17 fevereiro 2010

O último porto do rio


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Todas as águas dos céus, parceiras e antagonistas da sufocante noite de verão que se levanta indômeta sobre os despojos que arrasto nestes últimos dias, parecem querer se juntar às do Santa Maria num cair de zombaria, num correr vale abaixo em risos e murmurosos menosprezos aos meus malfadados intentos. Corremos para o armazém, nos encostamos à parede onde o beiral largo do telhado nos protege precariamente, abro a porta e entramos, mas ficamos ali, na entrada, olhando a chuva sobre o porto, ninguém nada fala, a intensidade da chuva, o barulho sobre o telhado exigem de cada um os pensamentos mais destituidos de palavras, aqueles que mesmo não sendo tristes ganham da tristeza o jeito, o feitio, aqueles que para pensá-los só se pensa na imobilidade do corpo, da voz, do olhar, ao modo de uma hipnose sofrida. O menino se aproxima do pai precavendo-se do medo, percebo, daquela imensidão escura por detrás, dentro do depósito, e somente ele com seu olho que vagueia entre o presente e o futuro curto e certo, o dia de amanhã, se divide entre olhar o porto lá fora e a escuridão dentro do armazém instantaneamente iluminado pelos clarões que atravessam os empoeirados vidros de umas poucas e altas janelas nas laterais da edificação. Nós outros ficamos presos ao rio, à chuva sobre o porto, presos ao que em nós, de um modo ou de outro, já é a consciência de que o rio permanecerá ali, mesmo e tristemente quando o porto se compor somente de umas pedras marcadas, sinais e ruínas de um tempo vencido, consciência de que o que flui é o que se evade inexoralvelmente de nós. Depois de um bom tempo olhando o porto dominado pela chuva agradeço a disponibilidade de José Bento e reconheço a total impossibilidade de descer o rio naquela noite como eu desejara, ele garante descer comigo no dia seguinte e me aconselha a descansar um pouco dizendo-me que minha aparência não era nada boa. O pai pescador e o filho se despedem, resolvem ir sem esperar o temporal passar e enfrentam a chuva para voltar para casa, o menino sai correndo atrás do pai como se fosse a mais feliz brincadeira de muito não desfrutada, a cena que se foi perdendo na chuva e na escuridão fixa os meus olhos naquela direção, o que o negro falava, por um certo tempo, não me chegava nas cavas do entendimento, de longe o som de uma voz amiga, a sua, me dava leve conforto a deixar-me seguir em pensamento, abandonado e livre, correndo também pela chuva afora. Deparo-me com crianças o tempo todo, a cidade tem muitas por todos os lados, mas agora elas me exigiam pensamentos, lembranças, cotas de pagamentos atrasados, dívidas impagáveis. E Maria Júlia? pergunto depois. Maria Júlia não está bem, ele diz. Eu sabia, digo, O que acontece com ela? A chuva ganha força, os relâmpagos se antecipam em respostas incompreensíveis e clarões desnorteadores.

6 comentários:

Ilaine disse...

A chuva. Ah, mas lendo este texto parecia me ver lá no RS quando criança e quando a chuva vinha forte. Sim, ela tirava-nos a fala, não era necessário dizer alguma coisa. A chuva molhava os pés e as pernas e invadia nossas vidas por alguns momentos quando seus pingos patinhavam na lage da casa de meus pais.Era imensa e eu a olhava com olhos de menina apaixonada e degustava o cheiro de terra molhada. Aqui a chuva é bem mais mansa.

Parabéns, escritor.
Abraço

Jacinta Dantas disse...

Ah Dauri!
li o capítulo ontem, a noite, num fôlego só. Depois, li pausadamente, visualizando a força da tempestade. Agora volto, leio de novo e, como vi ontem, vejo outra vez o temporal de pensamentos. Ah! mas os "relâmpagos se antecipam em respostas..."
Que legal!

Beijo

Eurico disse...

A escritura canaliza a força da natureza, mais do que numa mímesis, mas em uma poíesis...
Aqui não há apenas a chuva, mas palavras, "essas palavras" telúricas, líricas, mas de um lirismo que desaba em nossas consciências, feito um toró.
Dessa chuva lida, não se pode abrigar. Ela nos invade.
E já não somos os mesmos, pois é Arte!

Abraçamigo, Poeta!

Maria Helena disse...

Faço minhas as palavras do Eurico. Depois de ler este capitulo que nào ficaria encharcado da chuva de lirismo?
Mesmo aqui em Guarapari senti necessidade de ler o seu conto.
abraço Maria Helena

tossan disse...

Isso! Essa é a palavra que me escapa "Lirísmo" Assim é tua escrita! Abraço

paula barros disse...

Dauri, gostaria de ressaltar alguns trechos mas ficaria longo.

A chuva e os pensamentos, a ruína e o passado, o rio e a vida, a criança e a nossa criança...seu conto me passa uma volta ao passado, um mergulho nas memórias, e o caminhar na vida.

O bom dos seus contos, é podermos viajar por eles, vendo as imagens que se formam com os detalhes descritos, apreciando as paisagens, sentindo...e também viajar por nós, nos vendo nos pensamentos e atitudes dos personagens.


um abraço!