06 maio 2009

O que dá na telha e nas feiras
(quarta-feira)

No chão amanhece, demora,
mas há amor no que se levanta,
mesmo que ausente amor, pequeno.
O silencio - quando se acorda -
incita à rebeldia, não sei bem,
a vida é luta, acho que é. Festa

***

tomara fosse em todas as feiras. O que
ficou sobre a mesa do dia, evidente
cartas jogadas, quartas segredos
desfeitos, me divulga, me vende,
me comercializa, me esquarteja, fico
reduzido a um grito: meu Deus! A vida,
mães que choram, filhos que morrem
todos os dias com tiros na cabeça. A vida
(diem, aquam, solem, lunam, noctem....)

***

seria o projeto do universo? Esse frio infinito
cansado de solidão se arranjando pobre em nós
em olhares, desejos e feiras a se repetir.
A memória da poesia era - ou é - a beleza
do que coube em palavras, o temporal,
o vendaval, o roseiral de onde se colhe.
A rosa quarta tenta escapar da palavra
escrita que lhe extrairá seu exíguo perfume.

8 comentários:

poetriz disse...

A palavra nunca conseguirá roubar o perfume da rosa.
Perfume de flor é daquelas coisas que a gente só lê com o nariz e só enxerga com um coração suspirante.

Bjs!

Dauri Batisti disse...

Tens razão, é assim, mas da rosa quarta, da rosa dia, da rosa rotina, quem sabe a palavra consiga um segundo de perfume, um quarck ou um lepton de poesia.

Obrigado pelo comentário. Há tanto tempo não aparecias por aqui.

beijo.

viva ou exista disse...

que animal o que você escreve


dá-me licença que preciso enchugar suas outras palavras.


parabéns.

Eurico disse...

Esse fluxo de consciência que aflora em poesia...
Não seriam "issos", aquilo que movimenta o tempo?
Não seria protopoesia o pensamento da divindade?
O projeto do universo projeta-se, poema-se, poíesis...
Sim, o perfume da rosa/quarta é sinestesicamente, beleza. Belo é o cheiro dessa p/rosa.

Abraçamigo.

paula barros disse...

Olá, Dauri
Vim correndo para saber o que se passava nessa feira. Já fim da feira quarta. Encho o meu balaio de palavras e emoções e levo.

Passaria horas aqui proseando...e se me detenho, monto o cenário...nesse amanhecer me transporto para um quarto de lajotas preta e branca, um tapete pequeno perto da cama, mas sinto o pé no chão frio...

Gosto - "mas há amor no que se levanta,mesmo que ausente amor, pequeno". Eu não duvido que haja amor, e muito, e amores diferenciados e muitos.

A vida, a vida....e os questionamentos ....

abraço

Garagem69 disse...

Muito bom ..
isso dá uma canção !!

mundo azul disse...

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...nuances várias a se esparramar nos versos...Fragmentos inconscientes formando o mosaico do poema ( não poema )

Gostei!


Beijos de luz e o meu carinho,
( não poeta!)

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Dora disse...

Na quarta, há o amor já "esperançando"...mas, não é só festa que a vida repete: é luta, é dor, é comércio de homens.
A Poesia precisa salvar a vida. E ela consegue preservar do roseiral, a rosa, e o perfume que, sendo a palavra côncava, capta o odor para a memória olfativa. A Poesia consegue feitos e efeitos mágicos na sensaboria dos dias da semana.
Tenho um texto para você.
Logo vou postá-lo. Uma homenagem minha.
Beijos.