08 dezembro 2008

Entrelace inexorável
(encerrando a série ASPECTUS)

Passam-se noites, dias,
as vigílias se confundem
entre candeios apagados
e cortinas soltas às janelas.
A seiva, um resto apenas, e levemente, corre
no caule ate à rosa pendida, das últimas,
descalça, a tocar o chão, soltando as pétalas
desenrubecidas e frouxas
por entre ervas e carrapichos.
O jardim entregue, testemunha que se dispensa,
surdo ao canto de um ou outro pássaro, está ali.
O que nas estrelas se escreveu, se dá. Assim. Sim.
Há no ar, entre o lavrado e o selvagem
cheiros de últimos desejos,
anseios derradeiros de ver os muros rompidos
para se render aos prados não cultivados ao redor.
Nem isso... não será assim, será diverso.
Pois que é o tempo dos destinos, outros,
tempos de sonolências dos poetas,
tempos de desaparecidos amantes.
Um rosto incerto, indefinido, se aproxima,
roupas estranhas e automóveis nunca vistos.
Fala-se em demolição, dores de um círculo santo
que se fecha, parto de adventícios mundos.
Cerejas, uvas, tâmaras, licores,
pães sobre mesas, espectros de amores intensos,
saudades e dores. Desvanecem-se.
Outras coisas vão surgindo. O que se dá?
Será o entrelace inexorável do passado,
amores e um jardim, com o futuro?
Há ainda um resquício de música,
uma dor fina, um rumor de folhas,
páginas de um livro soltas ao acaso.
Vozes, outras vozes, ansiosas, muitas,
uma comandando, determinada:
Reserve-se a estátua, vamos levá-la.
O mais, derrubem, carreguem os entulhos,
limpem o terreno
e plantem milho em tudo.

12 comentários:

FERNANDA & POEMAS disse...

Olá querido Dauri, belíssimo como os outros... Parabéns Amigo!...

Beijinhos de carinho e ternura,
Fernandinha

intimidades disse...

cheio de sentimento

Jokas

Paula

Mai disse...

Ai, Dauri.
Quanto abandono!
Uma nostalgia me deu...
Sabe, entrei contigo neste cenário, acompanhada das lembranças-abandono dos decadentes de toda sorte.
Entre o apogeu e o declínio, o despetalar de si, das rosas, dos sonhos...
Depois, é só demolir. Não há mais, muito que fazer.

Outra vez, entrelaço-me pela via da linguagem poética admirável , que deitas aqui.

Eu te admiro, demais!

Beijo, emocionado.

Oliver Pickwick disse...

Resumo da série Aspectus: mais um campeão de sucesso do Dauri. Pena que o jardim foi destruído, era muito inspirador.
Um abraço!

P.S.: Andei ausente por uns dias.

Elcio Tuiribepi disse...

Uma dor fina e um rumor de folhas...Acho que é o vento dando boa noite...mais uma vez essa palavra nos surpreende...abraços

Dauri Batisti disse...

Continuando a brincadeira de escrever vou postar aqui um comentário. Ao fim desta série o que para mim ficou como caminho para futuras viagens é que a estátua da ninfa Érato foi preservada e levada. Para onde?
rsrs.

Beijo.

Eurico disse...

O milharal está a me doer por dentro...
Brincadeira linguística: a poesia, por mais densa, pode ter aspectos lúdicos, sim. Viu, Mai? O Dauri também brinca no trapézio sem redes, como eu!!!

Alex Sens disse...

Uma jóia, meu amigo poeta! Uma jóia! Você cria imagens lindíssimas, quase palpáveis de tão frescas aos olhos. :)
Vou ler o que não li por esses dias.
Abraços!

fred disse...

Dauri,
Antes de responder ao seu generoso comentário no meu blog resolvi vir ao seu e se não fosse porque preciso, antes de enfrentar a rotina do trabalho, voltar ao meu para responder ao seu e aos outros comentários, eu ficaria aqui horas e horas embriagando-me com os seus poemas. Vou linkar seu blog.
Grande abraço.

Rosemeri Sirnes disse...

Quando eu acho que há uma linha delimitando você vai além. Hoje recitei teu poema e o senti como cócegas, acho inclusive, que todos deveriam fazer o mesmo, teu poema requer som da voz. Embate entre mundos, o muro contra o qual sempre me choco.

Beijos

Márcio Ahimsa disse...

Vejo sempre, olhando para dentro de mim, que a algo de eterno naquilo que jaz em nós. Olho sempre para trás e vejo a linha do para sempre apontando no horizonte com um sorriso semi-aberto e um convite: venha pra o infinito, mas aqui, futuro, dependerá sempre do que já foi feito para permanecer possível.

Abraços, amigo.

Deusa Odoyá disse...

Olá meu novo amigo!
Seus pemas são muito lindos.
Haja inspiração poética!
Uma semana de muita paz e amor.
Beijos de ternura da nova amiga.

Regina Coeli.