26 novembro 2008

O corisco risca o céu, mas...
(uma entrevista)

– Gritar? Deixa eu pensar... Tudo bem, vamos gritar.
Pode ligar. Tu nem sabes o que se passa aqui.
O corisco risca o céu, mas é o chão que se estoura.
Vivo, corro, ando, não me importo com sinais,
trânsito, me dou com outras margens, o mangue
é um lamaçal bonito, ramagens verdes
nas margens do canal . Mergulho na maré
me pego nu, sou eu mesmo,
faço minhas as ruas, e vivo.
Ainda sou menino. Mas não sou menino.
Vou falar gritos, falo gritos,
essa língua que se grita fora
de tantos estrondos que se dão por dentro,
gemidos, risadas, palavras de outro país
onde se fala português na América do Sul.
É... eu sei. O que não me foi ensinado, aprendi.
É isso, verdade se aprende,
bicho tem instinto. Grito a verdade.
O que é a verdade? Tu não sabes? Verdade
é quando tu tens um desejo e faz de tudo,
qualquer coisa, para possuir aquilo que desejas.
Minto para os caras, minto a verdade,
grito o que não sofri, angario deles piedade,
medo, nojo, desconfiança. Anda, pega,
me dá logo esse dinheiro, penso,
mas cara de coitado é o que apresento.
Os jardins da cidade me sorriem,
sorriem e eu também, é... eu também,
quando me encho de risos fáceis,
poucos reais, gastos para me ver assim...
Saudades? Eu nunca tive, o que é isso?
Ah, horas penso que sou feliz...
Por que estou rindo? Sei lá, tua cara, tu és estrangeiro,
estou rindo na tua cara. Agora vou te gritar uma coisa,
vou gritar em voz baixa, escute bem, não pense que estou aqui,
estou bem longe, sou esperto, já mudei de país,
recuperei instinto, andar de cão, olho de cobra,
mão de gato, tino de escorpião.

9 comentários:

JOICE WORM disse...

Ups... No início me pareceu um desabafo em que o grito seria um "basta", depois me pareceu um assalto em que o larápio saiu impune...
Estou lhe devendo milhões de visitas amigo. Mas não esqueço de ti!

FERNANDA & POEMAS disse...

Olá Amigo, gostei do teu belo texto...Maravilhoso!
Beijinhos de carinho,
Fernandinha

Eurico disse...

Quem colherá isso que foi semeado, que vem sendo semeado por nossa geração? A estufa está em plena proliferação: desamor, indiferença, egoismo consumista...
sede de poder e de lucros, ganância.
Na minha infância li Capitães da Areia...
Estamos colhendo isso nas ruas!
Plantamos e agora colhemos.
Abraço fraterno e perplexo.

Cadinho RoCo disse...

Tão bom dizer tudo.
Cadinho RoCo

Vivian disse...

...com certeza este grito foi
o grito coletivo de todos
os meninos que se escondem
na Praça da Sé. SP é claro!

bjusss

Rosemeri Sirnes disse...

Oi Dauri, estou correndo, vou estacionar, prometo! Quanto à monografia, ela trabalhará a questão da suposta autoria anônima de Budapeste, o jogo que Chico faz ao criar um personagem que cria uma narrativa de sua própria vida dentro de uma outra. Ajuda é muito bem-vinda. Se você puder indicar alguma bibliografia.

Beijo

Oliver Pickwick disse...

Bela "entrevista". És um bom "repórter". :)
Um abraço!

Dora disse...

Oi,meu poeta. O "entrevistado" é vivido, forjado nas andanças, nas ruas e outras veredas estreitas e sujas. Sabe usar suas "máscaras" de sorriso e falsidade. Grita em qualquer idioma o que o mundo não quer ouvir, talvez.
Deve deixar o entrevistador perplexo.Como a nós, que lemos a entrevista. Quando descobrimos essa faceta humana que muitos adquirem, transitando entre as misérias da vida.
Beijo você!
Dora

Rosemeri Sirnes disse...

Amigo poeta,

Li e vesti o personagem de terno e gravata. Lá no meio, na margem, quase no fim, teu personagem despiu-se desses trajes, mas senti um certo apego, ele não queria os pés no chão. Ele me contou a verdade ao pé do ouvido e essa verdade se formou em duas faces.


Beijos