20 janeiro 2012

Levantou-se no escuro, a manhã ainda era uma espera de demora, sentia um cheiro no ar, mas não era cheiro do café que sua velha mãe fazia bem antes do sol nascer, levantou-se como se fosse dia de semana, como se fosse para a lida, a noite ainda se expandia sobre o telhado e sobre o milharal, levantou-se devagar para não acordar a mulher, o filho pequeno no berço, sentia um cheiro no ar, passou pela cozinha, a benção mãe, que cheiro é esse? a mãe escolhia feijão, o monte sobre a mesa já dividido pela metade ao lado de uma lamparina com chama fragil, Deus te abençõe, uma flor dessas que soltam no ar seus cheiros à noite, respondeu, foi andando pelo quintal, seguiu pela estradinha até o rio, arrancou a calção que usava, foi entrando aos poucos na água, era fria, mas gostava daquele frio, a noite tinha sido muito quente, de nada adiantara as janelas escancaradas, dormira pouco, ouvia os ruídos do mundo, sapos, ventos, pios de uns pássaros, tristezas e lamentos antigos que ainda reverberavam por aquelas bandas, achegou-se a uma parte mais funda do riacho, abaixou-se e deixou a água limpa, transparente mas coberta ainda pela película da noite na altura da boca, ficou ali, a água entrando e saindo da boca, e pensava, pensava, não queria, resistia o quanto podia, mas iria para a venda ainda pela manhã, não suportaria o domingo sem ir à venda, e se fosse beberia, beberia, beberia, voltaria trôpego para casa, cairia na estrada, como sempre, os filhos?, os filhos rapazes não mais iriam buscá-lo, nem a mulher, talvez a mãe fosse chorar ao seu lado sem forças para levantá-lo, talvez ficasse ali ao seu lado com um terço, um cantil com água, um velho e puído pedaço de pano na mão. Ah, mais um domingo.

7 comentários:

Paula Barros disse...

Eu disse que gosto de ler e já estou lendo. A imagem do barco está fantástica, nítida, próxima, parece uma fotografia. Olhar as nervuras que a água faz na areia dá uma impressão de realidade. A cor do barco, a luminosidade da água. E ainda dá a impressão que o dia está nublado, feito está aqui agora.

EDER RIBEIRO disse...

Dauri, há uma angustia nesse texto que transparece pelas palavras. Fantástico. Abçs.

Paula Barros disse...

A angústia de quem tem um vício, e que não consegue se controlar, pensa, sabe o que vai passar, sofre e faz sofrer, e pensa, pensa...mas não consegue mudar.

Mas mãe,geralmente, está por perto, sofre, reclama, apoia, e cuida e protege...

Eurico disse...

Mãe está sempre por perto...

Igor Gouveia disse...

Oi tudo bom? Então, é a minha primeira visita aqui no seu e poxa, estou adorando! Guardei o link e voltarei mais vezes!

Também tenho um blog, passa por lá? Te deixo o link dele:
http://25conto.blogspot.com/

Abraços!

Elcio Tuiribepi disse...

Esse tem jeito, forma e a verdade de um cotidiano enfrentado pormuitas pessoas...encher esse vazio com bebida é a saída sem saída de muitas pessoas...porém, um coisa é certa...as mães nunca desistem de seus filhos...quando eles caem, colocam um colchão e assim eles raramente se sentem totalmente desprotegidos...há toda uma história por detrás dos panos...
Um abraço na alma...bom domingo

MENSAGENS AO VENTO disse...

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...a angústia de quem sabe do erro e não consegue se afastar...Ah, o que anda pela alma daqueles que se tornam escravos do vício? Nem mesmo eles sabem...
Seu texto apertou o meu peito...Como sempre, a sua emoção se transformando em letras, nos proporciona a excelente leitura.

Beijos de luz e o meu carinho!!!

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