07 fevereiro 2010

O último porto do rio
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Finalmente assino o documento, bem mais tarde do que eu pudesse imaginar, mais de seis horas da tarde, o juiz, percebo, sem saber onde deixá-lo, Na prisão não Excelência, me adianto, ele não é um criminoso, me porto como advogado, peço desculpas por ter falado, sei, ele pensa no que fazer com o índio naquela noite, ele lê e relê o documento como se soubesse da minha pressa e se colocasse contra ela, mas na verdade ele nem lê o documento que eu já assinara, indo de um lado para o outro da sala com aquela folha na mão se dá tempo tomando o meu, para pensar, toma o tempo que eu devia à Maria Júlia. Mas, se o juiz pudesse ouvir minha voz, esta incessante e silenciosa, poderia se interpor entre mim e os meus caminhos transversos e perguntar Que Maria Júlia?, o que o senhor tanto quer com esta Maria Júlia?, é sua esposa? não?, então, por favor, o senhor João Francisco me permita pensar o que fazer com este silvícola. Ao final, sem alternativa, o juiz decide que ele seja entregue ao chefe de polícia que por ali já estava, toda a cidade se aglomerava à porta. O chefe de polícia entra na sala e recebe as orientações que testemunho, de respeito e consideração para com o botocudo, admiro o juiz por isto, esperava menos empenho de sua parte em resguardar o índio de possíveis maltratos, devia guardá-lo até o dia seguinte, quando seria conduzido ao Porto do Mar, capital da província. Ainda que o verão alongasse o dia, naquele venciam as nuvens pesadas encurtando-o, dando escuridão à cidade antes da noite. Com a saída do indio o juiz não me dispensa, peço licença para me retirar mas ele me faz um sinal para esperar como se algo a mais quisesse comigo, juiz novo, com ares de abolicionista, republicano com certeza, zeloso acima de tudo de sua autoridade não haveria facilmente de deixar transparecer nem isto nem aquilo, era cumpridor de suas funções e obrigações, pronto. Parecia no entanto querer desvencilhar da minha mente as insatisfações, minhas frustrações, meus voos curtos. Encontrava ele alguns pontos de convergências entre o seu caminho e o meu, alguns não, um único, o Último Porto do Rio, sim este era o ponto comum entre nós na linha da teia incompreensível da vida que alinhava pessoas em laços frouxos e logo as abandona em suas solitárias sinas. Sonharia decerto o jovem e elegante juiz uma outra paragem, um outro patamar no mundo de onde pudesse levantar seu voo e não aqui no fim do rio, no Último Porto. Por isso ele quer conversar comigo, este malfeito laço nos prende exatamente agora, ele não sei com quais pensamentos, eu com a aflição da pressa.

7 comentários:

tossan disse...

Toda cidade vai cantar
E finalmente vai voltar
O tempo da paz os tempos atrás
O tempo da consideração
Quando era menos ambição
E o coração valia muito mais
Toda a cidade vai cantar
O cancioneiro popular de tempos atrás
Que já não se faz
E chega a me dar uma emoção
De contemplar a multidão
Cantando pelas ruas principais
Joga todo mal pra fora
Abre o peito e chora em paz
Que é bonito demais
Toda cidade cantando
Como nos antigos carnavais

Paulo Cesar Pinheiro

Belo trabalho o seu. Um pouco de saudade da poesia confesso. Abraço

Dauri Batisti disse...

Obrigado Tossan,

mas, é engraçado, não sinto saudade nenhuma de escrever poemas. Sabe, acho que tenho que ficar um tempão sem escrever novos poemas. Nem me entendo, mas jogo agora outro jogo, é outra a brincadeira, na verdade eu sempre digo que poemas eu escrevo por preguiça de escrever. Agora estou sem preguiça, cheio de histórias, que quero contar, nem que seja como uma forma capenga e desfocada de me aproximar da minha própria subjetividade, e na esperança de que um ou outro leia, mesmo que fragmentos, o que vou escrevendo.

valeu,

Um abraço.

ex-controlador de tráfego aéreo disse...

Oi Dauri,
rapaz, o difícil é esperar a próxima postagem, é uma leitura ágil, que aguça a curiosidade do leitor. Mas, de paciência também se faz o leitor.

Um abraço!!!

Jacinta Dantas disse...

Bom dia Dauri,
então essa gostosa brincadeira é fruto da não preguiça?(rss). Que legal!

Noutro século, noutras paisagens...dois homens (João Francisco e o Juiz), dentro da possibilidade de cada um, compartilham o sentimento de respeito e zelo pelo índio.
Beijo

Márcio Ahimsa disse...

Então, amigo Dauri, esse olhar que digo sobre o outro, é exatamente o que aqui vejo, em teus contos, que vejo através do olhar de quem escreve, pois, para escrevermos o outro, ou seja, para criarmos histórias que tocam quem as lêem, é preciso estar alí um olhar visto além de nós. Mas sim, esse nosso olhar permanece e prevalece, pois é ele que nos dá condição de vermos e enxergarmos com o olhar do outro, pois é exatamente essa noção de sermos, de guardarmos vivências e memórias, de retratarmos a vida a partir de nós mesmos é que somos capazes de recriá-la em outro universo, com rosto, sentir e pensar que não o nosso. O olhar é metáfora, é um recriar a partir do que não sentimos, mas que podemos perceber.

Abraços.

paula barros disse...

Dauri, ando tão impressionada com a sua capacidade de escrever, de criar, de elaborar os contos, as tramas, de ligar os pensamentos, de trazer uma fala e outra, de interligar os fatos. Muito impressionada. Nutro uma admiração por sua escrita que só cresce.

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Gosto do intercalar do pensamento do personagem com o que acontece, dessa conversa interior, com pensamentos profundo, que me levam a refletir, a emocionar. Que enriquece mais ainda o seu texto.

E mais...você consegue sempre deixar um mistério que volta mais adiante, ou não voltou ainda, mas me faz ficar na expectativa.

beijo

Ilaine disse...

Dauri!
Seu conto me lembra Saramago- frases longas que desencadeiam em acontecimentos, descrições e diálogos. Muito especial. Vou ao outro conto...
Beijo