13 fevereiro 2010

O último porto do rio
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Decidi. Vou subir o Santa Maria. Pedi ao marido e ele concordou, vamos num passeio logo em alguns dias até o Último Porto como despedidas desta província, já que voltaremos ao Rio de Janeiro. Ele é áspero e impertinente, delicado não me é no dia a dia, mas tem em si por causa de nutrir uma nobreza da qual ele não é herdeiro, mas que pensa que tem, mais sou eu do que ele concebida nestes títulos que não me significam muita coisa, uma necessidade de me ser cortez, de me fazer certos agrados uma vez ou outra e ai me aproveito do que posso. De tudo o que falo pensas, sei que pensas florista, que minha vida é isto, un letto di rose, um lago de superfície plácida onde um barquinho vai sem balanços sob um sol poente iluminando de vermelho e amarelo em suaves tons o horizonte. O que de pior acontece nesse quadro que me pintas é que em não faltando nada, falta-me o arremate, e assim sendo, sem ilusão ou com uma dela bem ínfima dose destilada em minhas mãos pelas ditas cartas, tudo se perde em descontentes momentos que se há de viver de qualquer modo.

Não concordas, sei, ainda que não fales não concordo. Observo que vacilam tuas ágeis mãos em leves erros nas artes de compor estas belas flores que copias da natureza ou que inventas em teus recursos, revelando assim que segues ouvindo-me em discordâncias. Imagina, pensa, te explico, se, em tendo feito todo o trabalho da armação, o recorte das pétalas e o revestimento das hastes, tudo com finos tecidos, tendo necessidades de entregar tuas encomendas, um ramalhete de flores delicadas antes em teus sonhos confeccionado, sem amassos e dobras, te vem a faltar as lantejoulas, as linhas douradas, as delicadezas dos desfechos. Imagina estas privações impondo às tuas flores o caráter de um punhado de trapos amarrados. Pois bem, é isto que careço em viver, os arremates, e então tudo o mais se desfaz em permanentes e visíveis incompletudes, com as quais vou e com as quais me acostumei a um certo modo. De outro espeta-me o lençol, não me refresca o banho, as rezas não me consolam, e não me reconheço em vozes cantantes, as minhas, que há muito não consigo soltar entre aqui e ali, entre a sala e a cozinha, entre a porta e o cais em pequenas e bobas modinhas e cantigas.

Tirando estas vezes que aqui venho, quando pelo encanto com a presteza de tuas mãos e pela atenção dos teus ouvidos me ponho a falar, e além do que devo, prefiro o silêncio e o recolhimento. Não é religioso, nem cheio de Deus e de seus santos, mas é um outro o recolhimento, sinceramente digo, é aquele em que dedilho as contas das horas ocas, dos dias perdidos, da insensatez de querer felicidades e estas coisas que se seguem nesse rumo. É nas sombras do quarto e nos nublados da sala que sigo meus longos dias. Me acostumei, estas malditas cartas que começaram a aparecer debaixo da porta é que me tiraram do morno seguir da vida. Ir ao Último Porto do Rio, não me engano, será um passo que na ilusão darei, e nada mais que isso, um candeeiro aceso e colocado ao sol, um café que se passa só pelo perfume a dar à casa um ar de... sei lá, me entendes?
Um ganho secundário talvez advenha da viagem de barcaça pelo rio acima e rio abaixo, o recolhimento de uma paisagem, o desvelar de outros cenários. Olha que as paisagens nos alteram por um momento, ficamos outros, mais leves, num misto de alegrias e melancolias. Este caminho entre a alegria e a melancolia me pega quando me ponho à janela e vejo a baía, os navios, as barcaças. Amolecemo-nos, presta atenção quando olhamos um lugar bonito ou diferente, ganhamos uma certa coisa de água, de vento, que se dá talvez pelo desarranjo das seriedades que nos tornam opacos, rijos, repetitivos. Ah, o autor das cartas? sim, talvez conhecê-lo, talvez, questo mi piace, e aqui não nego a ilusão e a cor da ilusão e o gosto dela, e lá haverei de saber as nuances do sabor. Decerto, se me for possível, a ti com gosto relatarei no que me surtiu a viagem e o que nela vivi.

6 comentários:

Mai disse...

Dauri,

Lendo na defasagem dos anteriores, novamente me ressinto de não os ter lido. Parece que a leitura, naturalmente se adensa à medida em que a rede de personagens se amplia.
Na descoberta de personagens, há as minhas próprias descobertas.
As identificações são inevitáveis e uma certa nostalgia me invade porque tua escrita é meio mágica ou xamã... Depois ne embrenho na riqueza dos cenários, a fotografia do texto que fazes tão bem.Cheiros, sons, texturas...

E percebí que há um bouquet essencial, e que talvez permeie ou atravesse todos os episódios:
o desejo, o respeito, a liberdade, as inquietudes e os caminhos no navegar da vida.
Descaminhos no 'ir mesmo assim', e o deixar sem querer deixar, mas deixar ir - no fluxo, no curso e no devir dos rios.
.
Não me lembrava da florista.
Vou pelejando prá atualizar a leitura.
Um beijo

paula barros disse...

Dauri,

Se ao ler um texto em algo me identifico, ele tem uma outra beleza, uma outra grandeza. Assim tem sido por aqui, assim foi mais ainda com esse conto de hoje.

As vozes, sinto mais de uma no texto, mexe com o meu imaginário, com o real. Sabe alguns trechos que a gente fica, poderia ser eu?

Os textos onde a senhora aparece são muito profundo em pensamentos para refletir, ou se tornam para mim.

beijo, bom domingo!

paula barros disse...

Só li o comentário de Mai, depois do meu, interessante os sentimentos parecidos.

Penso que isso seja muito bom para o autor, essa construção de textos que o leitor se identifique, se sinta inquieto e se descobrindo. Sendo ou não a intenção dele.

beijo

paula barros disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ilaine disse...

"...as delicadezas dos desfechos." A florista e a sua maneira de lidar com as flores é belamente descrita. Ela no silêncio e na discordia, ele em análises sobre a vida, sobre as percepções, os sonhos - as vidas entrelaçadas. Estou encantada, Dauri. A leitura envolve de forma intensa.
Abraço

Vieira Calado disse...

Olá, meu caro!

Passei para ver as novidades e deixar um abraço.