30 novembro 2008

Sombrinha amarela com flores azuis.

– Olha, me olha, mira, vira, louco,
outro que sai de ti. Sou eu. Tu não vês?
Estou aqui. Neste sinal, farol,
luz de encruzilhadas.
Não sou navio, levo nos porões o que ficou
no lugar do que perdi. Ego,
ilha, alma, algo. O que faço?
Peço dinheiro. Está chovendo muito,
tenho esta sombrinha. Achei.
O que é a vida, o que é.
A sombrinha te chamou a atenção,
na mão de um rapaz novo e bonito.
Te explico, é porque sou artista. A roupa suja
não me cai bem. Eu sei. Não repare.
Tu me vais fotografar?
É amarela,
com flores azuis.
Danço entre os carros. Não,
corro. Um dia caí da escada do avião
bati com a cabeça e
me trouxeram pra cá,
mas sou de lá. Não posso voltar,
minha cidade já foi tomada pelo mar. Fico triste.
Aqui sou sozinho, mas me enfelizo,
me embelezo, me enjubilo, me encorajo
com os dias e as poesias que recolho
andando pelas ruas. Repare, olhe bem,
fixe o olhar num canto qualquer,
e verás um rastro
dos velhos caminhos dos nossos pais,
dos dias em que eles sonhavam, antes de nós.
Tu me reconheceste. Eu sei. Te esperava.
Haverias de me levar contigo?
Queres minha sombrinha?
Queres? Toma. A sombrinha te segura,
te equilibra. Mas tens que inventar
palavras bonitas sempre que te sentires down.
Tu me olhas. Tu que choras,
ou são águas dessa chuva?

29 novembro 2008

Tenho sina. Um oco

– Fome estilhaçada é o que sou,
fome de ser águia, quis ser jogador.
Eu acreditei que seria grande no futebol.
Já passo dos quarenta. Nem pardal sou. Veja.
Meu peito nunca mais foi ungido
com palavras que cantam. Eu cantava
e traçava para mim belo caminho.
Agora assobio, sem destino,
tenho sina. Um oco
é onde cai o meu futuro. Vendo abacaxi.
Já tentei vender galinhas, maçãs também.
Maçã é fruta bonita, mas fiquei com o abacaxi.
Vou com este carrinho por ai
e as frutas penduradas em cordinhas
como varais. Chama a atenção. Eu queria
era vender girassóis. Todavia,
logo na primeira esquina seriam murchos,
desmerecidos para a luz como um dia no seu fim.
O abacaxi parece flor, e cheira.
Quanto mais eu ando e o sol me queima,
mais ele cheira.
Mas vou repetir uma palavra, posso?
Queria mesmo era vender girassóis.
Acho até que voltaria a cantar.
Daria certo? Tu comprarias?

28 novembro 2008

Amargo de laranja

– Vergonha sempre há, mesmo
quando não se é mais menina...
Delibera outras palavras para mim,
tenho urgências de palavras bonitas.
Não? Vergonha é palavra feia,
cheiro de glândulas, sem sabão.
Me lavo muito, me desencarno,
há um amargo em minha pele, nas dobras,
nas mãos, nas auréolas douradas
onde nasceu o verbo amar,
um amargo de laranja, daquela parte branca.
É. Sou. Verdade. Agra. Branca.
Desejo? Tu sabes,
por que me perguntas?
Ele é bem maior. Projetos bons.
É angustia também, latidos que incomodam.
Se tens um cão em casa, sabes, te acostumas.
Ele late, late, late
e tu fazes
o que tem que fazer.
O sentimento vem fácil,
não dou confiança, verdade,
aborto todos. São pedras lisas,
fundamento onde pisas,
tem que pisar certo. A queda
te espera lamacenta, a cada passo.
Ah... disso não se fala,
...na hora, na hora. Não sei. Verdade.
Na hora voa da mente um pássaro
desabitado de ventos nos ossos,
que me leva e me cai. Sinto
uma vontade de ficar caída,
mas me levanto...

27 novembro 2008

Corte, petalas, mãos

– As ruas? rosas, lâminas,
são minhas até à madrugada,
até que os gestos do mundo
se apoderem de novo de cada pedaço.
O clamor lá por dentro, quase prece,
o calor, o suor me chamam
para a força e o esforço, sem o qual
não vou, não suporto.
Hei de dizer o sentimento, todavia
espera um pouco, estou pensando.
Escolho palavras, pois que
isto é manejo de navalha
em alva pele de barba.
O sentimento estranho, ainda mais é,
em peito de mulher. Égua, não falo.
Pesa mais. Quero a dose certa.
O sentir estranho é...
é sentimento cavalez.
Tu me entenderás. Puxo carroça.
Cato, pego, pago o que não se desconta,
fome de criança, filhos.
Papel, papel, papelão. Volta e meia
vidro, lâmina de aço, corte, rosas.
Minhas mãos não são patas,
ainda há por debaixo um quê de pétalas.

