10 junho 2009

(avulsos)

Não,

esta cara não é minha.

Os traços que perfilo
são caminhos.
Este rosto não me cabe.

O que faço...
bem o que faço... se faço,
é um pequeno esforço,

um jogo
preguiçoso.

Quebro as pautas,
faço versos dos sintomas,
compenso-me das linhas da mão
que me derrubaram do destino.

É uma espécie de síndrome normal,
algo que me talha o rosto,

e me define assim.

Tenho cá minha beleza,

olha,

este rosto que me trazes
não me cabe, por favor.

15 comentários:

paula barros disse...

"este rosto que me trazes
não me cabe, por favor. "

Vou aproveitar essa frase, mesmo que não tenha sido o seu objetivo, e falar do que falei hoje em um blog, porque muitas vezes, ou geralmente, idealizamos o outro, e o escritor de blog sofre muito dessa idealização feita pelo leitor. Uma idealização muitas vezes até perigosa, fantasiosa, frustante, confusa. Um tema que já pensei até em um post.

Mas claro que seu poema tem um ponto mais forte que me toca.

bom dia!

Avassaladora disse...

Dauri, essa busca do nosso rosto... da nossa face... onde o perdemos, onde o transfiguramos... onde conseguimos tantas cicatrizes...

Quantas vezes nos olhamos no espelho e não queremos aquele rosto alí refletido...Não o reconhecemos!

Sei que conheces a exaustão...

Mas aqui deixo como um carinho especial...

Então vais ler de forma especial...rs



"Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?

Cecília Meireles"


Um beijo,

Lindo não-poeta!

paula barros disse...

"Quebro as pautas,
faço versos dos sintomas,
compenso-me das linhas da mão
que me derrubaram do destino."

Foi esse ponto que me pegou, me laçou, é poético, é forte.

E de repente nos vemos pegando as próprias mãos para traçar as linhas do destino, linhas que os pés vão ter seguir.



beijo, e um dia bom para você.

f@ disse...

A beleza do rosto das palavras...

Mto bonito...

imenso beijinho

Opuntia disse...

Transformar os sintomas em versos é uma arte.


Bjos

Deusa Odoyá disse...

Olá meu amigo.
Concordo plenamente com a avassaladora.
Nada mais a comentar.
Uma semana de muita paz, amor e luz.
beijinhos doces, meu amigo.
Regina Coeli.

Krystal disse...

Hummm!... Desencontro?!... Negação?!...
Falso reflexo rejeitado?!..

Tome lá este admirável espelho e veja se consegue refletir-se no reflexo de si mesmo:


...



Estranho este estranho despertar sem norte,
Sul invertido de uma estranha projecção forte,
Enigma do olhar fitado na cópia do avesso,
Fitando quem a hipnose fita em visão torpe,
Confusa visão em convexa cicatriz de corte,
Rasgado mundo de esvaído sangue espesso,
Tua expiação de meu leve sorriso que entristeço,
Vida contrária reflectida no contrário da morte,
Reflexo ausente da imagem ausente de sorte,
Cópia clara da perfeita luz que escureço!

Tocamos nossas mãos que não se tocam,
Aproximam-se meus etéreos lábios dos lábios teus,
Beijo volátil em anestesiados lábios meus,
Amor proibido que teus olhos evocam,
Íris que meus medos teus medos focam,
Transparente reflexo sem alma e sem Deus!

Concha lisa onde abraço o eixo de luz fulgente,
Deslizo Danças sedutoras de brilho cintilante,
Sigo teus passos...


ups!... acabou a pilha do tecld...

;))...

Escolha entre... beijos e abraços

Efigênia Coutinho disse...

Dauri Batisti
Quebro as pautas,
faço versos dos sintomas,
compenso-me das linhas da mão
que me derrubaram do destino.


Quando vou lendo sua poesia, me sinto dentro dum templo, tal o teor poético que vou sentindo diante de cada frase lida, parabéns!

FELIZ DIA DOS NAMORADOS,
Efigênia Coutinho

Cosmunicando disse...

todo rosto
imposto
não cabe
é máscara


adorei seu poema, pra variar ;)

beijos

Mai disse...

Linhas e traços... Feições das palavras. Rosto que exprimem e espelham nossas almas...

Eis a estética que, exprimindo a verdade, é pura beleza.
Traços, rostos, linhas de expressão, rugas, caminhos das letras. O que escrevemos fica impresso na face branca do papel.

beijos,

Germano Xavier disse...

"tenho cá minha beleza"

eu sou
somos o belo
que há
o ser que somos
o belo que é
sou eu
o que há e é
sou


Abraço forte, Dauri jack.
Sigamos...

paula barros disse...

Dauri,

Senti saudades da atualização. De ler o que escreves.

Essa beleza, a escrita, esta escrita, esta lida, tranforma a lida.

beijo, não demora!

Eurico disse...

Estou rindo com o espirituoso Germano, a te chamar de Dauri Jack. Deve ser o serial killer, né?
Tuas séries são belíssimas, mas percebo nelas mais eros do que tanatos. Aliás, tudo que escreves, tudo o que escrevemos, toda arte é essa tentativa de prender o instante que passou. Como nesse "salvei tuas palavras", ouvindo música. E, a esse espelho, que insiste em nos mostrar a marcas do tempo no rosto, "a síndrome normal", mostremos, a ele, a nós mesmos, a eternidade da beleza, essa face ideal, que anelamos em nós perene.

Um abraço, Poeta Serial...

Dauri Batisti disse...

Eurico,

o Germano me ligou, desde que nos conhecemos, ao Jack Kerouac. Percebeu semelhanças... não sei exatamente quais. Talvez por meus escritos serem sempre "buscas". Fiquei feliz com a menção dele pois o Jack kerouac é importante para mim. Para ele sempre volto, especialmente quando sinto que estou perdendo a ingenuidade.
Abraço.

Eurico disse...

Agora é estou rindo mesmo, mas da minha associação com o outro Jack... rsrsrs Essas associações de idéias podem nos trair, não é, Poeta.

Abraço fraterno.

Ah, não conheço o Kerouac. Mas vou me inteirar. Pelo que vejo, essa é uma forma de conhecer melhor o teu trabalho.