10 novembro 2008

Primeiras palavras - titubeantes - do que busca visões.

Aconteceu, acontece.
As visões eram tão claras,
mas, anoitece. Ouço tão bem.
A chave. A porta se fechou.
Espero, procuro, busco
até que uma visão me pegue
indefeso no deserto,
ou remando minha canoa...
Não sei se devo falar, falo, me atraso
talvez, ter visões implica em calar,
escutar. Aconteceu, já aconteceu,
mas ainda acontecerá,
acredito, nas jornadas que tento,
que passo, que me vou.
Um olho, caolho, o do dia,
me treina para ver as coisas retas;
vem o outro, da noite,
caolho também, e me treina
para ver as convexas, não menos certas.
Me mantenho em atençao. Canto.
Meu propósito, visões. Canto.
Agora sou este que via e deixou de ver,
o que anda e ouve. Ouço tão bem, vivo
destes desejos de visões,
ou... obrigações de visões.
Elas me aguardam em seu lugar.
Eu devo estar fora do meu. Canto.
Visões, poesia, para quê?
Para onde correm
estes filhos de homens?
Não querem visões,
mas choram olhos de ardência,
desejos. Violência... Oh!
Para ir lá onde elas estão percorro longas distâncias
caminhos que ando, escolhi o leste. Arrisquei.
Confundirei visões com luz de frente, nascente?

Ouço essa música de temores, dores,
os alicerces abalados.

Tenho medo...

Não, o som é do vazio
que se faz cheio. A música
dos inícios,
do alegre fogo recém aceso.

Ouço.

Ouvir...

pode já ser a barulho da porta
que se abre.



11 comentários:

Eurico disse...

Tenho acompanhado os poemas xamanicos com curiosidade. Instaura-se uma poética sempre que se anuncia um novo poema, Dauri. Teus eus, teus múltiplos eus enunciadores in/auguram a poesia xamanica!
Abraçamigo e fraterno.

João da Silva disse...

Dauri, você é lindamente profundo. Não sei por que razão, mas quando leio o que você escreve fujo ao chão. Agora eu me senti em meio a um canto gregoriano, e uma imagem mental da escada de Jacob assomou-me, gigante, à mente; e algo da Baghavad Gita cantava na acústica de meus ouvidos, o oriente e o ocidente se encontravam... tudo assim, num átimo, para depois desfazer-se e eu voltar à beleza de suas palavras.
Abraço forte do João

Mai disse...

Linguagem que surpreendeu meus sentidos, ressignificou as palavras e me fez perceber algo novo pela trilha que o teu olhar conduziu. Poesia!
Grata pela visita.
A observação que fez, me levou a pensar....
Voltarei outras vezes.
Abraços.

Coringa disse...

Uma estrada construída sobre possibilidades. A vista embaçada, não pela idade, mas por nunca ter sido usada.

Tatiana disse...

Olá Bom dia!
Sempre profundo... nos levando ao mais fundo de nossa alma...

Abrir a porta e perceber o que há do outro lado... eis o segredo da vida!

Que esse dia seja muito especial para você!

Te deixo meu carinho!

o Cronista disse...

eu tenho medo do silencio....

mto tempo sem vir aki,.......
q feio

Vivian disse...

...cada vez que eu te leio,
abre-se uma porta em meus
sentidos.

obrigada por isso!

muahhhhh

KÁTIA CORRÊA DE CARLI disse...

Querido Dauri
Mea culpa, mea maxima culpa!
Perdão...
Li os poemas anteriores, em outra ocasião, gostei demais, senti familiaridade, mas não tive percepção suficiente para captar a proposta atrás das palavras...
Só agora, que vi sua explicação, retornei e refiz o caminho.
Fantástico! E vc ainda me diz que "tenho tentado escrever poemas xamânicos"? Você Os fez, da forma mais linda possível.
Eu, que as vezes ouço o que não quero e que ainda não sei lidar bem com isso acabo falando o que não devo e me metendo em confusões, encontrei nos seus poemas inúmeras lições.
Creia!
Um grande beijo, de muita luz

alua.estrelas disse...

A porta... Engraçado estar no seu texto e acabou de ser mencionada no meu... Sempre ela: podendo ser aberta ou fechada. Definidora de várias coisas...

Muito bom o seu texto... Cada vez melhor!!!
Bjos.

Alex Sens disse...

Os sons enganam, tua poesia engana. Pra onde olho, se tenho medo?

Abraço, Dauri.

Camilla Tebet disse...

texto de portas e olhos abertos. Aliás assim são seus textos. Sempre em busca..