18 agosto 2010

Inesperado sol

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Ao sair do banho voltou a pensar que o que vivia ali era só um descanço, permitia-se ser de novo aos olhos das pessoas um homem de bem, e aquele lugar exercia sobre ele um apelo de reconstrução. Vivia ali naquelas horas sonhos de que a vida pode ser como uma página lida de um livro jogado ao lado e nunca mais retomado. Um desejo de poeiras se precipitando sobre o que acontecera crescia em seus pensamentos, mais do que de poeiras, de aterros. Perdera a noção dos dias que se passaram desde o fato. Negava-se a encontrar um nome para o fato. Sentou-se na sala. A decoração e todos os móveis datavam dos anos sessenta. Nada fora mudado ali, mas tudo estava bem preservado e limpo. Sentia-se como se tivesse caído na infância, a casa da avó, dias felizes. Agora sua vida era curta. O passado não era mais a sua infância, a casa da avó, tudo tão distante. A vida curta se dava entre o fato inominável e aquele momento na casa do gerente. Voltar ao passado significava voltar àquele dia. Mas isto ele não queria. Voltou sua atenção para a sala, forçava as boas lembranças, mas a sala não era outra coisa senão aquela sala. Tentou retirar de cada objeto uma intimidade, mas eles se revelavam frios e estáticos, os abajures, a cristaleira, os aparadores, os cinzeiros, os quadros, os estofados. Mas as cortinas, as cortinas eram novas. Sim, descobrira uma coisa nova, as cortinas eram novas. Levantou-se.

15 comentários:

Marcantonio disse...

Que desalento quando os objetos são apenas eles mesmos, mudos e frios. É o extremo da solidão.

Abraço.

Mai disse...

O abandono é assim - uma folha lida de um livro abandonado, uma folha largada num canto, uma folha, frágil e sem importância esquecida ali. Uma folha, a penas. E o abandono é a solidão com dor, uma inflamação que não cessa e mortifica aos poucos, e mortifica, aos poucos... E eu murcho e me encolho lendo este texto assim...

MAS, felizmente: "as cortinas eram novas, eram novas... e levantou-se".

Que bom é poder reerguer-se! Quando há algo novo, inova-se, renova-se.
Tenho pensado o tempo das saudades, sabe, Dauri e como abandonar este tempo. Teu texto mexeu nessa massa que tenho mexido...

um beijo

José Sousa disse...

Olá amigo Dauri... é a primeira vez que aqui venho e gostei de tudo. Vou ficar seu seguidor, seja meu tambem em:

www.minhaalmaempoemas.blogspot.com

www.congulolundo.blogspot.com

www.queriaserselvagem.blogspot.com

Um abração

Fátima disse...

As cortinas eram novas.
Fiquei com medo de erguê-las.
Haviam trincas nas paredes.
Eu não queria vê-las.
Pensei que as paredes fossem tão sólidas...

JULIANA PAEZ disse...

Olá Darci, vim retribuir a visita em meu Blog...seja bem vindo por lá sempre!!

Obrigada pelas palavras!!

Gostei de passar por aki.

Bjo grande da JU

Paula Zilá disse...

Tantas sensações me trazem este texto!
E sensações tão próximas, é estranho, não é? Parece que certos afetos são muito facilmente compartilhados no sentir, nas sensações. O livro que é a vida, que é tomado, que é abandonado... as poeiras que impregnam nossas frestas, os objetos que queremos que digam para nós daquela época boa, daquele momento memorável... estáticos, estão. Mas as cortinas novas mostram à gente: as mutações da vida.

grande abraço, querido Dauri.

Eurico disse...

Que bom que estou cruzando com esse fluxo.
E quão bom é esse momento.
Um entrelaçamento de fluxos...

Abraço, irmão. Fraterno abraço.

Paulo Francisco disse...

Que texto bom. Gostei muito. Claro, preciso... muito bom mesmo!

Ilaine disse...

Um mesclado sofrido entre o agora e o passado, "que já não era mais sua infância." Uma procura desesperadora por algo que lhe concedesse um afago, uma morna confiança, "uma intimidade." E então as cortinas abrem um caminho ainda não descoberto...

Forte, profundo e lindo, Dauri.
Beijo

Messias Fernandes disse...

.
.
fantástico! manda o inesperado sol 20.


me identifico com a forma que apresentas as tuas histórias, formato, pontuação, linguagem..
eu achava que não poderia ser dessa maneira, me mostraste que assim posso também apresentar meus textos, que independe a forma que uma estória pode ser contada, o que vale é a emoção transmitida e levada a quem lê.


gosto disso, sem paragrafo, reto, claro e (in)certo.

seu blog, suas palavras, seu texto inspira. vou voltar a escrever um conto (pés de sinamão) que iniciei em 2008, graças ao seu blog.


obrigado Dauri por isso.
grande abraço e lance um livro logo (se é que já não o tem).

Ava disse...

Moço, tenho te acompanhado pouco, mas pelo que li aqui, tens material para um belo livro, afinal, as palavras são suas escravas...rs
No bom sentido..rs


beijos meus...

Dois Rios disse...

Há sempre uma cortina nova em meio a lembranças empoeiradas e sufocantes.

Beijo, Dauri!
Inês

p.s. Desculpe-me a demora em vir aqui. É que eu ando meio desanimada para tocar o blog.

Mai disse...

O que esperar de um inesperado sol?
Essa Palavra!

beijo

Tod(as) palavras disse...

o tempo...as coisas e seus lugares dentro da casa...dentro?...fantástico. grande abraço.

Maria Helena disse...

Será que um lnesperado Sol ainda vai atravessar essas cortinas? Estou aguardando que tal aconteça todos os dias;e está demorando...
Abç