08 dezembro 2009

O último porto do rio

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Ele tem por mim uma amizade, água limpa e transparente em pedra de cachoeira, que não tenho por ele. Não me nego ao seu bem-querer, mas em certos momentos me incomodam aqueles seus sentimentos que são assemelhados aos de parente, coisas de primo, irmão, uma ligação que não se explica. José Bento Caetano é o seu nome, pomposo demais, luva maior que a mão. Talvez o nome Bento fosse, da tríade, o que mais lhe conviesse, mas ele faz questão de ser chamado pelos três, e assim é conhecido em toda redondeza. Coisa admirável, não vou negar. Alguns acrescentam o negro. Tentativa, parece, de diminuir a nobreza que o nome lhe confere. O negro José Bento Caetano já suado de muitas sacas de café corretamente dispostas nas barcaças, ao me ver, acelera os passos na minha direção, e, respeitoso para quem visse de longe, e íntimo no pequeno sorriso e no brilho e piscar do olho canhoto, vai rapidamente me passando a notícia, dando tudo já por certo e combinado, Hoje tem baile dos pretos no porto da curva dos pretos. Retira-se então da minha presença assoviando como se nada tivesse falado, já vivendo a felicidade e as forças readquiridas no baile daquela noite que lhe duram por dias como disposição para a vida, ou para o trabalho pelo menos. Com certeza ele sabe das minhas esquisitices, e faz-se meu cúmplice no segredo que nem mais segredo é, de ir ao baile dos negros no porto da curva dos pretos, e no Último Porto do Rio, tendo-me por importante, sem ser, freqüentar apenas o baile dos brancos no clube da cachoeira. Dou-me contra estes pensamentos, pedra de topada e de desorientação momentânea, surdo a todos os ruídos do cais, e logo ouço, passado o tempo do confronto comigo mesmo, apenas tendo entrado no escritório, o insano barqueiro gritando meu nome precedido do usual senhor, mais alto do que seria necessário, acrescentando o pedido, a ordem, de que não demorasse com a carta, pois que já ele ia descer o rio.

4 comentários:

Dauri Batisti disse...

Obrigado à professora e amiga Maria Helena pela informação à respeito do baile dos negros.

Maria Helena disse...

Gostei da intimidade disfarçada e da piscadela como um convite ao baile a quem pode ou deve ir.E o elo feito entre um texto e outro através da carta faz-nos voltar à história.
Adorei.Um abração de Maria Helena.

Mai disse...

Ô Coisa boa de se ler, sô!
Mas na minha terra ela seria nhô João Bentin Caetano as suas ordens, num sabe?

Ah! Dauri... Que coisa mais gostosa de se beber é esse teu novo momento literário, viu?
Escorre feito a água da cachoeira escoando sobre a pedra. E eu vou escorregando o meu sorriso que ao abrir ensaia e insinua uma expressão:
'filho da mãe esse Dauri...' escondendo o jogo das letras. Risos muitos...Então quer dizer que os issos eram apenas pedrinhas prá se chegar a esse labirinto onde agora a gente se perde.

Talvez ou certamente não seja nada disso, seja a hora de alguém que sabe o que escreve simplemente porque vai deixando o fluxo se inscrever ou escrever, né?
Delícia tá esse teu isso de agora!
(eu tô rindo da tal história da 'intimidade incômoda'.
Sei bem como é essa história.
um beijo, caro amigo.
muito, muito bom.

paula barros disse...

Dauri, o seu texto, a emoção que sinto de apreciar a forma que você escreve me remeteu ao dia 31 de dezembro de 2008, quando lendo seu blog fui tomada de uma forte emoção.

A forma que você escreve, em mim, desperta os sentidos, ao ponto de ver, ouvir, sentir cheiros e gostos...me prende atenção, e sempre quero acompanhar.

abraço