04 maio 2009

O que dá na telha e nas feiras
(segunda-feira)

Escorre a água no chão.
Não escorro, nem me deito,
me peito de forças que não tenho.
A água vai, o cansaço não
escorre para o ralo. Não.
Não deve ser cansaço,
deve ser fado, enfado,
porre às avessas, não ter
aproveitado o tempo, a segunda,
para beber, beber, encher
a cara, a alma. Falta
... poesia.

***

Será a segunda-feira
aquela tua preferida
flor que o jardim perdeu
nos braços da Eva.
A segunda é um eu
virado em começos.
Mesmo segunda à noite
a menina vai para os bares
perto do cais.
Um poeta chinês é descoberto
e a segunda umidifica-se.
Dies imago vitae.

***

O dia pode ser lugar
de exílio de onde se grita
para que volte o gavião-rei,
pássaro que já me pertenceu.
Depois me hospedei na ansiedade
e voei
para ontens e amanhãs.
Bati com as asas em pedras.
A física quântica me alcança ,
e desejo,
ser mago de viver agora novamente
nos cumes do coração do gavião
de onde avisto cavalos soltos.

6 comentários:

Mai disse...

Isto é o hoje. Amanhã será terça-feira e isto, já será ontem e assim, tudo passa...

Beijo.

Eurico disse...

Preciso de certa liturgia para comentar alguns poemas teus. Preciso fazer abluções. Persignar-me diante da exuberância de signos.
Não sei onde li que o bom poema não se traduz. Ele é uma peça una e íntegra. Dele não se pode tirar uma frase, um palavra, um fonema sequer. O poema, que pode usar esse nome, é de uma arquitetura perfeita. Como mudar os planos de uma quadro de Braque, ou de Picasso. Quem ousaria? Aquilo que nos aparece como uma estrutura multifacetada e compósita, gera em nós uma leitura única e súbita. Como mudar um só pastel, uma mancha, um traço em Renoir? Quem , por querer um céu mais sereno, ousaria mexer nas atormentadas circunvoluções dos céus do Van Gogh?
Nesse teu Poema nada há a tirar nem por. Irretocável, Dauri.

Abraço emocionado e fraterno.

Avassaladora disse...

Dauri, vou tomar a liberdade de assinar em baixo do comentário do Eurico!

Já estive aqui lendo e relendo umas tres vezes, e saio muda...

Ao ler o comentário do Eurico, descobri o por que da minha mudez!

Vc ão é para comentar... Vc é para sentir!

Beijos avassaladores!

paula barros disse...

Dauri

Comentando o seu comentário. O que lá está escrito é da série - a andarilha. Eu não sei explicar. É sempre fruto de algo que leio.

Geralmente gosto do que escrevo baseado nessa relação de palavras que me provocam palavras. Acho que sai diferente do que escrevo.

Clicando no rodapé andarilha tem os outros textos. Outros foram escritos mas os meus momentos atropelam os escritos e se perdem no tempo.

abraços e obrigada pelas palavras....

Dora disse...

Oi, Dauri. Também não tenho conseguido abrir seu blog...Hoje, a sorte me favoreceu.
E o dia é a imagem da vida. Então, começando a semana, na segunda-feira, os momentos contam os aconteceres. E há frases e frases, que se sucedem...e cada uma é um verso-fio-condutor do não-poeta.
Como diz o Eurico, admiremos na emoção o todo do poema!
Beijo meu.
Dora

Germano Xavier disse...

"O dia pode ser lugar de exílio..."


Bela construção, Dauri.
Abra forte!

Continuemos...