10 agosto 2010

Inesperado sol

18

Do chuveiro caia bastante água, ainda bem, água fria, o dia vazava pela janela, se ia pelo ralo, escorria, água pelo corpo, o dia escorria da cabeça, por entre os cabelos, passando pelo rosto, pelo pescoço se perdendo longe pelo tronco, pelas pernas e pelos distantes pés, mais um dia, menos um dia. A casa do gerente estava limpa, não era nova com certeza, de umas quatro décadas atrás, mas estava limpa e arrumada numa combinação de austeridade e aconchego. Sentia-se uma visita que sonha com a hora de partir, mas gostava de estar ali, sozinho, protegido. Despedira a todos, os meninos que queriam ficar, as mulheres que logo disseram da comida na cozinha, caso ele quisesse. Fechou as portas, conferiu as janelas, desejou o banho. A reunião correra bem, dera as primeiras orientações e os homens se animaram. Não muitos, onze no total, marcados por aquela cor em que se temperam na pele os tons cinzas do sol, do alcool e da luta. Se sua situação ja era complicada, assumir aquele posto e aquela casa poderia adicionar multiplicando muitas outras complicações. A noite entrava pela janela do banheiro, caia na água cobrindo-o com um manto escorregadio, sentiu frio, arrepiou-se, um manto de morte cobrindo o corpo desnudo, se morre várias vezes e de vários modos. Fechou imediatamente o chuveiro e enrolou-se na toalha, ficou parado, completamente imóvel, sentindo a água calar-se na toalha, lembrou-se de casa, da esposa. Meu Deus, meu Deus, repetiu embalando-se apavorado, jogou a toalha ao chão, voltou ao chuveiro e deixou-se debaixo da água fria.

4 comentários:

Mai disse...

A água, de beber ou banhar, leva e transporta os dejetos dos dias. O dia foi pesado e o texto retrata isto em cada linha.
"Se morre várias vezes, de vários modos"(Dauri Batisti)

E eu te digo que me espanto com "a vida que a morte anda tendo".
Fiquei curiosa prá saber o que decidiram na reunião. Que rumo terá os novos dias, o inesperado sol.

um beijo

Ilaine disse...

Depois de tantas semanas sem ler-te, volto a impressionar-me. E "o dia vazava pela janela..." " ... sentindo a água calar-se na toalha.." Lindo!

Maria Helena disse...

O seu cinzel continua esculpindo com maestria o INESPERADO SOL.
Abç.

Paula Zilá disse...

O que fica deste texto em mim são as duplicidades da vida e mais um texto repleto de sensações.
dizem que os estóicos tinham um pensamento assim que se permetia duplo, uma direção e outra, ao mesmo tempo. Poderiam ser distintas, dualismos da vida, mas se atravessando, ainda assim...