14 março 2011

Inesperado sol

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As mãos, enxergava-as bem, e as chaves também, brilhavam de pratas e ouros de muitas mãos, sim, eram elas, as do filho, a tez branca, tão branca de ver o azul do céu em linhas doces sobre as longas planícies como rios entre o punho e os dedos, linhas doces de saudade, quanta saudade!, meu filho, querido, que chaves são estas? e então foi capaz também de perguntar-se mais uma vez, como seria morrer?, duas coisas, o momento exato e o depois a encabulavam, pensava sem fim um pensamento em raízes espalhadas, este pensamento sempre se infiltrava em outros, em todos, mas tu já sabes, disse a voz, tu sabes agora, pois que passas, vais indo, o trem já partiu, sim, respondeu Estelita, e não é que é verdade, vejo a paisagem ligeira, não o rio ainda, alguns quilômetros me restam até o rio despontar à direita, por ora o verde me leva, o verde e o cinza escuro, um marron aqui e acolá de terras cultivadas, umas neblinas de amanhecimentos que logo se vão sem resistir aos primeiros toques do sol e ao passar do trem, não sabia como era nascer, tudo se esquece de então, os calores maternos, o frio do vento pelas narinas na primeira respirada, a vinda à luz e às agonias da luz, mas agora a voz alertava sobre saber o que é morrer, a voz, de quem seria aquela voz?, entre masculina e feminina, entre infantil e rouca de anos, exortara corretamente a instrutora voz, pensou Estelita, tinha que lhe ser grata, faria isso logo que ela surgisse novamente e com uma pequena e educada interrupção nas suas instruções lhe diria obrigado, morria e naqueles momentos de parca lucidez sabia, sabia que tudo, tudo se juntava como dálias e gérberas em arranjo num mesmo laço azul jogado ao acaso sobre uma mesa no centro da sala, e o tapete ali, macio, sob os pés, o tapete ali, nunca reparara naquele tapete, tão limpo, tão suave, era um convite irrecusável para estender-se naqueles arabescos ao perfume quase inexistente daquelas flores sobre a mesa no centro da sala, cheiros de leve perceptíveis, era preciso prestar-lhes atenção, um doce de várzeas encharcadas e cheias de brancas flores de brejo, um acre de laranjeiras envelhecidas e retorcidas e com poucas flores na pequena colina abandonada ao sol escaldante, sentia sim o perfume, distinguia-os, e dobrava-se já em seus joelhos, não te deites, forçou-se a voz num tom masculino, paternal, quase ríspido, não, ainda não.

6 comentários:

tossan® disse...

Desfolhei o seu blog e dei uma lida por aqui com mais calma. Muito bom e repleto de boa literatura. Abraço

Eurico disse...

Quanto fôlego, Poeta.
Empunhas o timão com firmeza e a linha da prosa vai surgindo sobre as ondas, de um quase imperceptível mar de poesia...

Fluxos... fluxo.

Samaryna disse...

Qerido Dauri, mergulhar na sua escrita é demasiadamente bom e fica sempre um gosto de quero mais por ser tão curto os capítulos. Deixo o meu afeto.

Ilaine disse...

"Voz... rouca de idade." As palavras aqui fazem levitar. Senti-me trasportada para este quarto - ao lado de Estelita. Você segura a mão do leitor e me guias por este imenso mundo literário... Como se me mostrasses o cenário que ali, do nosso lado, está a se desenrolar. Bonito demais! Beijo.

Loba disse...

aqui já se sente a tristeza da despedida. de estelita e de quem a acompanha. outro dos mais poéticos capítulos.
beijo, companheiro.

Zezé da música disse...

Sei que a morte está rondando, mas, com tantas palavras e flôres lindas(dálias, gérberas, flôres do brejo, acre de laranjeira)ficou lindo demais, agente até esquece da morte.Já não estou mais triste.
E por falar em flor do mato, aqui vai um versinho quando alguém zombou da flor do campo. Ela respondeu: Sou flor do campo bem sei, mas, que importância isso tem? Mais importante é você
florescer para alguém!
Ah! Parabéns a você pelo dia do poeta, e a todos os poetas que te seguem. Deus os abençõe! Bjs Zezé