08 outubro 2008

Vejo o cais

Passo bem devagar
procurando lanternas abandonadas ao longo do porto,
andando com cuidado e certa ansiedade.
Vejo o cais abarrotado de anjos dançantes nos guindastes
e fantasmas melancólicos sobre as sacas de café.
Vieram de outros séculos e de outras águas
seduzidos pela cor, pelo cheiro, pelo mel da ilha
e pelo desejo de palavras em português.
E se prenderam me esperando,
a mim ou outro assim, endoidecido.
Deparo-me com um velho navio
maior do que pensamento que tira sono.
Nele embarco e desembarco num instante,
logo encontro entre cargas e estivadores,
sem entender, rosas amarelas ainda guardadas
em muitos botões prontos para serem esmagados
como se fossem uvas.
Esta é a rotina em porões, em corações
que sofrem delírios de encontrar um vinho novo.
No sabor, licoroso; na cor, de ouro.
Vinho proibido, luminoso, para ouvir da vida
seus conselhos. Antes do esmago
recolho o que posso e arranjo em janelas
estes botões que desabrocharão
sem hora certa em rosas solares
quando um passante borrifar neles
seus olhos úmidos de poeta
recolhendo de suas pétalas
com a ponta da língua trêmula e sedenta
gotas do vinho arcano que muda de sabor
de acordo com a dor e a luz de cada um.

8 comentários:

Ricardo Jung disse...

cara... deu até pra beber a honestidade desse texto...

de fato, tens a sensibilidade, a consciência, a pureza, e a sutileza digna de um poeta romântico e modernista... soas como um Castro Alves sem indignação, ou pelo menos essa é a face que ainda não vi

abraços Bat man

Cadinho RoCo disse...

No porto a magia dos mares.
Cadinho RoCo

Eurico disse...

Vim recolher o vinho arcano com minhas frágeis luzes e minhas dores várias. Vinho saboroso e de safra antiga...esmagados nesse teu apurado lagar poético.
Abraçamigo e fraterno.

o Cronista disse...

nossa, eu vi o cais: um cais noturno cheio de adeus!

mto lindo,

bjos

Camilla Tebet disse...

Esse cenário de cais noturno me levou longe. Suas construções sempre levam longe. São viagens.

"maior do que pensamento que tira sono."
Dauri Batista.

Olha como vc fala de tamanho. Isso é lindo.
Um beijo;

Iana disse...

Vim de um blog amigo de quem estimo muito! Hoje fui levar a ele flores frescas do meu jardim, e decidi marcar o caminho com pétalas de rosas perfumadas e alegrar e perfumar mais cantinhos amigos também... encontrei vC....

Adorei o que li, o que vi, e adorei estar aqui... partindo e deixando flores para ti...

Beijinho doces
quem sou??? Apenas uma Rosa amiga

Iana!!!

C. disse...

Oi, meu querido! Fico feliz que gosta dos meus textos. Muitas vezes eu mesma não gosto destes, são repetitivos pra mim. Acho que estou numa rotina. Acho.
E a sua escrita? É tão linda, suave e o melhor: não é repetitiva como a minha. Acho ótima.
Beijo grande.

Lyani disse...

"Esta é a rotina em porões, em corações
que sofrem delírios de encontrar um vinho novo.
No sabor, licoroso; na cor, de ouro"

Vc tem o dom!
Bjos