02 fevereiro 2010

O último porto do rio
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A cidade do Porto do Rio cobre-se de um grito às quatro da tarde, um desses gritos que se dá quando se quer experimentar o alcance do mundo do alto de um morro e nada muda e ninguém escuta e tudo continua do mesmo jeito. O calor de depois da chuva abafa a todos, o sol cresta as pedras do cais, o céu de segunda feira se vai lentamente sobre as montanhas com um azul de festa perdida, o rio amarelo sujo da cheia se esparrama na quietação das águas do porto em espumas produzidas na cachoeira logo acima. Ancoramos a barcaça e logo me encarrego do índio, levo-o ao juiz, antes aviso ao jovem auxiliar do escritório o que tenho que resolver. Quero sem tardança ainda naquele dia descer o rio, talvez com a ajuda de José Pedro Caetano, para procurar Maria Júlia. O juiz me pede que assine um documento a ser lavrado, tenho que esperar, espero mais do que posso, mais do que suporto, espero, crescem redemoínhos de ansiedade na boca do estômago, a tarde se alonga em desamparos, o mundo decerto continua nos seus giros, em que velocidade gira este mundo?, a vida segue lenta, bem lenta em todos os seus trâmites, nao tenho lugar, sento e levanto, vou até a porta, volto e o bendito documento ainda não está pronto, o indio abancado ali na sala, objeto de curiosidade de muitos, me observa, há um certo ar de solidariedade em seu olhar ao mesmo tempo em que me pede algo que não sei distinguir, sei que me pede, aglomeram-se as pessoas para observá-lo, desvio o olhar do seu, minha obrigação para com ele terminou, o que não se deu com Maria Júlia. Com ela minha obrigação ainda está em aberto, devo, quero honrar minha promessa ainda que tarde, nem sei se por ela ou por mim mesmo, indago-me sem conclusões. Quem haverá de saber se ela ainda mantém o seu pedido, se deseja meu esforço. Um pedido tão simples ela me fez, Deus, é tudo tão difícil, roda desconchavada de seu eixo, vou até à rua, distraio-me por um momento com o passar de uma tropa, esbarro na calçada desatento com um vendedor de cocadas, esparramo-lhe os doces do tabuleiro, tudo vai ao chão, peço desculpa, quase jogo o garoto sob as patas das mulas, peço que passe no escritório do armazém e lhe será pago o prejuízo. Os pensamentos se avolumam em círculos espumentos de futuros que não se abriram, já poderia ter filhos como este das cocadas, como aquele da Leonora. Aquele, num desafio inimaginável quebrou o triângulo dos afetos mal enlaçados entre minha pessoa, o mestre do Maria Luíza e o índio, ele chegou com o vinho e o torresmo e as canecas tilintando e olhou para o índio, foi-lhe ao encontro sem medo, observou-o por uns instantes, o índio arregalou os olhos para a bebida, todos ficamos observando, sem pressa voltou-se e entregou-me o que sua mãe mandara, então fitou-me como se eu fosse o algoz, o responsável pelo padecimento do botocudo. Convidei-o a ficar ali e logo devolveríamos as coisas da cozinha, e, à guisa de ações de instinto, sabe-se lá, ele se foi sentar sobre umas quatro sacas de café empilhadas e com seu olhar destruiu salutarmente o triângulo, instituindo um quadrado entre nós, e ao sentar-se mais alto do que todos determinou a supremacia do seu papel naquele momento.

9 comentários:

paula barros disse...

Dauri, sempre leio seus contos muito compenetrada...mas ri com o esbarrão nas cocada. Pensei, nem que fosse eu, pois se tem alguém que vai esbarrar em algo sou sempre eu, e quando se trata de cocada eu perco quase o juízo (que às vezes dizem que é pouco).


Esse momento do triângulo que virou quadrado pelo olhar do menino, o gesto do menino com o índio, a ansiedade de João Francisco, o pedido....são momentos que foram me fisgando na leitura. Uma leitura que de novo consigo sentir e visualizar.

beijo

Ilaine disse...

Oi, Dauri!
Da poesia para a prosa. Um romance! Em toda a narrativa há uma profusão de imagens que compõem o quadro criativo da história, pelo qual o leitor é conduzido de forma suave e minuciosa. A voz dos sentimentos arrebata o personagem narrador, trazendo ao texto uma nova dimensão, tornando-o ainda mais belo. A poesia flui em cada palavra, Dauri. Uma prosa imensa e rica. Adorei!

Abraço

Mai disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mai disse...

Achei interessante como conseguiu, com a mudança de ritmo, transmitir a inquietude e a pressa durante a espera pelos papéis de entrega do índio. Outra coisa me prendeu: - o encadeamento de pensamentos que, em poucas linhas, inseriu os demais personagens no episódio, apenas pelo pensar.

P.S.
Eu sempre cria que os contos poderiam ser lidos separadamente e sem prejuízos. Sim, eles podem mas, a esta altura, ter ficado sem ler alguns dos capítulos me fez sentir falta de algo. Há momentos em que - como alguém que se afasta ou perde algo e depois se surpreende com fatos que não presumia existir - eu me peguei na leitura dos dois ultimos, perguntando "porque isso?!"

Foi interessante, não prescindo da leitura sequencial.
(como novela mesmo...)
Um beijo

Luis Eustáquio Soares disse...

salve, querido dauri, que essaspalavras deslizam no nevoeiro dos tempos, abrindo as brechas do inusitado bem no descentro do mundo, onde tudo se faz possível, território aberto de letras garatujas intrusas, com também corujas.
saudações,
luisdelamancha

Maria Helena disse...

Assim como as águas do rio Santa Maria se enchem de espumas que sobem para cair borbulhantes e barulhentas,assim as palavras do seu conto se unem para encantar e entreter o leior.Esse seu modo de fazer Joâo Francisco passar do presente para o passado sem qualquer intrdução e totalmente "intendível" é coisa de mestre.Adorei o caso das cocadas.
Abraço.

MENSAGENS AO VENTO disse...

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Me encanta o modo como você constroe os caminhos e quebra as esquinas sem perder a fluidez da narrativa... Seus textos parecem possuir uma filmadora onde vão registrando todos os momentos, sem distinção...

Obrigada!


Beijos no coração...

Zélia (Mundo Azul)

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Elcio Tuiribepi disse...

Olá Dauri...as vezes me sinto um pouco como a Mai, mas sempre que chego e começo a leitura fica a sensação de uma mensagem implicita,dessa vez foi logo no inicio...como se fosse um recado, vindo não de um coletivo, mas de um só personagem, mas assim no sentido mais humano, como se o porto estivesse transcrevendo sentimentos deuma pessoa...sei lá...rsrs
A palavra aqui é sempre bem tratada...é sempre bem conduzida...
Um abraço na alma

paula barros disse...

Dauri, nem pense em fechar a caixa dos comentários....vai me deixar perdida. rsrs

Já estou lendo - Uma vida em segredo de Autran Dourado. Mamãe tem vários de Autran, e de outros autores, mas uma dica sempre ajuda na escolha.

beijo