20 janeiro 2009

Quando digo as minhas palavras,
são coisas que digo. Sei que são coisas,
pois que elas me pesam.
Cada palavra dita é uma coisa
que pego, que peso, que olho
sem muito sentimento, algum,
aquele que vem como recordação
ou como uma pequena ternura solidária.
O que vem a mais são pensamentos,
muitos. Coisas sementes, montanhas,
pedras, riachos, canetas, casas, estradas.
Acho que isto explica por que não gosto
de rimas, de métrica, de sonetos. Tentativas,
parece, de querer revirar as coisas
e transformá-las em leves canções. Mas
as palavras são pesadas. Há terra nelas.
Minhas palavras querem continuar coisas,
isto é um quase pecado, eu sei. Mas é isto.
O arado rasga o chão, eu lembro bem.
Vi tantas vezes esta cena. O chão, o cheiro,
as sementes jogadas do embornal,
o pé encobrindo-as com a terra macia...
Meu coração anda abarrotado de coisas...
Perdão.

17 comentários:

Márcio Ahimsa disse...

Ah, meu amigo, são essas coisas que nos são essenciais, e como são. São tantas, mas tantas, coisas assim, que ficam latejando o pensamento, alguns cheirosde terra, outros de pedra, capim sendo varrido pelo vento, café torrando, o velho pilão de tronco, fogão a lenha, cumbuca de cabaça, taramela, alpercata. Essas coisas todas, estão também em mim, ah, como estão. Vez ou outra, as deixo sair, as deixo voar para além do meu pensamento. As rimas que se encontrem por aí, em outros pensamentos.

E, não cometeu nenhum pecado, não há porque pedi perdão.

Abraços.

Branca disse...

Suas palavras são autênticas, só suas mesmo, palavras fortes que passam muita emoção...
Senti certa nostalgia no seu texto, põe pra fora essas "coisas" que estão abarrotando seu coração...

Boa semana pra ti,
bjo carinhoso.

[ rod ] disse...

Eu costumo pensar em frases soltas onde quer que esteja e esteja eu o que tiver fazendo... pura loucura, mas é comum levantar da cama para anotar uma frase pensada no quase sono.

Quando em fim se juntam... alinham o que eu nem pensei originalmente em pensar.

E como a ti... estas devotam um peso significante.

Belo meu caro...

Abçs,










Novo Dogma:
faTos...


dogMas...
dos atos, fatos e mitos...

http://do-gmas.blogspot.com/

Mai disse...

Dauri,

Eu devo ter estrapolado...
Hoje cedo 'incorporei' um matemático e comentei
'essapalavra tua'
E voltei e pff
caiu no buraco negro da net.

Ou não?
Me diz?
Se eu pensei de_mais ou a menos?

paula barros disse...

Lendo o que você escreveu fui me lendo em alguns momentos.

Comigo a questão da rima, da métrica, do soneto, não é porque não gosto, é porque não sei.

Costumo dizer que não escrevo, as palavras saem de mim, me reescrevem. Quando o sentimento mexe comigo e o coração fica cheio de pensamentos, caem palavras pelos olhos ou pelos dedos.

O seu jeito de escrever me inquieta, mexe com palavras em mim adormecidas.

Mai disse...

É que eu li este teu texto e vi nele um teorema.
Nunca fui boa em matemática apesar de ler partituras e música, é matemática pura.
(além da inspiração)

Ai, pensei se as sementes ficam no embornal e depois vão ao chão quando esse é rasgado pelo arado.
E se essa tua palavra é uma 'coisa' apenas palavra, é uma semente e tu, és seu embornal.

E, esse é meu vício...Pensei...
(viajar, não na maionese, mas na
palavra)
Se a palavra é um ente como coisa
e se o papel é como o solo que se rasga com o arado para receber a semente...
E se essa palavra é tua.
Tu a guardas em teu embornal.
Se a semente no solo germina e vira árvore que dá flor e frutos
essapalavra no papel ou numa tela também germina em deambulações ou poemas ou textos ou livros e vira árvore que dá flores e frutos...

Assim, essapalavra é mais que nada.
É nada e é tudo...
Ela é pedra, terra, montanha.
Ela é semente, árvore florestas
Ela é um pássaro um outro animal qualquer...
E ela é amor que é fértil e que germina...
E assim se dá a felicidade.
No é do agora
assim frágil e fugidio como um fogo fátuo, como um flash, como um bigbang como a luz.

Ser feliz é assim, fragil como um momentum....
Sei lá deve ser maluquice......

A net tem um buraco negro onde caem todos os poemas e comentários que não são editados.
Lembro que uma vez aconteceu isto contigo lá no 'inspirar'.

É como os guarda-chuvas.
Você já perdeu um guarda-chuva?
Já achou um guarda-chuva?
Prá onde vão todos os guarda-chuvas?

Vieira Calado disse...

