10 março 2011

Inesperado sol

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As mãos, aquelas mãos segurando as chaves, eram as do filho, não as chaves, mas as mãos, suas mãos, tinha certeza, que certeza?, questionou a voz, assim, ossudas, brancas, delgadas, transpiravam vacilos e medos, coitado, amava-o tanto, único filho, meu filho, por onde andas?, vieram tuas mãos, oh meu Deus, vieram, irei, ainda não, interpos-se a voz, não irás, ainda não, cala-te e olha, que é o que podes, olhar, o que te é permitido, enfeito-te por ora o que vês com umas neblinas doces, uma luz filtrada de vitral de cores mansas, e nada mais agora, depois talvez uma condescendência te seja oferecida, um tempo de uma rosa, ouviu atenta Estelida e se contentou, um passo entre a resignação e a falta de forças, o trem na estação preparava-se para a longa travessia do vale, silenciara o tinir do martelo nas engrenagens do trem, avistaria o rio por todo o percurso, iria numa poltrona do lado direito do vagão e avistaria o rio, se bem que, se bem que há lugares tão bonitos do lado esquerdo de quem vai, mais bonitos, mas não o rio, o rio ficaria à direita, queria o rio, trocaria tudo pela visão do rio, avistaria alguns barqueiros remando em águas barrentas e o outra margem, avistaria a outra margem, os sítios e as casinhas lá onde a vida vai seguindo de algum modo, entre cantos tristes enquanto se lida com o chão e o sol, enquanto se banha em suores de terra quente em trabalhos e lutas e filhos e brigas, e sexo à noite em cama mal acolchoada, uma desolação para quem passa, mas quem ali vive nem se apercebe de suas tristes vidas, são imersos todos na placidez da rotina e de suas dores, a outra margem nada mais é que um lado, mais um lado disso tudo que vês, disse a voz, disso tudo que vivo, pensou Estelita. Queria levantar a cabeça num pequeno ângulo do pescoço para alcançar o rosto, como custava olhar para cima!, o rosto não é dele, não te confudas, não te iludas, não te apavores, que te contentes com o ver as mãos, tece tuas roupas de despedidas com os fios de felicidade que vem destas mãos com as chaves que enxergas, dizia a voz sem rancor e sem amor, dizia a voz assim, etérea, um traço de vento misturado com o chilrear de pardais.

12 comentários:

Samaryna disse...

Dauri, eu lhe entendo. Até eu faço confusa, como post com o meu login e a moderação de comentário é com o login do Eder, agora pouco eu fiz um comentário no blog da Van como Eder, tentei excluir e não consegui, e a confusão vai aumentar qdo ele voltar a publicar, pois quero conti uar publicando em seu blog. Depois passo para ler e comentar. Deixo o meu afeto.

Tatiana disse...

Peço licença para entrar em seu espaço,
e deixar um recado igual para todos os que considero.
A Blogosfera é um paraíso literário.
Aqui encontramos pessoas com dons maravilhosos!
Eu tive muita sorte... Nesses caminhos eu encontrei você!
Obrigada por de alguma forma, fazer parte da minha vida.
Um beijo carinhoso

Eurico disse...

Eis-me de volta.
E alcanço o trem em movimento.
Vejo o rio.
Estou nele.
Na outra margem...

E te abraço.
Muita paz, irmão.

Evanir disse...

Encontrei seu blog achei extraordinario.
Suas postagens é uma grande riqueza
sinti ñ ter seguidores ,pois quero muito voltar aqui.
mais se der siga-me.
Um abraço carinhoso,Evanir.
http://aviagem1.blogspot.com/

Samaryna disse...

Dauri, depois de um dia estafante, mas inspirador, pois escrevi uma crônica triste, e não sei se influenciado pela crônica, eu senti uma certa tristeza nesta parte da história. Deixo o meu afeto e devagar nos livraremos das confusões.

Ilaine disse...

Fios de felicidade... Sim, é lindo e triste este capítulo. Ansiedade para ver o rio, somente o rio que ela queria ver... e suas margens. Abraço, Dauri! Volto, então...

Obrigada pelo carinho no ensaios. Amei!

Elcio Tuiribepi disse...

Olá dauri, obrigado plas palavras lá no Verseiro, achei o comentário de uma visão muito gratificante para quem escreve...
Quando penso em rios, penso em continuidade...em vencer obstáculos,penso no mar...na mistura das águas
Mas a expressão que mais gosti foi essa:
"tece tuas roupas de despedidas com os fios de felicidade que vem destas mãos" Muito bonito...muito bom de se ler, de sentir...

Um abraço na alma...boa semana

Zezé da Música disse...

Lí este capítulo desde o primeiro dia. Achei-o simplesmente lindo,com palavras poéticas e até com o chilrear dos passarinhos eu me encantei. Mas,também achei, ou senti um pouco de tristeza. Não escrevi nada esperando ver a opinião dos que sabem mais do que eu(os poetas que te acompanham).
Talvez estas figuras dos últimos dias tenham me deixado com saudade
não sei de quê, mas, como diz o poeta(só se tem saudade do que é bom, se chorei de saudade não foi por fraqueza; foi porque amei...etc
Espero que este não seja o último.
Se não for, no próximo coloque uma coisa mais alegrinha tá?
Com carinho! Zezé

Zezé da Música disse...

Lí este capítulo desde o primeiro dia. Achei-o simplesmente lindo,com palavras poéticas e até com o chilrear dos passarinhos eu me encantei. Mas,também achei, ou senti um pouco de tristeza. Não escrevi nada esperando ver a opinião dos que sabem mais do que eu(os poetas que te acompanham).
Talvez estas figuras dos últimos dias tenham me deixado com saudade
não sei de quê, mas, como diz o poeta(só se tem saudade do que é bom, se chorei de saudade não foi por fraqueza; foi porque amei...etc
Espero que este não seja o último.
Se não for, no próximo coloque uma coisa mais alegrinha tá?
Com carinho! Zezé

Dauri Batisti disse...

Zezé,

a personagem está no fim da vida, lembra? não dá, por enquanto, pra mudar o rumo da história, rsrs.

Beijo, obrigado pelo carinho.

Jacinta Dantas disse...

Despedir-se da vida, assim, com a visão do que flui, o rio, me faz lembrar do poema O oceano e o Rio, que eu não sei quem o escreveu, mas que gosto muito. Tenho a impressão de que a voz fala disso, do deixar-se ir para o desconhecido. Intriga-me as mãos... as chaves, o rosto.

Beijo

Loba disse...

triste. mas um dos capítulos mais poéticos. qta beleza nestas suas letras!