02 maio 2009

XV

Um último cântico, de acre voz de pranto,
é entoado diante da alameda ao entardecer.
A promessa
escondida no fundo dos versos tristes,
já se levanta. A penumbra que persiste sobre
a ponte,
se perceberá depois, era só uma nuvem

de uma noite que também passou. Os altos
segredos das horas serão entregues mais
uma vez:
mais um dia. A vida se dá nos dias,
não nos anos, nem nos séculos.
Palavras
e versos são estes inexatos mapas

dos seus territórios. O que saber?
Há muitas coisas fechando passagens,
relógios
insanos, bússolas desmagnetizadas, produtos
que se grudam nos corpos e nos desejos.
A poesia
esteia pontes, ainda que precariamente.

7 comentários:

Eurico disse...

Uma possível leitura:
Entardece sobre a nossa civilização, essa é uma idéia que me persegue por esses dias. E percebo isso nos instantes, nas instâncias, e tento, como tu, Dauri, produzir essa cartografia da perplexidade. Vaticínios?
Não. Pontes precárias sobre abismos.
O que saber?
Saber a que se ater, em um mundo movediço, com desorientadas bússolas: credos, postulados, teorias.
Tentemos as pontes sobre a videotia da busca insana do ter pelo prazer de ter.
Pontes atando as duas pontas, entre o ser e o não-ser.
Pontes, irmão do Espírito Santo.
Pontes...

Mai disse...

...De que outra maneira a vida se daria senão no chão, não é, Dauri?
Estruturas postiças sobre pântanos... Pontes precárias e um desamparo primordial... Palavras escondendo as dores e os abismos nas linhas curvas dos poemas.

Olha, eu queria uma reflexão dessas como dose medicamentosa para o meu vasto mundo abissal.

Muito, tu és muito.

Beijos,
Mai

Luis Eustáquio Soares disse...

ainda que precariamente, a poesia; sim,porque precariamente, porque, incompletos q somos, longe de qualquer ilusão de acabado e pronto, precariamente, festivametne, a poesia.
meu abraço,
luis de la mancha

Dora disse...

Dauri. Dauri. Você corre mesmo na sua página. Não dou conta de acompanhar seu percurso de andarilho incansável. Mas, é isso que vale. Bendito seja!
Lindeza de dizeres aqui....
"A poesia esteia pontes, ainda que precariamente". Sim.
Ela faz a ligação, o elo melódico, dos cotidianos, que passam, entre entardeceres e manhãs, formando a vida.
Ela, a Poesia, canta os cantos de promessa, de segredos, de desejos, que os dias lhe entregam sorrateiros.
Há uma teia dourada, tênue, "precária", cobrindo os dias, plenos de prosaicos fenômenos. Essa teia é a Poesia que você tão bem maneja!
Beijo você!
Dora

Jéssica disse...

Impressão minha ou eu consegui visualizar um relógio ou algo do tipo nesse poema?

Não sei, enfim..

;*

Sandra Leite disse...

suas palavras e sua poesia são minha bússola. Onde " se perder e se achar" foi absolutamente real.

"A vida se dá nos dias,não nos anos, nem nos séculos". Me lembrou Cecília Meireles que diz que "tudo que abarco se faz presente". Em dias, você completa.

Beijos, poeta. Boa semana!

Sandra Leite disse...

"Não há passado
nem há futuro.
Tudo que abarco
Se faz presente"

Cecília Meireles