05 fevereiro 2010

O último porto do rio
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Era para ser um dia de sol rasgado de azul, preguiças e calor, mas olha que nuvens caíram da noite sobre a manhã. Bem sei que este dia assim combina mais com a tristeza que se vai ajardinando na minha vida. As calêndulas estão lindas, este amarelo dourado que escolheste destila saudades, ou desânimo, desânimo é uma plavra sonora, animada, não é? saudades ou desânimo numa mistura de verão e nuvens escuras. Não, não, este tom de amarelo e este nublado de hoje aliançam em laços frágeis o arrependimento e o tempo perdido, é isso mesmo, presta atenção, percebes?, tu tens a alma com olhos de distinguir o que se deposita sobre as coisas transformando-as, podes ver. Bem sabes que um dia, nublado ou rasgado de luz, é mais que um dia, e estas calêndulas de seda com folhas de fino veludo se condensam de outros materiais, de forças invisíveis que se encontram com o mundo.

Reli hoje uma das cartas do João Francisco e não quero dizer-te nada além disso, esta dentre tantas cartas me fez pensar que estamos unidos sempre por frágeis ligas, mas o que falta por dentro nos ocos do coração faz um fragmento colorido de vidro ser um diamante. Relendo esta carta me dei em dores de saber que estamos unidos, ele e eu, não gosto da palavra unidos mas agora não me vem outra, por esta poeira pegadiça que se deposita sobre a matéria, sobre as pessoas e sobre os fatos, sim, esta mesma poeira que faz com que tuas calêndulas se amplifiquem com outras constituições além de seda e veludo. Não nego, todavia, que sem a languinhenta poeira as coisas elas mesmas se tornem poeira.

Sim, meus filhos já sabem que voltaremos ao Rio de Janeiro e ficaram felizes com a possibilidade de estarmos próximos mais uma vez. Deles, em outras épocas, já senti muita falta, mas hoje são homens feitos, cada um com sua vida, estando lá ou aqui nada mudará os rumos da solidão que traça como competente engenheiro as estradas que me atravessam. Desci para o cais dos Jesuítas e ouví a notícia de que as barcaças do Santa Maria não navegaram por uns dias por causa da cheia do rio. Fiquei ansiosa, agora voltei a aguardar com juvenil expectativa estas benditas cartas. Ali no cais deparei-me com a senhora tedesca, me pareceu feliz, animada, comprando uns peixes e temperos, ela não me viu e nem me acheguei a ela, fiquei a distância e daí mesmo me retirei. Há momentos e momentos, e aquele estava longe de ser um bom momento, muito menos para uma conversa carregada destes protocolos que se dão antes da intimidade. Uma coisa notei, usava botinas Luis XV, pensei em como são frágeis os detalhes quando se olha de um ponto de onde também se delineia o rumo do destino.

20 comentários:

paula barros disse...

Dauri, volto para ler com calma, já espiei duas vezes..agora comecei a ler, mas foi me tirando o fôlego esse início, que fico me repetindo, que é muito poético e lindo...

Mas eu vim mesmo te dizer que imprimi vários capítulos para ler com calma, vou deixar lá na mesa de cabeceira, junto com Autran Dourado e outros...

Autran nem tem blog para eu conversar com ele, dizer que estou curiosa sobre a história e que adormeço lendo ele e dizer quem me deu a dica do livro. rsrs

um abraço e bom dia!

Mai disse...

"...um dia, nublado ou rasgado de luz, é mais que um dia..." É, 'um dia é mais que um dia...'
depois eu termino de ler.
beijo

paula barros disse...

Dauri

Concordo com você que podemos ler seus contos separados.
Mas confesso, ler junto os contos, poder ler no papel, numa sequência, relendo com calma, grifando, anotando, interagindo com a fala dos personagens, parando para visualizar as cenas, parar para sentir a emoção de alguns trechos, e são vários que provocam reflexões, que mexem com a emoção, é simplesmente fantástico.

Estou maravilhada em ler no papel. É sem sombra de dúvida muito melhor. Imprimi do 22 em diante. Foi um presente que me dei.

beijo

paula barros disse...

Dauri, veja a importância que foi imprimir para ler.

Percebi que todas as vezes que era o conto na voz dessa senhora, eu não consegui ler direito, me perdia. Não percebia a grandeza do texto.

E lendo no papel me situei, ou penso ter me situado melhor.

