23 fevereiro 2010

O último porto do rio
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A volta para casa agora parece escorrer por um século longe, bem longe daqueles dias estendidos como roupa no varal logo ali no passado, ali onde a vida se ia estagnada, de casa para o cais, do armazém para casa. Alguns poucos dias se passaram desde o momento em que desci ao porto para ir me encontrar com Maria Júlia e atender seu pedido. Mas o tempo, corda atada aos tornozelos, se vai em friezas por vastidões do universo e nos entrepontos dos passos que dou. Não sei se o vinho ou o ar lavado pela chuva faz tudo ainda mais distante, impassível, os fatos e a vida dissociados, o pé se alevanta atrás e se apoia adiante nas pedras do calçamento da rua, o que foi adiante fica para trás, o que se baseou no chão volta ao ar, um avanço e um recuo na zona morta entre o agrado e o desprazer de mais um dia. Desconcentro-me do pensamento nos passos quando José Bento se despede, tomando o rumo de sua casa. Sigo pela rua abandonada e apenas o que quero é uma cama, o estirar-me sem anseios senão o do corpo que quer destituir a alma de seu comando deixando-a às tontas, desamparada, e o corpo fará da sua prostração o escárnio da agonia da alma em se ver sem o poder da vigília permanente, o farol apagado e ela vagante, perdida sobre o mar dos meus anos, perdida de seus rumos nos meus passos, inventando sonhos para não se desprender de mim. Dou-me conta de que estou sem as chaves de casa, a maleta ficou no armazém, ou no gabinete do juiz, Onde meu Deus? Volto ou arrombo a porta, uma janela? Paro. Olho para um lado e para o outro, alguém, alguma coisa poderia me tirar da indecisão, Maria Júlia em outros tempos ao meu lado diria vamos voltar, qual o problema? Aquele sorriso, borboletas amarelas e abelhas sobre a florada do cafezal em manhãs de sol quente depois de chuva mansa, me ajudaria. Volto sozinho ao armazém, sem resignação, sem revolta, alguém, insone, que olha por pequena janela e avista uma nesga de céu com uma lua esvaziando-se e traída pelas nuvens a deixá-la ora escondida, ora à mostra, despida. À porta do armazém sou invadido pelos olhos do menino, o filho do pescador, o feliz, e sinto seu medo, a escuridão como um poço profundo, um túnel imenso ali por dentro onde se escondem os que só se mostram por leves toques na pele. Encontro a maleta, volto para casa e desejo, volto apressado para casa com um desejo, não entendo, sonhar com a jaqueira mansa e amiga, a velha jaqueira cuja sombra ao cair da tarde chega, agora sei, para acariciar as mãos de meu pai, o rosto de minha mãe. Não me importa mais a cama, apenas a jaqueira.

10 comentários:

Mai disse...

Neste capítulo, ao mesmo tempo em que há tanta vida, traz nas entrelinhas uma quase entrega à morte...É como quem resiste, se esforçando prá se manter de pé. E foi inevitável lidar com a imagem recorrente de uma chuva comandada pelo vento.
Um beijo

Maria Helena disse...

Mais uma vez mergulhei num mar borbulhante de poesia.
Queria saber me expressar assim...
Abraço
Maria Helena

Ilaine disse...

Eu leio este texto e as imagens forma-se diante de meus olhos como se estivesse assistindo a um bom filme. Segui ansiosa os passos de João e deixei-me envolver por este belíssimo relato. É impossível ficar de fora. "borboletas amarelas e abelhas sobre a florada do cafezal em manhãs de sol..."

Abraço

paula barros disse...

Dauri, não me contive e ressalto os trechos que falam comigo, que me fazem parar, refletir, apreciar.

"Mas o tempo, corda atada aos tornozelos, se vai em friezas por vastidões do universo e nos entrepontos dos passos que dou."

"os fatos e a vida dissociados"

"o estirar-me sem anseios senão o do corpo que quer destituir a alma de seu comando deixando-a às tontas, desamparada, e o corpo fará da sua prostração o escárnio da agonia da alma em se ver sem o poder da vigília permanente,"


"inventando sonhos para não se desprender de mim."

dois beijos, das duas Paulas. rsrs

paula barros disse...

Uma Paula disse para a outra: e você nem colocou aquele trecho tão bonito, aquele que ajuda a sonhar, a deixar a alma sorrindo e voando.

"Aquele sorriso, borboletas amarelas e abelhas sobre a florada do cafezal em manhãs de sol quente depois de chuva mansa, me ajudaria"

Dauri, me faltam palavras para elogiar seus textos, são poéticos, são filosóficos, são bem elaborados....e me fazem mergulhar e voar.

beijos, bom dia!

Vivian disse...

...adoro quando você passeia
lá em casa,
porque és alma linda!

beijos e beijos procê!

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Dauri, vou contar-lhe uma coisa: se vc não tivesse comentado na Vivi que o Blog era azul, jamais eu teria sonhado. E os comentários bem pé no chão na casa do Hugo?
Muito obrigada por me fazer enxergar coisas que não consigo.

***

Pra vc que me sabe tão bem.

*SABE TÃO BEM...

Sabe tão bem...
Quando o silêncio da noite vem a cair
Haver nos olhos o brilho da felicidade
Haver alguém a nosso lado para amar.

Sabe tão bem...
Fazer Amor e aninhado ficar a sonhar
Que voamos sobre as luzes da cidade
Tendo o céu para desvendar e colorir.

Sabe tão bem...
Puxar os lençóis para sentir outro calor
Mover o corpo no sentido de encontrar
O apelo do desejo que o sono engana.

Sabe tão bem...
Deixar correr o pensamento que emana
E nesse momento saber onde procurar
Tudo o que é preciso para viver o Amor.

Sabe tão bem...
Adormecer com uma esperança já definida
No sorriso que em nossa boca aflora o dia
Ciente que o amanhã virá com a verdade.

Sabe tão bem...
Por fim haver a força que faz da realidade
Uma passagem para ir feliz na companhia
De tudo o que sabe tão bem em nossa vida.

F. Corte Real*

Aquele abraço!
Venha sempre que quiser à minha casa. Um prazer recebê-lo.
Renata

Aaron Thomae disse...

http://www.bestvacationdestinations.blogspot.com/

paula barros disse...

Dauri, boa noite, de vez em quando passo aqui, releu algum trecho, e até gostaria que nesse domingo estivesse atualizado leria com mais calma.

boa semana! beijo

mundo azul disse...

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Como a Paula, gostei particularmente quando você descreve o sorriso "dela"... As coisas que nunca se apagam, mãos de carinho, rostos que afagavam sem palavras...

Você escreve bem demais! Obrigada...


Beijos no coração...

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