26 novembro 2008

O corisco risca o céu, mas...
(uma entrevista)

– Gritar? Deixa eu pensar... Tudo bem, vamos gritar.
Pode ligar. Tu nem sabes o que se passa aqui.
O corisco risca o céu, mas é o chão que se estoura.
Vivo, corro, ando, não me importo com sinais,
trânsito, me dou com outras margens, o mangue
é um lamaçal bonito, ramagens verdes
nas margens do canal . Mergulho na maré
me pego nu, sou eu mesmo,
faço minhas as ruas, e vivo.
Ainda sou menino. Mas não sou menino.
Vou falar gritos, falo gritos,
essa língua que se grita fora
de tantos estrondos que se dão por dentro,
gemidos, risadas, palavras de outro país
onde se fala português na América do Sul.
É... eu sei. O que não me foi ensinado, aprendi.
É isso, verdade se aprende,
bicho tem instinto. Grito a verdade.
O que é a verdade? Tu não sabes? Verdade
é quando tu tens um desejo e faz de tudo,
qualquer coisa, para possuir aquilo que desejas.
Minto para os caras, minto a verdade,
grito o que não sofri, angario deles piedade,
medo, nojo, desconfiança. Anda, pega,
me dá logo esse dinheiro, penso,
mas cara de coitado é o que apresento.
Os jardins da cidade me sorriem,
sorriem e eu também, é... eu também,
quando me encho de risos fáceis,
poucos reais, gastos para me ver assim...
Saudades? Eu nunca tive, o que é isso?
Ah, horas penso que sou feliz...
Por que estou rindo? Sei lá, tua cara, tu és estrangeiro,
estou rindo na tua cara. Agora vou te gritar uma coisa,
vou gritar em voz baixa, escute bem, não pense que estou aqui,
estou bem longe, sou esperto, já mudei de país,
recuperei instinto, andar de cão, olho de cobra,
mão de gato, tino de escorpião.

25 novembro 2008

Três vezes
(dedico este poema, que encerra os POEMAS DA PLANÍCIE, aos amigos blogueiros)

Recuperei o amor,
preciso refazer no coração
o caminho de uma planície
para me dar o entendimento do que disse.
Recuperei o amor,
abri a porta do vento
e as palavras saíram.
O amor pode ter vindo
no poder da imensidão,
na beleza das lonjuras,
ou nas luzes das estrelas.
Pode também ter vindo
na brisa mansa que me tocou
no alpendre em choupana perdida
tomada por abrigo,
minha própria vida. E digo,
algo mudou, me estabeleci,
cultivei trigo, tenho casa.
As espigas que amadureceram são tuas.
Reconheço, retempero minha vista,
a planície me abençoa com amor. Grãos.
Trigo. Florido. Flores douradas.
Não, estas são tuas,
não desfaço o que digo. Amo-te.
Sejam reticentes as colinas
e vacilantes as memórias,
mas o que levo aqui em mim
faz-se pedra de firmeza. Amo-te.
Estas espigas são tuas
e todas as outras.
Os horizontes e o destino
já me são amigos. Quero-te.
Aceita-me e a flor do trigo,
minha jornada em ramalhete. Amo-te.

24 novembro 2008

Direi ainda

...é o porvindouro que segue na planície,
o tempo,
aquele que ainda será atrasado
quando eu passar afobado.
Ah, gosto dessas andanças por aqui
pra me ver, quem sabe, subsistindo na linha
do futuro, ou do horizonte,
como uma faísca no céu.
Penso e repenso,
e olho e recoloco o olho em outro ponto,
assunto e reassunto por todos os lados,
não cedo, mesmo se não encontro o que nem sei.
Só ele, o tempo todo, mudo,
me comprimindo entre o passado e futuro,
eu nesse meio, nesse quente,
nesse frio, nesse peso, nesse denso chumbo.
Talvez a planície me permita em 360 graus
a visão do campo no qual fui colocado
para abrir a porta do vento, a palavra,
e brincar com a força do mundo
que circula e atravessa tudo, a poesia,
numinoso poder de transubstanciar
um dia em mil anos.
Talvez, sempre talvez,
cultivo da ilusão,
ao invés de dizer não. Não,
não sei nada, é o que digo então, o que sei,
sei vago, um vago, um nada, vagueio,
poeiras de estradas e verdes de vargens.
Intimas descobertas?
Ah, são insignificâncias...

