23 janeiro 2009

(terceiro poemeto da série umas coisas
jogarão luz nas outras)

Nas coisas revoltadas, nas desarranjadas coisas
em qualquer coisa encontro música. Ou luz.
É... a música não vem dos céus, nem dos anjos,
nem de Deus. A música vem das coisas,
a voz das cordas, as cordas do sangue,
o sangue do sêmen, o sêmen do homem,
o homem do barro, grande e maravilhoso tudo:
coisa que dói por dentro. Foram as coisas que comi
e agora se contorcem em mim, no coração,
na alma, esta galáxia outra que se chocou comigo
e formou comigo uma coisa só,
em espiral, enrolados um no outro,
abraçados e confusos,
matéria clara, matéria escura.
As coisas em mim se arranjam em esculturas
como canas esmagadas donde sai o caldo,
a garapa, o bagaço, a harpa dos fios
tecidos e remendados em alguns nadas
que por acaso exponho aqui.
Meus issos, meus poemetos, minhas partes,
meus caminhos curtos, meus muros baixos.
Eu prometo, não vos quero impor cometas
desgovernados e perdidos por estes palavreados
que vos exponho como que em versos,
mas que não são versos, não, não são.
(Quisera eu vos oferecer a gargalhada de um menino,
já vos disse, não sou poeta).
É uma única, longa e desafinada música
que sai das coisas, ruídos, meus respiros,
o tamanho, o fôlego que aguento sem subir
de dentro de mim, - sou raso, desço logo abaixo
da superfície - me suportando, me vendo,
me observando. As coisas estão dentro
tanto quanto fora. Algumas
me lançam uma certa luz.

10 comentários:

FERNANDA & POEMAS disse...

QUERIDO DAURI, MAGNÍFICO POEMA... MEXEU COM OS MEUS SENTIMENTOS... MARAVILHOSO AMIGO... UM GRANDE ABRAÇO DE CARINHPO E TERNURA,
FERNANDINHA

Mai disse...

Sim, Dauri.

Tudo está em tudo e o nada também está em tudo...
Umas coisas jogam luz em outras coisas...
Assim o obscuro se ilumina e o que é luz escurece e depois ilumina..

Onde um começa?
Onde o outro termina e também começa?
O que é luz e o que é trevas?

Continuo contigo.
Certamente há uma complementaridade.

Beijos.

paula barros disse...

Dauri me desculpe de ante mão o meu comentário.Fiquei sorrindo com as besteiras que penso.

"Algumas me lançam um certa luz". Pensei: vixe! ele deve viver sob um holofote.
Imaginei também um pesca de agulha, com aqueles candeeiros.

Se você não é poeta, escreve com poesia.

Se você não é poeta, escreve coisas, vazias... não sei, só seiq ue ando me ofuscando por aqui.

bom dia!

Eurico disse...

'¡Qué cosas nos decía! Eran cosas, no palabras."
De repente me veio à lembrança o que dizia Miguel de Unamuno, ao referir-se a San Manuel Bueno, mártir.
Digo isso porque sei bem do que falas. São coisas ideoplásticas, delas saltam faíscas com que buscamos incendiar as consciências.

John Doe disse...

Nas coisas revoltadas, nas desarranjadas coisas
em qualquer coisa encontro música. Ou luz.

Poderia repetir isso mil vezes sem cansar, de fato acho que deveria mesmo fazer isso qualquer dia...

quanto ao caderno, quis dizer o Meu Caderno, o de rabiscos que a mais de um ano guarda meus pedaços transcritos em palavras...

Sil Drabeski disse...

Oi Dauri!
Eu sou a Sil! Cai aqui no seu blog através de um comentário seu no "Entre Aspas", da Lyani, em que vc disse que já leu "O acaso e a necessidade" de Jacques Monod! Eu tbm!

Visite meu blog, vou vir ao seu mais vezes!

abç

Dora disse...

Oi, Dauri!! Deixei uma "tarefinha" prá você, lá no meu blog.
Depois, apareço prá conversar aqui...
Beijosssssssss
Dora

Branca disse...

Ouço música em tudo tb...
Bom fim de semana pra vc,
bjo carinhoso.

lyani disse...

Dauri.
Suas palavras é que lançam luz e música e beleza!
E me deixam sempre encantada :)
Bjos e ótimo domingo!
Ly

Oliver Pickwick disse...

E Deus disse: "faça-se Isaac Newton". E tudo se tornou luz.
Captou bem a linguagem da luz, amigo Dauri. É bom mostrá-la em outros contextos que não seja a Física.
Um abraço!