18 novembro 2011

luto, tristezas e uma certa paz

Quem desejar pode me acompanhar nesse exercício ( acho que exercício espiritual) em que vou me deixando falar sobre o luto, clicando aqui no Lados multiplicados.


Desnorteadas tentativas - 3

Foi num outro dia que nem sei qual, dois ou três depois do nosso último encontro, que ele, meu pai, reapareceu. Ele, acredito, tivesse alguma intenção em me dar aquele tempo de solidão. Deu-me um tempo de dor de solidão não por ausência de vivos, mas pela ausência de mortos. Eles cessaram seus ruídos, perguntei-me acerca dos motivos e nada encontrei como resposta. Na verdade sofri de solidão rodeado de pessoas, destituído abruptamente dos ruídos como mensagens, deles sentia falta, da sutileza de suas palavras, pequenos movimentos no revés das coisas. É bom que se diga, contudo, antes que esta história, este conto ganhe outras conotações, que eles, os mortos, não vem falar dentro do meu coração, não falo de alocução interior, falo de movimentos e sons aleatórios do mundo que são tomados por eles como palavras para suas frases, língua que eu não entendo, mas que são modos de dizer coisas dos mundos. Eles falam, eu ouço e não entendo, invento sentidos, dou-me ao trabalho de traduzir barulhos em pequenos poemas que logo esqueço, pois que não os registro, mas o que importa é saber que algo acontece entre nós, somos presença uns para os outros. Bem, ele apareceu, é isso o que eu ia dizendo.

7 comentários:

EDER RIBEIRO disse...

Seria a morte o "fim" em si da vida, ou uma passagem para outro plano, e se ouvimos os mortos nos falar, seja em sonho ou uma espécie de delírio, essa comunicação é a forma deles nos dizerem que não morreram. Aí está você, grande escritor Dauri, nos mostrando as possibilidade, estarei aqui esperando saber a que mundo nos levará. Abçs.

Dauri Batisti disse...

Vou escrevendo este conto no luto. Talvez seja um modo de, na fabulação, falar disso que não tem muito como falar. Vou escrevendo um conto, inventando personagens que talvez condensem uns sentimentos, tão...

Ouço Olívia Hime cantando Maysa.

Márcio Ahimsa disse...

O sentido das coisas não ditas,
talvez, o interlúdio
entre estar aqui e em outro mundo,
faz, na cabeça do poeta,
a relevância de apenas pintar
o instante que lhe veio
à tona do sentir...


Abraço. Bom domingo.

Paula Barros disse...

De vez em quando venho observar a imagem. Tem colocado lindas imagens.
abraço

Dauri Batisti disse...

Obrigado Paula, por esta atenção carinhosa.

Mai disse...

É preciso elaborar esses lutos. A palavra presentifica a ausência.Então estou aqui.

um beijo.

Ilaine disse...

Dauri!

Estou por viajar ao Brasil.
Pelo carinho durante o ano, quero lhe agradecer. Suas palavras em meu blog são preciosas para mim e sempre lindas. Sim, eu estou ausente aqui... mas voltarei e então dedicarei atenção inteira para lhe ler-- assim como gosto.

Sinta o meu abraço
Beijo no coração