindos, aqui e lá no outro blog, as cores, o reflexo)

Rejane Martins disse...

Histórias deliciosas por aqui, Dauri, detalhes recortados de afetividade.
Honrada por tua presença no rejaneando,
um abraço pra ti.

EDER RIBEIRO disse...

Dauri, qto ao seu comentário no conto, essa foi a parte mais difícil para eu escrever, relutei muito em transpô-la par o papel... não sei se isso já aconteceu contigo... Abçs, caro Amigo.

tossan® disse...

Grande Dauri! Um escritor digno de ser reverenciado. Dividiria um Douro tinto com você. Saúde!

Jorge Pimenta disse...

cada olhar sobre o ombro inaugura a saudade e a nostalgia do tanto que foi e do muito por-ter-sido.
abraço, dauri!

Zezé(da música) disse...

Oi, Daurí. Tô com saudade de tu.
Com essa vida um tanto quanto atribulada,fiquei um bom tempo sem visitar o seu blog, mas hoje achei um tampinho para fazê-lo,e coloquei a leitura em dia. Estou achando tudo ótimo,apesar de ter-me trazido algumas lembranças tristes, não sei porque,estas cenas da família,os pais, um número grande de filhos, a mãe passando o café,deixaram-me com saudades e tristeza. As músicas,ah!
amei, principalmente esta do Orlando Silva, que era o cantor prefrido da minha Mãezinha, e sempre que estou com ela canto uma música, mas, a que ela mais gostava era "Rosa". Tu és divina e graciosa, estátua magestosa, do amor, por Deus esculturada...etc, é linda! Mas como já falei tô com saudade do'cê. Com carinho. Zezé

Leandro Jardim disse...

Caro Dauri,

Primeiramente ressaltar mais esse belo conto, linguagem fluida, que traz viva as imagens do que descreve, exteriores e interiores, gosta da tua prosa breve e precisa.

Em seguida, agradecer as palavras de incentivo. Esteja certo de que, vindas de você, elas tem ainda mais importância pra mim.

Saudações amistosas,
LJ

Ilaine disse...

Dauri, amigo!

Está lindo, como sempre. A vida de um menino em família grande demais, onde cada um precisa lutar por seus direitos. Há traição - irmão mais velho rouba o seu dinheiro - há também raiva e infidelidade. Delícia de leitura. Texto sem pontos, somente vírgulas - sinto-me levada pelas palavras - como uma pequena canoa que acompanha o fluxo suave e tranquilo das águas de um rio. Belíssimo, Dauri!

Eurico disse...

Tua prosa continua estuante, do estonteante... tua prosa, tua poesia, tua proesia...

Ando meio sumidão. Mas estou numa vazante prolongada. Talvez atravesse um deserto povoado de tribos, talvez um interregno entre este e outro território... rs

Abraçamigo e fraterno.