19 fevereiro 2010

O último porto do rio
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Algo em mim diz Acende um lampião, tateia pelo escuro seguindo a memória de passos passados e encontre um lampião. Outro em mim, destituído de vontades, se alimenta de uma consoladora repetição, uma engastada forma de fixar o tempo na calmaria, no frio de viver longamente um instante congelado, Fica quieto, fica quieto, fica quieto. A dor é maior que a inércia, sempre, a dor sempre vence, até perder de vez. Então, um tempo depois, ainda não de todo derrotado, a dor me põe no escuro dando passos certos pelos espaços dentro do armazém como se os passos é que enxergassem o rumo, os olhos de nada servindo, alcanço um lampião, o mais próximo, a parecer a vida imaginada em ilusões de conduzir os acontecimentos, acendo a luz. José Bento fica à porta, figura delineada pelos clarões, aguardando-me a despeito de não saber o que eu ia fazer. Volto com uma garrafa, coloco-me no chão de cimento, recosto-me quase deitado com a cabeça nas sacas de café, sinto alguns grãos perdidos no chão me pressionando o corpo, ajeito-me, ele se aproxima e se recosta por ali também. As vozes da chuva persistem e recontam histórias que ouvimos sem querer, alunos de uma escola onde as lições impostas parecem tão além da compreensão que ouví-las mais uma vez não custa senão a atualização de um insípido hábito, alunos a lidar com as letras de palavras desfeitas para se montar, por tarefa ordinária, indócil idioma, outras palavras, estas que queimam os olhos e se negam à qualquer possibilidade de entendimentos. Tomamos do vinho no gargalo, um vinho sem cerimônia e por conseguinte derrotado em seus sabores, abandonado de qualquer emanação dos deuses da alegria, descendo peito abaixo sem desatar nós, umedecendo-os apenas, desdenhoso sumo, rio exonerado dos princípios da benfazeja embriaguez.

10 comentários:

Márcio Ahimsa disse...

a benfazeja embriaguez é a altivez dos homens simples que laboram a vida através de despojar a terra, vingar o dias, se fartar de pão, cio da sina divina, caminhar a sabedoria e fecundar as histórias contadas em anedotas à beira da fogueira, uma noite fria, porém, despida de solidão...

Abraço, Dauri.

Mai disse...

Gosto especialmente de capítulos assim: poéticos, reflexivos.
A dor se impõe como a noite ao dia e cava uma espécie de rendição. Nessas horas, são tantas as vozes que pedem:
"Acende um lampião"...
Você tem palavras que invadem minh'alma. Eu fico aqui bestuntando, remoendo as falas.

Abraços e obrigada pelas palavras.

Instantes Poéticos disse...

Li esse capítulo e me tocou bastante, gostei.
Estou te seguindo, pois quero ler mais.
Abço.

Elcio Tuiribepi disse...

Dauri,assim que cheguei fiquei imaginando a quantas andam a quantidade de páginas deste O último porto do Rio...
Não sei, ou sei, mas sempre que inicio a leitura o sentimento é parecido, pos as palavras exprimem o lado mais humano do sentido humano e não consigo ler como um conto, leio e sinto como um poema

A dor me põe no escuro dando passos certos
pelos espaços dentro do armazém como se os passos é que enxergassem o rumo,
os olhos de nada servindo, alcanço um lampião,
o mais próximo, a parecer a vida imaginada em ilusões de conduzir os acontecimentos, acendo a luz...

Acender a luz me remete ao meu poema atual lá no verseiro...
Não interessa...o que interessa é o seu talento com as palavras...
Um abraço na alma...

Germano Xavier disse...

Dauri Jack,

grandes sensações e boas na volta ao teu recanto. Um mudar de canetagem me abraça os olhos desta vez. Simplesmente magnífico. Queria ter o tempo necessário para ler-te com necessária doença. Fica aqui meu abraço-amigo e o meu obrigado pelas tuas palavras lá no Equador, sempre pontuais.

Sigamos, bucaneiro.
Sigamos...

paula barros disse...

Um conto que me passa a introspecção, uma profunda reflexão.

"tateia pelo escuro seguindo a memória de passos passados e encontre um lampião."

"As vozes da chuva persistem e recontam histórias que ouvimos sem querer"

"...descendo peito abaixo sem desatar nós..."

No mais Dauri, é ficar sempre apreciando a forma como escreve, como faz a trama da história. E sentir as frases e refletir junto com o personagem.

beijo, bom domingo!

EDER RIBEIRO disse...

Sorvo os teus textos como quem bebe um bom vinho, sabendo que são necessários vários copos (texto) para saber bêbedo de saber. Abçs.

paula barros disse...

Oi, Dauri, bom dia!

Vim olhar se tinha novidades. E aproveitei para olhar a ponte.

Em março pretendo atravessá-la e fotografá-la.

abraço!

Maria Helena disse...

Esse seu jeito de descrever as batalhas interiores do fazer ou não fazer,falando de sentimentos mas agindo de maneira iesperada, e sempre com palavras embrulhadas na mais pura poesia deixam-me em êxtase,principalmente ouvindo as vozes da chuva.
Muito lindo!
Abraço de Maria Helena

Ilaine disse...

Que texto, Dauri. Uma viagem ao mundo das percepções, banhadas da mais linda poesia.
Abraço, escritor!