27 novembro 2008

Corte, petalas, mãos

– As ruas? rosas, lâminas,
são minhas até à madrugada,
até que os gestos do mundo
se apoderem de novo de cada pedaço.
O clamor lá por dentro, quase prece,
o calor, o suor me chamam
para a força e o esforço, sem o qual
não vou, não suporto.
Hei de dizer o sentimento, todavia
espera um pouco, estou pensando.
Escolho palavras, pois que
isto é manejo de navalha
em alva pele de barba.
O sentimento estranho, ainda mais é,
em peito de mulher. Égua, não falo.
Pesa mais. Quero a dose certa.
O sentir estranho é...
é sentimento cavalez.
Tu me entenderás. Puxo carroça.
Cato, pego, pago o que não se desconta,
fome de criança, filhos.
Papel, papel, papelão. Volta e meia
vidro, lâmina de aço, corte, rosas.
Minhas mãos não são patas,
ainda há por debaixo um quê de pétalas.

7 comentários:

JOICE WORM disse...

Porque será que te vejo como um cara, calmo, sensato, seguro e justo? Eu mesma respondo... É porque és transparente, Dauri.
Sua sensibilidade não está escondida. Reluz. Escreves o que lemos e o que não lemos, para deixar escrito em memória as entrelinhas que queres que sejam refletidas...
Um espectáculo!!!

Eurico disse...

Esse corte, essa tomada com algo de cinematográfo, esse close-up do personagem que entra e, cena nos afrontando/confrontando com sua fala...isso é bonito demais.
E essa voz gutural, que derrama sobre nós a seiva, o visgo das idéias do "entrevistado", uma voz meio Riobaldo..meio Rosa. Isso também é surpreendentemente belo.
Há um personagem de Miguel de Unamuno,o Pedro Antonio Iturriondo, do qual fiz uma releitura para um romance meu, que é da rua, que é carroceiro de mão.
Mas esse quê de pétalas é teu, Dauri, és tu, é a tua alma saindo da pedra feito um filete d'água.
E não me venham falar que é o eu-lírico rsrsrs Às vezes ele nos revela, Poeta e Peregrino.
Abraço fraterno e sempre em deleite com teus textos.

Mai disse...

Oi, Dauri.

Um dos melhores textos que já li.
Sabe, a poesia me encanta, na justa medida que, com as mesmas palavras-rearranjo, vou aos cenários inesperados de um já-visto, jamais-visitado.
Isto te parece loucura-psi?
Isto é linguagem.
Isto é o poema e o poeta.
És um POETA que adoro ler.
Carinho.

Vivian disse...

...bom dia poeta da realidade
dolorida!!
mesmo assim com
resquícios de ternura.

bjusss

João da Silva disse...

Dauri, meu caro, toda vez que venho aqui me impressiono com a força de seus ver(s)os. Parece que eles brotam diretamente da alma, e não é necessário mãos para escrevê-los: é a alma quem o faz.
Versos às vezes rudes, obtundentes como as águas revoltas do mar que catigam as rochas. E de uma beleza selvagem e verdadeira.
Escritos com coragem e com beleza. Como já lhe disse, aqui a filosofia e a poesia caminham de mãos dadas.
Abraço do João, seu admirador

José Roldão disse...

Este blog tem música, tem dança.

Nós, os observadores do espetáculo, ficamos aqui: alguns a balançar os pés no ritmo; outros, como eu, a tatear os silêncios por entre os passos, entrelinhas.

As ruas devem ser mesmo lâminas a cortar a cidade...

Tenho vindo aqui frequentemente. Inevitável.

Bons Ventos!

Jo Bittencourt disse...

Espátula de pata à pétala move o q remove nossos olhares.


Dauri, beijos!