Me chamou a atenção a voz/pensamento (não sei se é assim qu se diz) dela, têm frases que levam a profunda reflexão da vida.

Embora podemos perceber isso em todos os contos.

Ler seus contos não é fácil. Vai das paradas bruscas, a falta de fôlego, ao mergulho em apnéia, aos olhos embaçados, ou vagando em imagens...é emocionante.

"mas o que falta por dentro nos ocos do coração faz um fragmento colorido de vidro ser um diamente"

abraço

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Despertei e vi o seu comentário na Vivi. Adorei!!!
Beijos.
Bom Dia sempre.
Renata

Vieira Calado disse...

O texto está muito bem escrito. Ponto final.

Agora:

O autor do texto,

é brasileiro, ou é português?


Forte abraço.

Branca disse...

Seus textos são de uma riqueza imensa Dauri, provocando diversas sensações em quem tem o prazer de ler...parabéns por tamanha sensibilidade!


Bom dia e bom fds! Bjo.

Dauri Batisti disse...

Caro Vieira,

Sou bem brasileiro e descendente de italianos,rsrsrs, nunca estive em Portugal. Mas as personagens são do fim do sécul XIX. Propositalmente ao escrever esta história saio - para não dizer fujo, não chega a tanto - mas saio do linguajar coloquial. Também não quero reproduzir um modo de falar o português no fim do séc XIX no Brasil, mas quero criar uma diferença. Até tenho lido cronistas brasileiros deste período, só para entrar no "clima".
Obrigado pelo comentário,

um abraço forte.

Eurico disse...

Bom te ver no clima... é preciso criar universos e vc faz isso com mestria.

Abraço fraterno

(voltando aos poucos...
recuperação é lenta.)

ex-controlador de tráfego aéreo disse...

Olá Dauri,
ontem pela manhã, ao abrir um comentário diferente, pela língua, em meu blog, deparei-me com seus textos. Não resisiti e comecei a lê-los, terminei agora e digo que são muito ricos das imagens que que da sua imaginação criam-se nas mentes, ágeis, quase se toca a densidade do ar e da selva, das pessoas. É quase a mesma sensação de se ler Bernardo Guimarães ou José de Alencar, para mim.
A propósito, obrigado pela visita e comentário, mas, o que quis dizer com: Haja cuidado, ao comentar o texto no meu blog?

Um abraço fraterno!!!

ex-controlador de tráfego aéreo disse...

Obrigado pelo esclarecimento, Dauri!

Um abraço fraterno!!!

Mai disse...

A formalidade descrita nas últimas linhas do último parágrafo - trazem - algumas justificativas aos desejos 'entubados'.
Você é um grande escritor.
beijos

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

goste de literatura que mistura arigo, cronica e conto como a tua

Camilla Tebet disse...

A palavra desânimo fala de alma... como vc diz gostar dessa palavra. Também gosto de algumas palavras, principalmente em textos cheios de alma como esse. Lindo!

Dauri Batisti disse...

Camila, eu particularmente não gosto nem desgosto da palavra desânimo, mas na perspectiva da personagem a palavra ganha destaque.

Um beijo.

EDER RIBEIRO disse...

Cara se eu não te linkar vou me arrepender imensamente, vou te seguir,lendo, mesmo não comentando alguns contos. Estou maravilhado. Voltou outro dia para ler este de novo. Valeu. Abçs.

Ilaine disse...

Ah, escritor, estou sem palavras... Acabei de ler um texto de rara beleza. A leitura prende e flui e quando nos damos conta estamos de mãos dadas com o conto e nos facinamos com seu lirismo.E queremos continuar a navegar pela história e seguir com o personagem. É lindo, simplesmente. Dauri, eu já havia gostado do anterior, mas este é ainda melhor. Parabéns, amigo!

Beijo

Ricardo Calmon disse...

Emanas da terra não só de pai meu mas da família!

mui me honra te apreciar e referendar como escriba!

viva la vida!

EDER RIBEIRO disse...

Voltei para comentar. O gostoso dos teus textos é que além de ser poético, tem um lirismo que faz o leitor não precisa fazer muito esforço para se imaginar no conto devido a riqueza das palavras escritas. Parabéns. Abçs.

Tiago Soarez disse...

Dauri!

Como as coisas aqui mudaram desde a última vez q te visitei! Preciso ler tudo com calma!

Mas gostei das novidades... vou ler tudo direitinho.

Abração e muito obrigado por sempre se lembrar do meu café!