08 fevereiro 2011

Inesperado sol

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Que tudo se desfaça, os pensamentos, os planos de palavras transformadas em voz de declaração, que se desfaçam como ondas mansas nos muros, nas pedras, nas estacas, no cálcio das conchas grudadas no pier estas confissões de amor, de ilusões, esteios de sustentação, ia num ritmo só, mas não tão rápido, chegando ao cais, o ar tremia de alegria na luz como se o verão ainda se estendesse até abril. O gerente estava sentado sobre um resto de mureta, as pernas jogadas para a água sem tocá-la, talvez quando a maré subisse bem alta tocasse, talvez nem assim, olhava, olhava os pássaros indo e vindo, pássaros de mar, pensava o quê? Dias aproximou-se e sentou-se do mesmo jeito com as pernas penduras, em silêncio, espuma de águas batentes nas pedras sob os seus pés, em planos desfeitos, ondas que bordam rendas e retornam água, sem forma sem nada, conversaria qualquer coisa, mentiria e diria trivialidades. O que houve rapaz?, o gerente perguntou desconfiado, com gestos que indicavam incômodo com aquela presença ao seu lado, susto. Desculpa senhor, não quero incomodá-lo, fui ver minha avó, mas ela teve que ir às pressas ajudar alguém, saí então andando para me distrair, e aqui estou. A explicação aos seus próprios ouvidos não pareceu boa, mas que importava agora, melhor não falar mais nada, ficar quieto, suportaria o silêncio que viesse entre os dois, estranhos, eram estranhos ainda mais assim lado a lado olhando, ambos, os barcos, o mar, a paisagem emoldurada de velhas coisas dos homens, o silêncio veio, veio e se estendeu por uma planície despovoada em poucos segundos, constrangedor. Mas um vento doce soprava do mar, alivante.

5 comentários:

mundo azul disse...

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Situações comuns, que sob a batuta de um bom escritor, se tornam uma excelente leitura!

Beijos de luz e o meu carinho...


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mundo azul disse...

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Situações comuns, que sob a batuta de um bom escritor, se tornam uma excelente leitura!

Beijos de luz e o meu carinho...


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Márcio Ahimsa disse...

essa estranheza é já conhecida de tanto que o ponteiro grande e pontiagudo do relógio assentado sobre a torre mais alta da centenária igreja assiste há um tempo mais remoto ainda. e curioso, o olho centralizador do relógio é só mais uma forma de, ao apontar para os quatro cantos do horizonte, separar os homens da sua condição mais humana de ser. sim, de um lado, a sabedoria de quem sabe apreciar as coisas do cais, do outro, talvez a fadiga, talvez o olhar mais turvo como a imagem que se forma disforme pelo espelho d`água, ainda não sabe. e o que impele para o silêncio é essa sensação mesmo estranha de duas conciências num só canto e, de repente, tudo é igual ou muda como a nuvem baixa que acabou de passar e cobrir o mesmo sol escaldante que assava a pele de dois estranhos.

Amigo, sempre bom vir aqui. As palavras escapam-me das digitais do meu pensamento.

Ilaine- disse...

Como vês, Dauri. Desta vez li os capítulos de forma inversa e, mesmo assim, são completos e cada um por si é formado pela usual beleza que se estende por toda a obra. E, desta vez... "o silêncio veio, veio e se estendeu por uma planície despovoada em poucos segundos, constrangedor."

Abraço, escritor. Tenha um lindo!

Paula Zilá disse...

Como é bom quando tudo se desfaz- ah, que sensação de alívio esse desfazer que sem fim, esse fazer de novo, um outro fazer, um outro olhar, um novo começo!

beijos, querido Dauri!