15 dezembro 2008

, confesso, ainda, digo, deitei-me.
É. Deitei-me. Tu também hás de confessar-te?
andas confuso em seus ares.
Subterrei-me. Submeti-me ao solo,
à morte, em posturas deitadas. Reneguei
minha ressurrecta e leve corporeidade erecta.

, discriminei também.
Sim, achei-me em condição de separar cabrito de ovelha.
Discriminei minhas mãos, uma para a prosa,
outra para os versos. Esquizofrenizei
a língua. Ah, por isso confesso aos pedaços.

, desprezei os pequenos, arrependo-me,
os invisíveis, os bytes. Hoje estou
com o coração megabytizado.
Emprazeiro-me quando me ponho on,
antes eu delirava ficando na minha, off.

, desprezei também a mim mesmo
quando me ensurdeci à missão de subverter
e celestiei-me em oníricas fugas.
Hoje quero sobrelevar a sola dos meus sapatos
e sentir o densidade dos meus ossos
enquanto miro as pectas janelas de Salvador Dali.

15 comentários:

Sarah Vervloet. disse...

versos ousados esses.

Salvador Dali encaixou perfeitamente com todos os elementos... muito bom.

Mai disse...

Oi, Dauri.
Este me "pegou"...
Sabe um desses dias em que estando, opala-cintilante, tudo, ou quase tudo, despedaça-nos?
Também confesso-me.
Me inquieta constatar a minha pequenez e sinto-me, por vezes, tão absurdamente impotente...
Tão estranhamente "infectada" por uma soro-positiva angústia, que todos os delitos ocultos de mim mesma, fazem sombra nesses dias.
Ah! Dauri...

És um mago da linguagem, ou o quê?

Preciso voltar e reler e mais umas tres ou quatro ou cinco vezes, essas coisas que "inconfessáveis", tu, escarnas, escancaras e estripas, confessando num poema, com ternura e candura...
Isto é tão paradoxal...
Chega a ser contraditório, confessar o inconfessável, em nós.
Sem falar em qualquer forma de pecado ou culpa...
Essa vanguarda também esteve em "Dali".
Há uma ascendência uraniana em mim, que me sintoniza e sincroniza com tudo isto.

Mas volto a confessar, preciso pensar sobre isto tudo.

Um beijo carinhoso.

Eurico disse...

Eu tinha um parceiro de composições ao violão, que, vez por outra, nos dizíamos de uma canção que ouvíamos de alguém, ou um do outro: essa me deu inveja de não ter feito. Entre pasmo e enlevado, te digo, Dauri: essa é uma solução poética que eu buscava. É preciso criticar poéticamente a estética e a consciência de meu tempo. De nosso tempo. E, tu, ou teu eu-lírico, surpreende-me, com essa reflexão. Tendo por pano de fundo o Dali, a expressão surreal das vanguardas, desmontas o homem, o artista, confessando a necessidade de subversão, de não fugir ao espectro desse nosso tempo. Também me questiono, Poeta!

Eurico disse...

Quero tua permissão para colocar esse texto como exemplo de expressão nas minhas Mátrias!
Abraçamigo.

Cesar Oliveira disse...

Seu blog é pra ser lido com tempo e doaçao. Belos textos. Lerei

Márcio Ahimsa disse...

...sentir essas densidades ósseas, róseas veleidades da nossa ilusão,
é fecundar sonhos
e esvoaçar razões
como uma tela pintada ao avesso.

Abraços.

Eurico disse...

Poeta, não se subestime. Tenho certeza da qualidade superior do teu tabalho. Estou preparando a postagem final da série Mátria. E vou apresentar o teu poema como exemplo de literatura de nosso tempo. Uma Mátria pós-moderna!
Abraçamigo e cheio de admiração pelo teu poetar!

Artista Maldito disse...

Bom dia Caro Dauri

Aqui venho com uma revoada de vento, pois sou madrugadora e a manhã é gélida.

O Dauri domina a palavra de modo invejável, é o que lhe digo. E que bom ouvir e ler estas confissões de poeta. Concordo com o seu amigo Eurico, pois é um poeta do nosso tempo, deste pós-modernismo que à palavra entrelaça as expressões da nova tecnologia, num reencontro cósmico, a que a linguagem adere.

Um beijo com carinho
Isabel

tossan disse...

Muito profundo, do fundo da alma. Confissão de poeta! Abraço

Jo Bittencourt disse...

ah mas eu ñ confesso! rs
essa mentira me tira da verdade relativa e ativa a circulação consangüínea, já dizia a poeta...

Adorei as palavras se aventurando pela extensão de sentidos, Dali Dauri!

Beijocas

Maria Helena disse...

Confesso que,apesar de não saber poetizar como você e seus amigos , amo seus poemas que encantam,brilham e aromatizam suavemente os meus dias.
Quando não leio "essapalavra",meu dia fica sem sol.
Abraços
Maria Helena

paula barros disse...

Eu confesso - você me entendeu ao me ler.

Confesso que discriminei, que ofendi, que machuquei, que desprezei....

Confesso que gostei.

(hoje tenho dois amigos fazendo aniversário e que são do Espírito Santo. Queria está passeando por essa cidade.)

abraços

Germano Xavier disse...

Dauri construtor de verbos.
Dauri construtor de versos.

E eu que queria ter sido o poeta que escrevera isto daqui:

"Discriminei minhas mãos, uma para a prosa,
outra para os versos."

Coisa de gente grande, professor.

Um abraço forte.
Continuemos...

Tatiana disse...

Olá Dauri!

Confesso que ao ler me senti com o coração megabytizado!

Concordo que para estar aqui apreciando seu blog, é como o Cesar disse tem que ser com tempo e paz na alma!

Abraço carinhoso para vc!

Eurico disse...

Mantenha essa liberdade, Poeta; já que é a ela e não ao seu talento que você atribui os seus poemas. Mantenha essa liberdade e seja assim como aconselha o Ricardo Reis: inteiro. Não no sentido de perfeição e de totalidade, em um mundo que nos arrasta para a fragmentação.
Mas, inteiro, apesar de todo o demasiado humano, apesar das vilezas e das virtudes. Livre e inteiro, no sentido de ser genuíno, autêntico.
O resto faz a tua alma de artista da Palavra.
Abraçamigo e fraterno.