16 novembro 2011

Desnorteadas tentativas ( título provisório) - 2

E ali, no seu desaparecimento fiquei, e ouvi o que era possível ouvir, um ruído aqui, outro ali, enquanto as horas silenciosas e frias passavam lentas, levantei-me fechei a janela e fui para a cama, a porta levemente empurrada não fechou, ficou a um palmo do batente e por aquela abertura jorrava uma pequena e muda cachoeira de luz vinda do abajur acesso na sala, o sono não veio logo, os olhos fechados e apertados repetiam-se autonomamente na construção de cenários, rostos, palavras,  desnorteadas tentativas de aliviar o peso do dia, ou modos de impor-lhe, mesmo sem querer, uma outra carga. E então, a tentativa de aquietar-se e dormir foi rompida, a porta ia e vinha pacientemente fazendo tinir a lingüeta da maçaneta no batente, mas sem força suficiente para fechá-la, favorecendo assim com seu ruído a construção de todo um mundo, que é de onde vem estes contos que te conto. Pensei se não seria ele que voltava, talvez lá os mortos não tivessem noites, nem cansaços, nem sono, nem necessidades de refazer-se para as lutas, e a porta ia e vinha com aquele movimento insistente de dizer o que eu nunca seria capaz de decifrar, sílabas incompreensíveis, formação repetida de uma única e breve palavra. Levantei, tomei uma sandália de borracha e ali coloquei, respeitava assim a vinda dele naquela cachoeira muda de pouca luz se ele quisesse voltar, e forçá-lo-ia a dizer na língua dos vivos o que ia me dizendo com aquele bater frágil de porta. Voltei para a cama e então foi a porta do banheiro que começou a falar com um singelo e sonoro e lento e macio e doce e incompreensível ruído. Então compreendi, ele me queria ajudar a dormir. Adormeci

5 comentários:

EDER RIBEIRO disse...

A tua personagem, atenta ao que os objetos lhe falam, lembrou um tio-avô que só dormia após escutar o que as estrelas queria lhe dizer. Abçs.

Eurico disse...

Uma anagnosia?
Bem, uma leitura possível dos ruídos do mundo...

Abç fraterno.

Dauri Batisti disse...

Pode até ser meu amigo Eurico, anagnosia, pode até ser. Não sei.

Mas o que vou escrevendo é um conto em que mortos e vivos se misturam, o limite entre os mundos de vivos e mortos fica um tanto quanto indefinido.

Não sei se vou conseguir o que tenho na cabeça, mas vou seguindo com o exercício.

Paula Barros disse...

"Ouvindo" a conversa entre Eurido e Dauri, e dizendo pelo lado de cá, que sempre me impressionou como os mortos se fazem tão vivos em nós.
Quando estive em Portugal um pé de figo parecia falar comigo todos os dias, quase como se meu sogro me dissesse que estava ali comigo, que eu não estava só. E eu conversava com o pé de figo-sogro ao abrir a porta logo cedo, e quando chegava a noite.

Dauri, me impressiona como você faz de fatos corriqueiros um conto imaginativo, criativo e real. Tem uns ventos que me pertubam.

Mai disse...

a imortalidade é isto que está em nós e seguirá, paralelamente.

Estou gostando.

(P.S.lendo de trás prá frente; pode isso?)

um beijo