19 setembro 2011

o último pássaro que avistei

Ele se sentia faminto de dizer umas luzes nesse escuro em que  tateava vagarosamente letras em relevos. Mas dizer poesia é dizer o grito que não pode ser escrito. Estás louco, o outro retrucou, haverias de ter em tuas mãos os calos do trabalho, as cores das tintas com que deverias pintar estas paredes, isso sim, és desorientado desde o ventre da tua mãe. Aquele, no entanto, ouvia sem reclamar. Retomou a palavra e disse que havia em si um desejo de dizer o que não sabia, e só saberia tateando as letras em relevos. De que falas? Onde pensas teus caminhos nessas loucuras? Sossega. Não, ele respondeu, este escuro não me cega, apenas me faz chorar, não me faz louco, apenas me faz desenhar em tateios nessa parede de relevos o vôo do último pássaro que avistei. E quando eu encontrar a rota do vôo tu também em desejos de luzes e sol vai desdobrar  tuas asas mansamente, alongando cada músculo, estirando cada pena, de modo a descobrir em ti mesmo um tamanho muito maior que o que te acostumaste a saber.

4 comentários:

EDER RIBEIRO disse...

qdo desanuviamos o que turba nossa visão deixamos de estar para ser. Abçs.

Paula Barros disse...

...ler e se permitir apreciar, sentir, imaginar...

Ilaine disse...

Dauri! Dizes poesia no grito de cada palavra. És escritor e tateias as letras em seus relevos mais encantadores. Amei, amei!

Amigo, o que você escreveu no comentário lá no ensaios me emocionou. Obrigada pelo carinho. Sua opiniãpo é muito preciosa para mim. E esta troca é fundamental. Beijo

maria carol disse...

suas palavras: invenção faceira que debruça sobre minhas asas forçando um vôo bonito e posto desde o começo ensaiado. Suas palavras lançam-me. Por poder dividí-las, uma gostosa gratidão me enseja.