06 novembro 2010

Inesperado sol

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Sentia sono, um sono inesperado, um sono de sumir pelos universos do esquecimento. Procurou o quarto esquecendo a casa, era o suficiente o que olhara, os objetos que vira na sala, seguia agora outro rumo, quase por instinto, como se aquela casa fosse sua antes, ou como se fosse sua agora, não era nem uma coisa nem outra, era um espaço, um espaço cercado de asteroides informes. Tirou a roupa, caiu sobre a cama, poxou o lençol até o peito. Não dormia fácil em cama estranha, ajeitava-se e não encontrava a posição que o corpo queria, decidiu ficar imóvel, forçar o corpo a esquecer os movimentos, a luta era quase impossível, conseguiu por uns instantes, uns minutos, quantos não sabia, talvez um único, longo, longo com cara de dois ou três. Virou-se para o outro lado, os lados eram iguais com os olhos cerrados, apertados, a impedir os pensamentos, como se acreditasse que os pensamentos fossem fluxos pelos olhos, fluissem por eles em cascatas barulhetas, infindáveis. Determinou-se novamente a ficar imóvel, os pés queriam se esfregar um sobre o outro, concentrou-se nos pés, ordenando-lhes que silenciassem. De súbito veio-lhe a cena, fragmentos da cena, olhos abertos ou fechados agora não importava, a cena estava ali em close. A mãos trêmulas, suas mãos, mas firme, trêmulas nas fibras, nas vibrações das fibras dos músculos contraídos, firme. Tremia-lhe mais agora o corpo que as mãos naquela hora. Vibrava-lhe as mãos com o revolver como vibram os átomos do aço. O revólver apontado e impiedoso.

3 comentários:

Mai disse...

Há pensamentos que são como: "...cascatas barulhentas e infindáveis..."
Mas também há quietudes e silêncios que engendram um final onde nem sempre o que surge é um inesperado sol.

Que bom, Dauri, que bom voltar a ler essas palavras.

Obrigada! um beijo e bom final de semana!

Carla disse...

O corpo pode ficar imóvel, mas a mente não para...


Bjos

Paula Barros disse...

Pensamentos que revolvem a nós, sem piedade, sem ordem, muitas e muitas vezes assim feito cascata e barulhentos, nos revirando pelo avesso, nos deixando em plena desordem.

Por um instante li - revólver.

E pensei que o revolver que alguns pensamentos proporcionam bem pode parecer um revólver "apontado e impiedoso", na nossa autoestima, nas nossas certezas, nas nossas vidas....

bjs.