Um caminho poético, que até poderá parecer prosa, para quem só gosta de sonetos e rimas.

Gostei do poema.

Um abraço.

Opuntia disse...

Um coração abarrotado: isso é bom!

ex-controlador de tráfego aéreo disse...

Oi Dauri!

Eu também gosto da densidade das palavras, são, para mim, a certidão de nascimento dos pensamentos.

Texto bonito e sincero!

Um abraço fraterno!!!

Avassaladora disse...

Bom dia!
A vida nesse mundo virtual é um eterno garimpo...
E na minha bateia, de quando em vez, aparece uns diamantes... Assim como vc!

"O chão, o cheiro,
as sementes jogadas do embornal,
o pé encobrindo-as com a terra macia..."

Coisas que vivi.. coisas que fazem parte da minha infância!

Meu coração tb anda cheio de coisas e lembranças...


Beijos avassaladores!

Mai disse...

Tenho tido uma necessidade vital de vir aqui nessa nascente...
Olhar essa leira de palavras.
E o que comento agora é efeito retardado do que a tua escrita produz, em mim, em forma de reflexão.
...
Eu imagino que sejam complexos os meus devaneios, eu penso alto e agora, escrevo o que não tenho conseguido falar.
Para alguém de hábitos secretos, não seria problema.
Mas prefiro copo.
Não gosto de cálice.
Assim, minha integridade e sanidade, tem sido a palavra escrita. E te agradeço por me acolheres.
...
Mas não é loucura, não.
É que eu me inspiro muito aqui, contigo.
Isto que pensas serem, apenas, palavras e coisas densas como pedras. Ou mesmo leves como a poeira e o vento...
Sempre, sempre me faz pensar...
E desta vez mais ainda porque as experiências que tenho de cada uma das palavras usadas nesse teu poema, me permitiram elaborar novos pensares, até agora há pouco.
...
Isto é fantástico.
Porque meu dia é uma guerra com poucas tréguas...
Ai eu lembrei do seguinte:
"Palavras"
Substantivos nem tanto. Mas sobretudo nos adjetivos, as experiências de cada um farão total diferença.
Veja bem: Mesmo um cego ao ler em braile ou ao ouvir a palavra PEDRA
Ou MONTANHA, poderá ter uma experiência de alguma monhanha ou pedra.
Mas se esta cegueira tiver sido congênita, e se eu disser PEDRA AZUL....
Que experiência do azul, ele terá?
E se eu disser para um dautônico que o peixe é vermelho.
Que vermelho ele saberá se ele não tem experiência do vermelho?
Então palavra é mesmo palavra. É coisa...
E não o que sentimos.

Dauri,
o que escreves e as leituras que faço aqui, são tão importantes para mim, que fico com esse efeito colateral, por um tempo.
E adoro isto.
Meu pensamento com 2 Giga numa velocidade de 600 Mbps precisa disso que escreves. Ou morro.
...

Entendes porque um 'cálice' faz uma criança surgir querendo brincar de esconde-esconde e sumir?
...
Preciso continuar vindo aqui e visitando outros lugares, para elaborar e me reelaborar em meio ao caos nosso de cada dia...
Beijos e obrigada, sempre.

Dora disse...

Dauri. Eu não estava na Net. Mas, eu volto. Volto, sempre.
E venho, inevitável, parar aqui.
Ler palavras, que carregam coisas, ou "são coisas", ou criam coisas.
Também penso em palavra criar realidade. E a realidade ser a palavra em ação...
Poeta, você veste o mundo. Já disse. Com suas frases, empalavradas, onde o Verbo é criação.
Eu, enviesadamente, entendo e compreendo você...
Beijos saudosos.
Dora

tossan disse...

Que bom que você é você. Escreve o que quer. Estilo próprio. Poeta da caneta, da pedra, do rio.... Abraço

Elcio Tuiribepi disse...

Que bom Dauri, e é asim mesmo que deve ser...aproveite o coração abarrotado de coisas e deixe a palavra tomar seu rumo...um abraço na alma

Artista Maldito disse...

Olá Dauri

Eu confesso que rimas me perturbam o caminho das palavras, a palavra tem esse peso, essa ligação sinestésica com a terra e o seu poder polissémico vai na mesma direcção das coisas que nos ligam à vida.

Um beijinho com carinho
Isabel

Jo Bittencourt disse...

coisa ñ precisa de métrica, nem rima, coisa nem cala coisa nem canta...mas palavra engana, quando a gente vê já está cantando! grrrrrr



FRAGILIS FELICITAS EST, gosto da expressão!



beijocas

KÁTIA CORRÊA DE CARLI disse...

Dauri querido
Precisava de você para que compreendesse porque não gosto dessa coisa de métrica, rimas, e tudo que chamo de rigidez poética... é que meus pés encobrem sementes...
Lindo poema
beijo