06 novembro 2008

Um bicho poderoso de quatro patas
(buscando o remédio)

Traço no chão com cuidado o mundo do meu olho,
dentro dele me deito com as mãos sobre o peito.
Relembro os passos com o gavião,
o sol, os riachos, os pássaros.
Recordo as andanças com o bacurau,
o céu, as sombras, os astros.
Mas o remédio se esconde talvez
nos silêncios das planícies e charcos;
ou antes, ou depois, ou debaixo
de cada passo, de cada pensamento,
ou dentro, quem sabe, da percussão do tambor.
Dor, amor, destino,
tudo amarrado num único nó.
Medito deitado: o que quero?
Reavivar alguns sonhos e ser um com eles,
descansar sobre folhas perfumadas,
me acalentar com histórias que ouvia quando menino.
Durmo não durmo. Duvido. Me deixo levar.
No escuro, sozinho, me retraio, me encolho.
Mas vejo... Sim, vejo... Penso que vejo
entre as fogueiras no céu e as fumaças na terra
um bicho poderoso de quatro patas.
Oh! Uma onça?
Uma onça que me mata...
não, que me marca
com quatro tiras de sangue no braço,
fontes que escorrem para dentro da minha mão.

11 comentários:

lyani disse...

Tem presentinho no meu blog pra você ^^
Bjos

Alex Sens disse...

Delícia - o remédio tá nessa poesia, nesses ares. Cara, cada verso soluça de um jeito, de forma luminosa.

Sempre - sempre mesmo - me sinto bem com cada palavra, tão bem cuidada e sobreposta. Como numa mesa bonita.

Abração.

Tentativas Poemáticas disse...

Amigo dauri
O que o amigo audaciosamente chama de poemas são, no meu audacioso entendimento, verdadeiros POEMAS.
Parabéns!
Obrigado pela visita e tão apetitoso comentário.
Um grande abraço.
António

tossan disse...

Maravilhoso! Gostoso de ler, flui...Abraço

lugirão disse...

Visitando pela primeira vez, e gostando muito do seu falar, aos amigos costumo dizer que poesia não sei comentar, só sentir, parabéns.

Esther disse...

Dauri,

que coisa boa seu blog!
Parabéns pela leveza que consegues passar e pelo sentimento forte através das palavras


"È possível acariciar pessoas com palavras"

Fitzgerald

ou instigar e fazer pensar também!


bj

Sandra Leite disse...

Dauri, remédio é a sua palavra. Leve, fulgaz. Precisa, exata, completa. Palavra que revela. Palavra que traduz. Palavra espelho de todos nós. Que sentimento profundo esse que provoca a sua palavra.

beijo

F. S. Júnior disse...

poemas xâmanicos, gostei disto... escrever sobre a natureza é sempre um desafio incrível, como sabes nunca consigo deixar de falar das dores do coração... abraços, meu fiel leitor e amigo poeta.

KÁTIA CORRÊA DE CARLI disse...

Querido Dauri

Desculpe a ausência prolongada, ando passando por uns perrengues, mas sei que estou em excelentes mãos, tanto aqui (JE) quanto lá em cima...
Agora é esperar o remédio, e nem preciso buscar, como seu poema, pois quem vai buscar é o Jorge (rs)
Saudades daqui...
beijo e bom fim de semana

JOICE WORM disse...

Bom, por sua causa e por causa da beleza de poesia, estava eu distraidamente a comer um chocolate. Me perdi na leitura, o chocolate derreteu nos meus dedos, caiu na minha calça branca, e escreveu uma letra... D. Depois do ato que fiz para retirar o pedeço... Acha normal?? hehe... Mas não me zanguei. Lambi a calça também... Sou meio doida!

mundo azul disse...

Seus versos são uma verdadeira viagem... Viajamos com você!


Beijos de luz e um final de semana especial!!!