05 fevereiro 2011

Inesperado sol

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Dias desceu na mesma direção que os meninos tomaram com a pipa, numa leve e mansa inclinação do terreno coberto de capim mas logo retomou a estrada que ia para o cais que ficava a um quilômetro mais ou menos distante, talvez nem isso e seguiu. À esquerda de quem seguia para o cais, no lado oposto ao que os meninos estavam, umas vacas pastavam numa larga faixa de gramíneas que margeava um restante de mata de restinga, ali por dentro existem pitangueiras, muitos pés, colhia pitangas quando menino para a avó, enchia um embornal, outros meninos agora se encarregam disso, mas talvez não saibam colher com o cuidado que as pitangas maduras exigem, ele e a avó adoram pitangas, a avó gostava a cada colheita, de encher um litro bem branquinho, totalmente transparente, com as mais vermelhinhas, encher bem, até no gargalo, e depois, com aquele funil que ainda hoje fica pendurado com as canecas sobre a pia, pequeno funil de aluminio todo amarrotado, ia derramando cachaça até que as pitangas ficassem todas cobertas, o litro ficava bonito bonito, e a cozinha em todos os seus cantos se preenchia daquele cheiro de pitanga e de cachaça evaporada. As vacas pastavam como se o mundo girasse sobre engrenagens que recebiam do céu um fio fino, reto, constante de azeite. Uma das vacas, talvez a mais velha, magra e esmirrada, mas ainda capaz de sustentar seu bezerro, virou-se com um quase imperceptível mugido olhando na sua direção mastigando calmamente aquele mesmo capim que depois ainda mais calmamente seria regurgitado e ruminado, a vaca olhou para ele e o viu, mas não o viu, atravessou-o com o olhar, enxergou tudo de vez e ele, ele era apenas uma parte encaixada no mundo todo dos seus olhos, e como aqueles olhos abarcavam em paz todas as coisas, Dias se lembrou da avó que também magrinha, esmirrada se tinha ido às pressas ajudar alguém que se despedia da vida, a vaca se parecia com a avó, ou o contrário, participavam, ambas, de uma dança incompreensível, e talvez por isso, porque as vacas veem outros mundos, sejam sagradas na India, pensou.

6 comentários:

Paula Barros disse...

Ah, Dauri, eu tento ler você sem me misturar, sem me projetar, sem sentir, sem me emocionar, sem encher os olhos de chuva...

1 - Acabei de almoçar na casa da minha mãe. Aqui tem um pé de pitanga. Hoje teve suco de pitanga.Eu nem tomei...mas vou daqui a pouco tomar, fiquei com vontade. rsrs

2 - Ontem ia colocar uma foto de umas vacas no pasto, por causa da palavra ruminar. Depois pensei na girrafa, no cervo...eu queria o cavalo, mas fiquei em dúvida se o cavalo rumina...mas achei melhor o poema sem foto.

3 - e quando fala do funil e das canecas, eu me transporto, para um mundo que é tão dentro de mim. Que eu já vi, já vivi, quando criança, que é um mundo de fazenda, de simplicidade, de casa no campo...de feira do interior.

4 - Sua escrita me invade em belezas.

5 - E só para finalizar, eu me senti a vaca, em algo que me toca profundamente. rsrsrs


beijo

Luis Eustáquio Soares disse...

é isso, dauri, um devir vaca, um devir vaca esmirrada, é o que basta, pra um ponto de intensidade, um acontecimento ávido de conexões rozomáticas, pois aí nesse fluxo o fluxo avó esmirrada emerge, que emerme o fluxo morte, que emerge o fluxo sem órgãos de um mundo de fluxos, nem morto nem vivo, nascimentos vitais e mortais, mas nascimentos vaca, nascimentos vós.
belo texto-fluxo,
de la mancha

Jacinta Dantas disse...

O azeite, caindo do céu, temperando o verde sabor para o deleite das vacas; Vacas tranquilas;
mãe capaz de prover o sustento do bezerro;
olhar que enxerga para além do que está vendo...

Imagens que a mim chegam como certeza de que, gente e vaca são navegantes de um mesmo barco.

Na verdade, percebo um doce olhar Franciscano, ou de São Francisco de Assis, nessas pastagens. (rsss)

Paula Barros disse...

Eita, eita, eita...rsrs Nem bem dei uma volta de carro, agora já estou num balão...

Estes balões me lembraram um balão que vi em São Lourenço-MG e corri para ver minhas fotos.

Um dia leve para você. abraço

EDER RIBEIRO disse...

Querido Dauri, que momento sublime vc me ofereceu neste texto, lembrei no meu avô qdo íamos para roça colher murici para fazer o docê da mesma fruta. Abçs.

Vieira Calado disse...

Havia um tempo que aqui não passava.

O seu blog continua muito interessante.

Um abraço