09 janeiro 2009

(as deambulações alquímicas me oferecem borras. sinto muito)

Sim, vazias. Escrever vazias. Xícaras de janeiro trincadas e vazias.

Luas vazias, ruas. Os poetas não escrevem vazias, mas eu escrevo.
Elucido-me escrevendo vazias, anoiteço também. Empalavro gestos,
interpreto nuvens, viro as pétalas e as dobradiças das coisas,

e atualizo nas fotos o olhar das pessoas que já se foram. Guio-me

para o cais onde embarco para o dia de amanhã: viver poesia.
Quando pedras se lascam na marreta, uma vazia está sendo escrita.
Vazia se escreve em versos. Não necessariamente. Isto talvez

guarde uma esdrúxula e leve semelhança com poesia escrita.

A poesia escrita é deles, está no eixo, nos cânones;
as vazias pingam da retorta. É preciso mapear de amor
minhas províncias, sem depender de inspiração. Persito.

Já desendeusei a religião e dessentimentalizei o amor. Tentei, tento

estender a mão: o gesto é o que recolhe o verso, é o que importa.
O gesto faz a arte. Vi num circulo vermelho na tela da tv
um soldado israelense cinza no chão levar um tiro e morrer.

9 comentários:

Mai disse...

Oi, querido.

Mas assim também são os dias que clareiam e escurecem, em movimento e vida...
O vazio está sempre cheio de alguma coisa....
Começa outra vez. Palavra é linguagem. Poema é expressão e o Poeta, um alquimista da linguagem.
Recomeçarei contigo.
Isto não é como o meu Requiem. Isto é reconstrução.

beijos

Branca disse...

Empalavra gestos...interpreta nuvens... a poesia brota de ti.
Bom fim de semana,
bjo carinhoso,
Branca.

Mai disse...

Dauri, eu precisei voltar, porque essa desconstrução do processo poético que vinha se dando, foi muito significativa prá mim...

Pensei em ti e em teu poema, enquanto o sono não vinha e, lembrei da proposta do autor de ir fazendo, transformando, lapidando, rearrumando palavras, gestos, versos e é inevitável nos pensarmos nesse 'movimento' de ir e vir...

De virar matéria intestinal e transmutarmos, palavras e entes, em ouro, sem certezas de plenitude...
São instantes e, em instantes, a matéria intestinal e um novo caos, se dá.
Pensar isto como algo do ir sendo, diminui o tamanho das coisas, diminui a agonia e o sofrer de um longo dia, se transforma e, apenas, um instante.

Dauri, tu não sabes quanto esse exercício poético, tem me poupado energias prá lidar com esses momentos que venho atravessando de um trabalho psíquico 'brutal', com um adolescente judeu, que sofre, porque não deseja esta guerra e, sofre porque vem sendo responsabilizado por uma guerra que ele absolutamente não é responsável e não quer.

cara, um beijo.
Eu te amo mesmo.

Germano Xavier disse...

Vazias profundezas da alma. Coisa de quem tece com zelo a lã das letras. Tua imagem criadora gera interlúdios e equinócios em mim, poeta. Sinceramente, um dos versos que mais me agradam nos atuais recantos por onde passo neste ciberespaço pertencem a você.

Sou só elogios.
O sentido, guardo comigo.

Abraço forte, professor.
Continuemos...

Márcio Ahimsa disse...

...já desendeusei a religão, já desreligionei minha fé, já infestei-me de descrença, já descrencei-me de esperança, já desesperancei-me de palavras, já apalavrei-me de gestos, num manifesto mudo contra a dor do mundo que derrama lágrimas no chão, a terra chora rostos tristes, o poeta desiste de ser, fenece ao som estampido do silêncio que se faz pelas mãos dos homens.

Abraços.

Márcia(clarinha) disse...

Creio que jamais vou dessentimentalizar o amor, temo as conseqüências, mas como poesia grita eu escuto e desejo bons dias, sem campos minados, sem horrores...

beijos

Sam disse...

Gostei daqui.
É intenso e possui originalidade.

Abraços, flores e estrelas dessa sua amiga desconhecida desse nosso mundo de escritores e poetas.

eder ribeiro disse...

me pego nos dois últimos versos para entender que o humano é simulacro do capitalismo: consumista vazio. abçs e um ano realizador.

f@ disse...

Em barco nas pa lavras aqui des mistificadas no insistente vazio de pre encher o espaço todo…

Faço a vontade á voz deixo espaço para o eco…
Escuto entoações do riso, das lágrimas secas em páginas brancas…
mata borrão de gotas de chuva ácida…

Vazio Uni verso imenso este aqui com que nos enches de pa lavras brilhantes…

Beijinhos das nuvens