16 setembro 2011

A sala


A sala recolhia um silêncio e pintava com ele as paredes, as janelas e a limpidez das vidraças. Mas carecia-se de silêncio ali. Era assim que sentias. A sala fundamentava o silêncio nas tábuas enceradas, rangentes e retas que se estendiam solenemente da porta principal para os fundos sob cada móvel. Mas, apesar da boniteza da sala, escapava-lhe a música, faltava silêncio, era o que tu me fazias crer. A sala fazia suavemente tremular o silêncio em cada pequeno movimento da alvura das cortinas. Mas o silêncio não estava ali. Ele estava lá, talvez lá, bem onde a asa de um olhar consegue fazer tremer a flor prestes a cair da galha mais alta do ipê. Ou, quem sabe, o silêncio esteja, não sei ao certo, nas franjas do teu sobressalto ao acordar, no fluxo de sangue acelerado que sentes no coração, ali, naquele momento súbito em que se tem a chance de se apoderar dos sonhos da noite. Não? Nem sempre te apoderas dos teus sonhos?

2 comentários:

EDER RIBEIRO disse...
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EDER RIBEIRO disse...

Querido Dauri, que bom tê-lo de volta. Somente quando ouvimos o nosso silêncio é compreendemos sobre nós. Abçs.