02 janeiro 2008

Vinho

No princípio,
bem no princípio,
era um pássaro,
livre e inocente.

Foi ele, porém, aprisionado,
“in duritiam cordis”,
entre o mais baixo dos céus
e o mais alto dos infernos.
“Et obscuratus est sol”
e reinou a dor.

A dor estava na escuridão
e doía muito em cada mundo
que existia e acabava
no silêncio do abismo.

Houve um dia, no entanto,
que a ave presa se debateu tanto
que de suas asas amarradas por cordas de sangue
saíram faíscas, fagulhas, chamas,
consumindo-a inteiramente.

“Et lux in tenebris lucet”,
e a dor doeu na claridade.
Ah, como dói a dor
nessa claridade que faz ver
a dor dos outros também.
Fica ainda mais difícil,
como percebeu a mãe,
quando “vinum non habent”.


“Et deficiente vino”, rapaz,
não há outro jeito,
senão encarar a vida, e seguir
o conselho do velho pai:
“Fili, vade operare in vinea".
Um bom vinho sempre ajuda.

8 comentários:

F. S. Júnior disse...

gostei deste trecho revelador:
"e a dor doeu na claridade.
Ah, como dói a dor
nessa claridade que faz ver
a dor dos outros também."

Feliz 2008.

John Doe disse...

Meu latin anda bem enferrujado mas gostei muito....

John Doe disse...

Um ótimo 2008 meu amigo...

Dauri Batisti disse...

O latim foi só para dar um ar gótico ao poema. Não saco nada de latim. Só usei recortes.
Ae vai o poeminha sem latim:

No princípio,
bem no princípio,
era um pássaro,
livre e inocente.

Foi ele, porém, aprisionado,
em corações endurecidos
entre o mais baixo dos céus
e o mais alto dos infernos.
Houve trevas
e reinou a dor.

A dor estava na escuridão
e doía muito em cada mundo
que existia e acabava
no silêncio do abismo.

Houve um dia, no entanto,
que a ave presa se debateu tanto
que de suas asas amarradas
por cordas de sangue
saíram faíscas, fagulhas, chamas,
consumindo-a inteiramente.

A luz brilhou nas trevas
e a dor doeu na claridade.

Ah, como dói a dor
nessa claridade que faz ver
a dor dos outros também.
Fica ainda mais difícil,
como percebeu a mãe,
quando não há vinho.


Na falta de vinho, rapaz,
não há outro jeito,
senão encarar a vida, e seguir
o conselho do velho pai:
Filho,vá cultivar vinhas.
Um bom vinho sempre ajuda.

Obrigado pelos comentários,
Dauri Batisti

florescer disse...

Bonito isso: "Fica ainda mais difícil, como percebeu a mãe, quando não há mais vinho". Penso que vejo o olhar feminino na percepção da falta. Olhar feminino que aponta que é hora de se tomar atitudes.

Jacinta

Anônimo disse...

Encarar a vida de frente sorvendo o vinho dos seus poemas torna -se mais fácil até fazer meu próprio vinho.

Luiza disse...

Ficou mais lindo sem o latim....
"No princípio, bem no princípio, era um pássaro, livre e inocente".
Endurecemos, sofremos sem perceber também a dor dos outros...
Desperdiçamos vinhos, cultivamos dores com tanta luz brilhando!
A sua traz de volta, sentimentos que nem imaginava mais que existiam.

Bjs

Mai disse...

E não acredito ainda gostas de "latim" também?
Dio mio!
dauri, aos poucos, vou percebendo que talvez eu chore, porque há muito de mim, aqui.
Sei que já disseste que o que escreve, se me cabe, sou eu, alguma coisa, assim.

Mas, mesmo advertida sobre esta possibilidade, de fato creio que um insight, me faria escrever, justo e exatamente isto. Ou, não com esta estética, perfeita que impões.
Mas é tão minha, cada pausa e vírgula e sons e tons...
Será que é isto?

Bem. Terminei a leitura de janeiro.
Precisarei ler fevereiro e março e....

Volto outro dia.

Beijos.