28 maio 2010

Inesperado sol
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Eles chegaram com o almoço, com olhares de querer entrar nos velhos escritórios. Tomou ali na porta mesmo o que eles trouxeram, quatro pequenas vasilhas embrulhadas em panos de prato e colocou-as sobre os primeiros degraus da escada, despediu-os com um obrigado forçado na gentileza e fechou a porta sem que eles se arredassem dali. Queriam uma intimidade que ele até gostaria de lhes oferecer, mas não devia. A porta fechada fez com que esquecesse os meninos, subiu as escadas e tornou a descer para pegar o restante do almoço. Abriu um dos pacotes de pano, ali estava bordado terça-feira, um prato, a vasilha sobre ele, destas de plástico, continha costeletas de porco envoltas em maravilhoso perfume, abriu a outra, quinta-feira, trazia uma salada de pequenos tomates sobre algumas folhas de alface, a outra, segunda, uma boa porção de feijão e arroz, uma colher de farinha ao lado, na última, domingo, um pedaço de cuscuz branco com muito coco por cima e um belo filete de leite condensado em espiral, por fora, no mesmo embrulho, uma lata de coca-cola e os talheres. A visão da comida, o cheiro, a brancura dos panos de prato lhe acordaram para a fome. Comeu avidamente. Lembrou-se dela, não queria mas lembrou, o amor no cotidiano é belo depois, à distância. A lembrança encerrou o almoço, contraiu o rosto e levantou-se, tomou um pano de prato, o domingo, e levou-o às narinas, fechou os olhos, queria absorver algo daquelas fibras de algodão, uma alma talvez, a casa, o amor, a vida do dia a dia, o calor de uma cozinha, o tempo presente que agora não lhe pertencia mais. O passado o perseguia, e o futuro não amanhecia senão entre brumas.

12 comentários:

Mai disse...

É...Há uma ausência que não é desmemória. Ou é presença de vida que se foi, ou é morrência que se sente em vida.
Cheiros e memória, ainda esta semana eu falava sobre isto.
Mas eu vou te confessar: não é que me dá uma gastura danada, o sofrimento desse homem...

Um beijo


P.S.

Percebi pequenos equívocos de digitação no corpo do texto.

paula barros disse...

Dauri, tenho imprimido seus textos e lido atentamente.

Sempre algo mexe comigo,com algum momento meu, assim foi com essa frase.
"Queriam uma intimidade que ele até gostaria de lhes oferecer, mas não devia"
Tenho refletido sobre o não ter intimidade com algumas pessoas, o quanto a distância muitas vezes é o melhor.

E esse cuscuz me deixou com água na boca, adoro comidas que levam coco.

O detalhes das vasilha no pano de prato, e com os dias da semana, achei bem interessante. Me trouxe lembranças, vi a cena.

abraço

(mandei um e-mail para esse endereço ao lado)

Mª Helena disse...

Senti cheiros,sabores,saudades de coisas distantes e de próximas.Suas palavras são tão intensas,tão vívidas que sinto até saudades do que não vivi.
Continuo intrigada com o gerente.
Abçs

cf disse...

Acordar para a fome.
Fome ávida.
Passado insistente, ainda que entre brumas.
Dias correm,
panos de prato.
Mas não há sossego
nesta matéria linguageira
chamada amor.
Mesmo que à distância,
ele possa parecer mais belo,
prefiro-o cotidiano.
Como a segunda, a quinta, a terça, o domingo...
porque ele vem com o sabor das comidas.

Abç

C.f

Jacinta Dantas disse...

No cheiro há saudade, e, com esse cheiro, continuo atenta às inquietações desse moço.

Beijo e bom dia!

mundo azul disse...

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...dividir a intimidade é algo bem delicado...Ou não entendem o nosso modo de ser, ou procuram então, nos fazer a seu modo...Quem dera pudéssemos ter intimidade com o mundo e ele nos sorrisse...

Percebi no seu texto, o quanto estamos ligados aos sentidos...

Gostei! Como sempre, as suas palavras criaram uma cena muito nítida...Obrigada!


Beijos de luz e o meu carinho, sempre!

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EDER RIBEIRO disse...

o amor no cotidiano é belo depois, à distância. Isso tudo pq um não suporta o outro qdo juntos. Abçs.

Ava disse...

Dauri, de tão real, chego a sentir o cheiro das costeletas de porco. A cena me é tão familiar...

Incrível como voce passa uma verocidade de forma tão simples e direta.

Quaro saber quando sai um livro seu.


Beijos meus!

Ilaine disse...

O passado o perseguia e as fibras de algodão lhe trazima lembranças. Ah, que lindo, Dauri!

E eu aqui, juro!, fiquei com água na boca: Feijão com arroz, coco, leite condensado... Delícias da terrinha.
Abraço

Jacinta Dantas disse...

Por onde você anda?
sinto saudades de você por aqui e lá no florescer.
Beijo

Mai disse...

Talvez, inesperado, o sol tenha se posto.

Tô com saudade.
Mas espero.

um beijo

Carla disse...

"Lembrou-se dela, não queria mas lembrou, o amor no cotidiano é belo depois, à distância."

tecendo banalidades de modo tão bonito. tão silêncio.