11 novembro 2008

Vísceras do mundo, visões benditas

Saio pela tarde limpa depois da chuva,
me respingo de anseios, velhas agonias.
Algo me leva ali, logo mais ali, ali, nem quero ir.
Estou sempre perto de todo mundo
e já vou distante do ultimo olhar.
Vou me esconder, vou calar, vou procurar
as vísceras do mundo, visões benditas.
O que vejo é a folha da imbaúba, verde e prata
e acho, posso, ali, fazer cruzar a linha do espírito
com a linha das minhas tripas e rins e ver.
Fico, e não vejo, vejo a folha da imbaúba
que vira e desvira, ora prata, ora verde. Recordo-me,
as visões podem se ancorar em qualquer insignificância.
Fico, olhar fixo, nada, nada, desanimo, penso,
a tarde é triste, anoitece, eu sozinho, desolado,
quero voltar para o barulho das crianças,
ver minhas crianças, minhas alegrias.
Começo a cantar o velho canto que surge do nada,
do tudo que já vivi. Olho para a imbaúba, longa,
ela também tem a mesma sina, ela só é
o outro modo do mesmo espírito que me vaza
e me derrama líquido em forma errada, de gente,
quando quero vôos altos, de águias
ou rasteios de serpentes. Recolho-me em mim.
Canto. Algo se dissolve. Canto os velhos cantos
em lamentos, em louvor. Escorre.
O canto vai se ajustando ao rumor do coração
me solto, me desprendo, subo, subo, subo
mais alto que a imbaúba e escuto o mundo
e todos os sons formando uma só canção
que canta minhas lágrimas e meus risos.

10 comentários:

Elcio Tuiribepi disse...

Mais um bonito poema...
Achei bonita esta parte...
O canto vai se ajustando ao rumor do coração
me solto, me desprendo, subo, subo, subo
mais alto que a imbaúba e escuto o mundo
e todos os sons formando uma só canção
que canta minhas lágrimas e meus risos. Cantar as lágrimas e os risos...poéticamente cantado...abraço

Átila Siqueira. disse...

Oi, foi um prazer te receber em meu blog. Se veio pelo blog da Vivian, então veio por bons caminhos.

Gostei muito do seu poema, tu escreves muito bem. Mostrou um extremo existencialismo em seus versos, a dureza da transitividade, a efemeridade da vida, e o gosto doce que existe nas pequenas coisas, em contraste com uma existência que as vezes nos parece sem motivo e vazia.

Gostei muito do seu modo de escrever. Gostei de pensar na chuva lavando tudo, nas folhas, e no sentimento que a chuva sempre nos trás, de reflexão e introspecção.

Vou colocar um link para o seu blog, para sempre poder te visitar e acompanhar suas atualizações, e te convido a voltar sempre ao meu espaço.

Um grande abraço,
Átila Siqueira.

Sarah Vervloet. disse...

A solidão nos faz perceber o infinitos detalhes que nos cercam, que nos perdem, nos distraem... a chuva faz parte dessa solidão ambígua. Quando achamos que estamos sozinhos, temos os pingos que nos lavam a alma e retomam a velha canção de sempre.

Grande beijo,
Sarah.

Camilla Tebet disse...

LIndo.. e falando em viagem.. ai foi uma bela viagem.

tossan disse...

No espaço da chuva fui dar uma caminhada e pensei no seu texto poético que me marcou muito e na solidão enxergo´mais. Abraço

Márcio Ahimsa disse...

...olho por dentro da imbaúba e te vejo fazendo chuva com uma canção de tambor batendo forte no coração de quem sabe o que é o amor... O som, a imagem, o tom, a canção e o ser... Tudo isso é beleza, é poesia... Tudo isso é magia...

Muito bom amigo Dauri Batisti. Belíssimo poema. Fina poesia.

Gostei muito.

Vieira Calado disse...

No fundo, um belo poema à vida, com tudo o que ela tem.

Um abraço

Cadinho RoCo disse...

Acontecem eecos em forma de folhas pensamentos crianças numa chuva de sugestões.
Cadinho RoCo

Mai disse...

Olá Dauri, voltei e me comoví com o teu texto.
Consegues me envolver com tanta intensidade que percorro contigo, teus caminhos...
Abraços,
Voltarei.

Gui Sillva disse...

acho que a vida, por si só, é uma bela viagem...e nós que estamos no comando.