10 fevereiro 2011

Inesperado sol

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Ficaram a observar o mar, os barcos e o balanço dos barcos, as aves indo e vindo, olhavam as mesmas coisas, enquanto um olhava os pássaros em volteios no céu o outro se prendia no balanço miudo de um barco ao sabor da maré, enquanto um olhava para o mangue lá do outro lado e as montanhas longe o outro olhava para a corda que segurava o barco no ancoradouro, mas estavam à sombra de uma castanheira, podiam ficar quietos e deixar o silêncio vagarosamente ir perdendo aquele peso que se deitava entre eles, a velha castanheira estendia seus galhos para bem longe do tronco e pendiam sobre a pequena praia e a mureta, tão majestosa se dobrava que era como se José de Anchieta caminhasse por ali e recebesse suas reverências. A sombra grossa dava ao lugar naquele horário, quase meio dia, um ar de desejos saciados, calmaria depois do estertor, mas uma neblina encobria tudo entre eles, uma neblina que umedecia as mentes com devoções ao silêncio como um voto, a neblina se estendeu, se estendeu, se fragmentou e se foi esvaindo. Quem é sua avó?, perguntou o gerente rompendo a nevoenta e aparente placidez entre eles. Por que o senhor me pergunta isso? respondeu Dias. Uma senhora veio me visitar bem cedo outro dia e me trouxe um papel com uns números, não entendi que números são estes, bem que procurou cofres naqueles escritórios, imaginou que fosse o segredo do cofre, preciso falar de novo com aquela senhora, disse o gerente. Com as informações que trocaram chegaram a conclusão, Dias se surpreendeu com mais aquela história protagonizada pela avó, de que a tal senhora era mesmo a avó Luzia.

11 comentários:

Paula Barros disse...

Dauri,

A beleza, sempre a beleza, deste cenário de barcos, aves, mar, castanheira, mangues, o caminho de José de Anchieta, as montanhas, as raízes...uma viagem pela viagem, uma viagem pela imaginação, pelo concreto, pelo real.

Mais nem o real, a realidade, é a mesma para duas pessoas que a olha, mesmo na quietude e nos silêncios...existe este olhar que se diferencia, este sentir que se amplia.

E a avó? Também me lembrei dela ontem, e do molho de chaves, e deste fio de azeite que tempera toda a trama desta história.

abraço!

MARIA HELENA disse...

Este seu jeito rápido e intenso de escrever,seu vocabulário eclético(irreverente às vezes)fazem toda a diferença ...
Senti sensivelmente o aroma e o sabor do licor de pitanga!Quase me embriaguei!
Abçs

MARIA HELENA disse...

Voltei para dizer que adorei o cavalinho do Pinóquio.È isso mesmo?
Abçs

Paula Barros disse...

...os dias passam, a ave, os bonequinhos-homens com as chaves, o cavalinho...

O cavalo olha como quem está observando algo, a postura da cabeça...e ele me lembrou uns cavalinhos que agente aperta e ele dobra as pernas, um brinquedo popular, vendido em feiras e festas populares.

abraço

Paula Barros disse...

...enquanto um coloca o carro, o outro olha o carro, enquanto um coloca flores, o outro olha flores...observar, apreciar, gostar de ver....e estas flores estão lindasssssssssss, é de uma delicadeza, parecem pintadas com pincel bem fininho, ou bordadas. Lembrei quando minha mãe bordava.

bom dia!

Paula Barros disse...

Dauri, ia dizer duas coisinhas e esqueci.
Uma é que descobri no quarto da minha mãe um cavalinho que tem as pernas que dobra, que uma imagem sua me lembrou dele.

E a outra é que li um comentário seu no blog de Ilaine, sobre ler Saramago e António Lobo Antunes. Comecei a ler "Os Cus de Judas" de António, e não fui adiante. E de Saramago, me indicaram "Levantado do Chão", com a certeza que eu gostaria, já que se passa no Alentejo, onde estive. Mas não consegui me concentrar.

Por sinal este livro de Saramago me lembrou muito a sua escrita, quando ele descreve os lugares, os cenários, e eu me transporto. Talvez seja um dos motivos de não me concentrar, porque saio da leitura constantemente. rsrs


Não sei se você conhece o site,
http://www.estantevirtual.com.br/
um site sério, e às vezes conseguimos livros bons, até os esgotados.


abraço!

Eurico disse...

A narrativa em fluxo, sustentada pela memória, pela lembrança, por um lirismo inquietante, que brota da alma do personagem-narrador.
Estás em momento mágico. Tua prosa escorre feito água limpa. Lembra-me os teus melhores poemas.

Sempre bom vir te ler.

Abç, irmão.

EDER RIBEIRO disse...

Dauri, te ler e não se envolver é impossível, qdo te leio me sinto como uma personagem da escrita. Abçs.

danadinho disse...

Poesia em prosa...um texto soberbo....de facto.
Não conhecia.

Paula Barros disse...

...o passarinho, de bico fechado, com a chave no bico. Vai soltar a chave? Ou vai voar com ela?


Dauri, estou me sentindo como se eu estivesse lendo um livro raro, esgotado, e alguém arrancasse as páginas do livro.

Sei que você pode estar ocupado, mas que eu quero ler, eu quero.

abraço, bom a segunda!

Ilaine- disse...

A cena descrita - e eu vejo um quadro com todos os seus elementos do belo, que á a arte. Assim você exterioriza a sua forma de escrever. É a imagem perfeita que suas palavras refletem. Sim, o mar, os barcos, o ancoradouro, o sabor da maré e os dois... olhando as mesmas coisas e entre o silêncio à sombra da castanheira. Silêncio que já não pesa. Ah, muito especial - a prosa que que aqui se faz poesia rara. Beijo