17 março 2011

Inesperado sol

61

Tu que me falas, resolveu Estelita pronunciar-se, tu que me falas, começou, o timbre era limpo, claro, sem titubeios e pigarros, a tanto tempo não se ouvia assim na própria voz, tu que me falas, mostra-te, peço, eu suponho aqui nas minhas dignidades, nestas que tu me destes, que sejas Deus, és?, o que mais poderia ser Deus senão uma voz, um ar morno com tons de música, um nada feito tudo que se desfaz no exato momento, mas se desfazendo já é o que desejou ser, és Deus, dizes que morro, mas vivo nesse alongamento das horas, então és Deus, o Misericordioso, não te apresses, retornou a voz, de melhor proveito seria prestar atenção ao teu redor, não, respondeu Estelita, não, o que quero é levantar os olhos e contemplar o rosto deste que tem as mãos do meu filho, nem direi palavra alguma, pois que me bastará olhar, mas me proíbes agora de ter o que me dissestes ter, cala-te e olha disseste-me, não me tires o que me destes, se és Deus, e és, não me chega o entendimento do porquê me pesas assim os olhos com os teus destinos e desígneos e me tiras as forças de olhar mansamente para cima, me colas as pálpebras com visgos de paisagens, aprecio as paisagens, ah como as aprecio, não reclamo, acredita-me, mas rogo-te uma força, uma pequena força para erguer os olhos, lava-me a retina com transparências, desanuvia-me das saudades, permite-me, te enganas, disse a voz, te enganas, te desventuras, e além do mais, escuta, falo muito, Deus não.

4 comentários:

Eurico disse...

Essa passagem é uma epifania! Digna de um texto sagrado. Une a dor, o desamparo, ao maravilhoso, ao mágico, ao encontro do desvalido com a Voz. Essa voz, esse texto, essa possibilidade, esse não-lugar, essa esperança que desespera, essa desesperança que espera e se muda, e olha o céu de outro/novo/mesmo/território.

Ave, Poesia!

Jacinta Dantas disse...

Lavando os olhos, enxerga-se melhor os fatos. Aqui, no leito de Estelita, a morte me parece chegar de um jeito quase lúdico: assim, como uma brincadeira de reconhecer-se no olhar...nas mãos... e as chaves.

Então, sigo, acompanhando os momentos finais desse conto.

Beijo

Ilaine disse...

"Um nada feito tudo que se desfaz no mesmo momento..." Estelita fala, sua voz é música e suas palavras são a prece que faz mover seus lábios. Fala ao filho, a Deus... anuviada de saudades. Lindo, Dauri! Já estou seguindo agora mesmo para o 62. Beijo

Loba disse...

aqui tem tantas imagens bonitas, como estas:
ava-me a retina com transparências, desanuvia-me das saudades
e um sentimento que desespera a esperança