28 setembro 2013


Vozes de abrir janelas, tentativas de olhar – 3

Ir à venda era só pretexto pra pensar em tomar o ônibus. Ali em frente ficava o ponto. Ia ali todo dia, como todos, quase todos, depois do trabalho, uma hora pra rir, ou se tentar. Prá que serve o vinho senão pra alegria? A cachaça substitui. Uma alegria vem, e se consegue esquecer certas coisas, quando se está com os outros, quando se enche a cara, esquecimento é descanso de alma, alma é coisa sempre viva, nunca morre, mas precisa descansar. Ia à venda só pensando no ônibus, a venda era o ponto de ônibus, qualquer hora todos iriam vê-lo arrumado, aquela calça jeans nova, a camisa branca sem mancha, tênis dos bons e uma bolsa na mão. E Então todos perguntariam e ele responderia com prazer: Tô indo embora. Mas isso de ir embora é vontade parente do sonho, vem e se desfaz, como asa que se abre para o voo e se desfaz num braço pesado, numa mão grossa, pesos a se carregar. Quanto maior a vontade de ir embora, maior a correia de couro endurecido que prende o sujeito no destino que ele vive como um cavalo arreado. Encostou-se no balcão, viu o colega que só vivia de óculos escuros e sentiu dentro de si uma coisa ruim.

4 comentários:

:.tossan© disse...

Eu gosto dos seus escritos e de suas perspectivas. Abraço

Wislley Rodrigues disse...

Gosto muito do jeito que escreve, me vejo sentado ao lado do balcão observando essa cena no exato momento em que acontece...Muito bom!

Dauri Batisti disse...

Bom ver você por aqui Wislley. Surpresa! Legal! Benvindo!

Maria Helena disse...

Pena que até os sonhos são acorrentados. Abraço.