08 janeiro 2011

Inesperado sol

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Os dias que se seguiram foram marcados por muito trabalho, não só do gerente, mas do comprador de ferro-velho e dos homens do bar. Foram vendidas as ferragens abandonadas pelas áreas livres do parque industrial, o desleixo tinha prevalecido naqueles que então conduziam os negócios por aquelas bandas, relaxo que se associou depois, no seguir dos anos, à força poderosa e rápida do abandono. Ferragens foram recolhidas desde o portão de entrada até a porta do escritório, a aparência do lugar ia se modificando a cada dia, o gramado cheio de mato e de carcaças de carros, peças de ferro e maquinários inutilizáveis por onde pastavam aquelas poucas cabeças de gado parecia agora mais plano e verde. Mesmo que o trabalho de quase uma semana tivesse já possibilitado uma nova feição para o lugar havia ainda muito ferro-velho espalhado pelas redondezas, aquele ar de tristeza, de nostalgia, ainda era forte, mas já outro espírito se infiltrava por ali. O preço combinado favorecia o comprador mas ainda mais o senhor gerente tinha lucros, recebia em dinheiro a cada dia e se mostrava seguro e determinado nas suas ordens. Os homens com suas diárias, o gerente era generoso, tornavam o bar no fim do dia um salão de festas com um vozerio animado e muitas gargalhadas, as esperanças se renovam facilmente. O tempo todo o senhor gerente estava por ali com os trabalhadores, conferindo o que se recolhia e, especialmente, o que se falava. Ocupava com destreza um lugar entre amigo e chefe, mantendo-se sempre a uma certa distância afetiva de todos, o que, imaginava, determinaria a visibilidade do seu amor pelo trabalho, o respeito por seus comandados e a segurança de sua autoridade.

5 comentários:

djanirasilva disse...

Hoje me chamou a atenção a voz do narrador. Até fez com que eu lesse com calma os outros textos na busca desta diferença.

Ao reler vou encontrando frases, trechos, que me chamam mais atenção.

Desde a primeira leitura no capítulo 23 que este trecho me chamou a atenção: "Movimentou também a boca como a acertar os sabores, a lingua e os dentes para o sono".

E no de hoje, foi essa frase:
"as esperanças se renovam facilmente"

Um abraço!

MARIA HELENA disse...

A HISTÓRIA ESTÁ TOMANDO UM RITMO MAIS ACELERADO, GOSTOSO E CURIOSO.GOSTO DOS DETALHES USADOS QUE ENRIQUECEM CADA CAPÍTULO:MÃO DIREITA,AZUL DA MANHÃ,A NOITE É QUE DOÍA,O VOZERIO E GARGALHADAS DEMONSTRANDO FESTA E MUITO MAIS.
SEU ÚLTIMO CONTO TAMBÉM GOSTEI MUITO.DENSO!JOGANDO SENTIMENTOS ATRAVÉS DOS ACONTECIMENTOS.BEM,EU SENTI ASSIM.
MAS OS POEMAS SÃO MARAVILHOSOS.EU SAIO DE MIM MESMA E FAÇO UMA VIAGEM PELA BELEZA...

Paula Barros disse...

Hoje me chamou a atenção a voz do narrador. Até fez com que eu lesse com calma os outros textos na busca desta diferença.

Ao reler vou encontrando frases, trechos, que me chamam mais atenção.

Desde a primeira leitura no capítulo 23 que este trecho me chamou a atenção: "Movimentou também a boca como a acertar os sabores, a lingua e os dentes para o sono".

E no de hoje, foi essa frase:
"as esperanças se renovam facilmente"

Um abraço

(Dauri, corrigindo, o primeiro comentário saiu com o nome da minha mãe porque estou no computador dela.)

Eurico disse...

A mãe da Paula é uma escritora e das melhores da terrinha.
E a filha vai no bom caminho...rs

Abraço nas duas.

Dauri, apesar de uns semestres no curso de Letras, não me arvoro a teorizar. Mas leio com tudo o que trago entranhado. Comento então o processo, mas não domino teorias. rs
Fico feliz em fazer leituras que te movem a escrever.

E por isso vim te deixar outro abraçamigo.

Jacinta Dantas disse...

E a Paula, usando outro computador, deixou escapar a corujice pela mãe Djanira..."uma fazedeira" de coisas lindas e muito boas de se mergulhar no espaço do Entrelaços.

Corujices à parte, vou acompanhando o trajeto do Senhor "Gerente", admirando o jeito do autor conduzir a história. Em certo momento cheguei a imaginar que o Inesperado Sol havia aparecido, em hora inimaginável...
Daqui, sigo. Acompanhando.

Beijo