08 dezembro 2008

A estátua no jardim
(quarto poema da série ASPECTUS)

Entardece
cada dia mais,
demoras, mil noites
numa única e triste luz nublada
derramada sobre a relva.
Vê a estátua da ninfa Érato...
O olhar, por detrás do vidro, da janela
como folha seca
vagueia, vagueia, procura,
no jardim não surge
o que se espera, o tudo, o todo.
Todas as coisas marrons, secas,
folhas soltas, anoitece sobre Érato,
a lua não aparece,
ninguém. Só o jardim
e o tempo por ali
em volteios, aspergindo
deboches. Cheiros da noite, húmus,
ação de húmus, humilhação,
nadas, coisa nenhuma espalhada
no livro, no vinho, nas horas,
nos intervalos dos investigantes olhares.
Vê, ei-la, vê que da janela se vê
pelo clarão de uma única lanterna
acesa por fiel servidor
a estátua da ninfa Érato,
vê que ela estende a coroa de rosas,
mas a lira não chora, não canta,
está aos seus pés.
Cala. Cálidas mãos
sobre pele, sobre pontos,
sobrepondo amor em todos os
horizontes do corpo, são saudades.
Ah, se o céu soprar sobre o jardim
um vento benfazejo trazendo quem há de vir,
as cordas ainda serão capazes
de vibrar.

12 comentários:

paula barros disse...

"Ah, se o céu soprar sobre o jardim
um vento benfazejo trazendo quem há de vir,
as cordas ainda serão capazes
de vibrar"

Saudades, ausências, me fez lembrar.

As cordas ainda podem vibrar, me lembrei da sensação boa do corpo no reencontro com a pessoa querida.

abraços, boa semana.

Vivian disse...

...as cordas sempre vibram
quando os bons ventos nos
trazem novas emoções.

bom dia, poeta!

muahhhhh

lyani disse...

"Entardece
cada dia mais,
demoras, mil noites
numa única e triste luz nublada"

Nossa.
bjos

FERNANDA & POEMAS disse...

Olá, lindo poema como os outros... Adorei!
Beijinhos de carinho e ternura,
Fernandinha

Jéssica disse...

Gostei dessa ligação com o jardim e Érato, e do final, principalmente *-*

Lindo, né
;**

Eurico disse...

O poeta é esse ser que não passa apenas pelas coisas, mas surpreende-se com a sua patência. Uma pedra, como a de Drummond, ou uma estátua num jardim, podem ser o encontro súbito com o patente.
O poeta é ainda aquele que sopra sobre os seres e as coisas e as fazem vibrar. Aqui achei essa vibração poeta. Você, Dauri, dedilhou as cordas da lira!

Eurico disse...

P.S.: a vibração traz essa palavra escondida. Única na língua portuguesa. A vibração é de Saudade.

Abraçamigo e fraterno.

Rosemeri Sirnes disse...

Costumo vagar pelas madrugadas, mas hoje vim mais cedo iluminar ainda mais o dia.Sempre que leio seus poemas, gosto de montar o cenário, leio, releio, assim a leitura aprimora, ganha pano de fundo.
Pela janela os mesmos movimentos e fenômenos e aquela previsão de que a luz venha em pegadas seguindo teus passos. É bem assim, né?

Beijos

Mai disse...

Dauri, algo em ti, não cessa...
Também em mim.
Aqui, a emoção deixa-me afásica-pálida e, acéfala, as palavras se escondem. Meus dois neurônios negam-se a qualquer coisa que não seja contemplação.

E me encanto, novamente.

Oliver Pickwick disse...

A linguagem dos quatros últimos versos, é shakespeariana. Excelente desfecho.
Um abraço!

Mai disse...

Ei, Dauri.

Queria pedir tua autorização para postar teu poema "estátua no jardim..." em um novo blog: amigosnablogosfera, que começo com outros poetas. É um blog recém-aberto, para homenagearmos, neste natal, aqueles a quem admiramos.
Não precisas postar este meu pedido, mas queria muito, muito, que me respondesses, logo.
Um beijo.
Fico aguardando tua autorização, ou negativa.

Mai disse...

Bem, dauri.

Não me contive.
Postei uma homenagem para ti no espaço para amigos que segue:
http://amigosnablogosfera.blogspot.com

E te agradeço pelo tanto que vens partilhando em emoção, que a mim, é ouro!

Muito carinho.