Espera, descontinua esses passos!
Escuta o que disseste para ti mesmo, abrir
a porta do vento... a força do mundo... o numinoso...

Sim, sim, ó planície
te escuto, me escuto, falo,
me vou contente com a maciez das águas
quando atravesso os riachos
e com os suaves lençóis
quando encontro alguma estalagem.
Direi ainda... é magnífico respirar.
Ademais, em ti, ó planície, a respiração é estrelada.

23 novembro 2008

Estranho
(coisas das planícies)

... quadros na parede
na estalagem da noite.
Vida que impede, ou que pede
uma ruptura.
Paisagens avermelhadas,
gastas, e marrons, muitos marrons,
tons e outros nós de dor, óleo sobre tela,
temas ingênuos, pastiches. Vida pastiche,
por mais que se ande, na planície,
parece,
só a mente vai à frente,
ainda que plana e insana.
Os espaços,
os alvéolos, os céus, pulmonares anjos,
ares, espíritos cheios de entusiasmo por andanças
logo se esvaziam,
correm e drenam-se água pelo riacho.
Amor, entendimentos, direção,
pega-se no fundo a alma, a vida,
os passos que resistem,
segue.

...a estrada,
misteriosa serpente,
dissimula-se, ou revela-se numa bandeira
na mão de estranho viajante,
Adianta-se uma luta contra a planície ou
aprende-se com as agonias, o estranho sussurra-lhe.
Dor, agonia de que espécie? Pergunta-se. Específica?
não, nenhuma. Difusa, confusa, talvez dor de viver.
Viver pedra,
areia, poeira, amarelados tons planos,
anos tão rápidos. Ah, pesa no estômago um breu,
uma pretura de sonhos queimados,
passos não dados,
...a inominável agonia.
O estranho lhe oferece uma direção
e um estandarte em azul cerúleo
com estrelas em prata.
Ele agradece, não aceita, e se vai.

22 novembro 2008

Cheiro de especiarias

...seguia adiante para ir longe.
No coração uma sede, sede de vinhos
e nada mais do que uma velha canção nos lábios.
Ir longe. Longe é ir-se,
afastar-se sem medida certa,
curar dores sem chagas,
feridas sem úlceras.
Poente é nome bonito,
nunca vem, sempre vai,
a cada dia levando o que se quer prender,
o que se tenta.
Fica. O que fica
é a insensatez de um olhar sem fim sobre as planícies.
Olhação calma e sufocante.
Planícies desatam pensamentos,
derramam-se por dentro,
gozam e esgotam os espíritos pelos olhos
para soltá-los como aves tontas,
tantas que se esbarram
umas nas outras
nos horizontes,
em festa, andorinhas bêbadas, embriaguez de tardes.
Ah, Planícies exigem uma boa reza
antes do primeiro passo. Que melhor se leve
um escapulário. Depura-se,
e em vermelhos de jaspe
o sangue se refaz.
Salvação dos olhos, a noite vem e à planície encobre.
Que bastasse agora, rezava, no quarto da estalagem,
pousada só por uma noite,
o cheiro de especiarias e outros vindos do armazém ao lado,
aguardentes, palavras ditas,
cravos, café, couros, versos,
pimentas, perfumes.

21 novembro 2008

Dar-se consigo mesmo

...que falem
estes murmúrios de mil vozes.
O que importa na expedição é alcançar
o riacho. Aqui
é um deserto
com torres de petróleo abandonadas
que se avistam de longe,
num choque de melancolia.
Nas margens do riacho há pedras,
cascalhos e mais, mais, um desejo
inexplicável de atravessar para lá.
Ir lá.
Lá onde as vontades, todas
as contrariadas se amarram
na mesma corda e se arrastam
umas às outras,
fantasmas que não cessam jamais
de gemer. Ir lá
e desatar as correias,
soltar os búfalos, os cavalos,
os cachorros e seguir qualquer rastro,
de qualquer fera
para dar-se consigo mesmo
atravessado, desamestrado
qual vísceras esfaqueadas
e dizer,
sendo mais forte que o rumor,
e dizer: sossega,
desce, esquece
as escadas, a elevação, desce,
desce até à perfeição
do canto chão.