07 janeiro 2011

Inesperado sol

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Ficou ali por horas com aqueles papéis, só então lembrou do molho de chaves que recebera logo que chegara e, decerto, seria muito mais importante procurar portas e gavetas que se pudessem abrir com aquelas chaves do que folhear velhos livros, pastas, etc. Neste momento gritaram por ele da porta do prédio, era um dos homens com os quais tinha feito a reunião no bar, trazia possivelmente o comprador de ferro-velho, foi isto que concluiu ao avistar lá de cima do segundo andar um homem com marcas de quem lidava com ferrugens e asperezas, o que ficava evidente no olhar e num par de luvas grossas que trazia na mão direita. Reparou a paisagem, o cais no azul da manhã, um certo aperto no coração com o qual lutava uma luta sem elegância, sem regras, e titubeou levemente nas decisões que ia tomando. Fez sinal para que esperassem, logo desceria, mas rápido voltou à janela e pediu que subissem, achou melhor sentar-se na cadeira do gerente, impor uma certa distância, se proteger com aquela pesada mesa, impor a autoridade que o outro esperaria. A desordem da sala teria também um efeito bom sobre o homem, angariaria credibilidade tanto do comprador de ferro-velho quanto do que o trazia e que diria aos outros as notícias que logo se espalharia por toda a vila, precisava disso, de que o novo gerente estava de fato empenhado em colocar tudo de novo em funcionamento.

3 comentários:

Eurico disse...

Parece um cine-olho, essa passagem em que o personagem tudo observa, pessoas, objetos, paisagens, e analisa essas coisas de seu ponto de vista.

Gosto disso. Essa abordagem tem seu ponto alto em personagem de J. L. Borges: o Recabarren.

São fluxos que se entrecuzam, essas palavras...

Paula Barros disse...

Eu queria um gerente assim, sou do tipo que precisa de um gerente, que coloque as coisas em ordem, que saiba delegar, supervisionar, cobrar, que fosse empenhado no que faz. Imagina que meu gerente diz que esta desmotivado. (um desabafo)

"um certo aperto no coração com o qual lutava uma luta sem elegância"
Esse trecho pulou da texto e me percorreu.


Seus textos são visuais, e por vezes auditivos e olfativos.

abraço

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Dauri...quanto tempo amigo...to no devo, obrigado por suas palavras lá no Verseiro...
Assim como mencionou a Paula, as vezes espero isso da minha gerente, mas confesso que de uma maneira diferente ao qual el faz....rsrsrs
Um abraço na alma
Bom fim de semana amigo