08 outubro 2011

Tempos que se avizinham das minhas mãos nos seus menores tremores


Escrevo assim como vocês também escrevem, escrevo marcado pelo que vou sendo, pelos modos atuais de produção de subjetividade que nos constituem, e que inclui esta máquina humana pela qual nos afetamos de suavidades e intensidades. Nossos cadernos maravilhosamente tiveram suas páginas misturadas. No mesmo folhear o olho em seus doces e amargos enxerga traços, digitais reveladoras de anseios, sonhos e desejos, cicatrizes e belezas, as nossas. Nossas poesias e buscas que se adensam e criam asas aqui por detrás dos dígitos, das fontes, nesses nossos computadores, telas, tecidos e pergaminhos pelos quais jorram em fabulações nossas almas e corpos.

Sei, vazam, escorrem no meu texto uns tempos que marcam meus dizeres como seus domínios, e plantam suas bandeiras em cada pequena colina de palavras deste pequeno escrevedor. Uns tempos, maiores do que eu, é claro, bem maiores, imensos, mas que me incluem, pequeno nome em compêndio de larguíssimas páginas. O século XIX, o XX, e o XXI. Tempos que se avizinham das minhas mãos nos seus menores tremores, que me habitam nos sonhos mais escondidos; tempos anjos ou fantasmas, espíritos, vozes, todavia, e que falam nessas titubeantes grafias. Tempos que me temperam, espero.

Quero em gratidão e delicadezas dar nos meus textos, quaisquer que sejam, umas linhas, uma cor, uma nuvem, um parágrafo, um espaço, um riacho, ou uma vírgula que seja para o século XIX. Tantas histórias bonitas ouvi sobre aqueles meus que eram daquele século! Aquelas vozes ainda me embalam, me embarcam, me despacham em viagens, como numa tela de cinema em sala com poucas pessoas em plena tarde de um dia qualquer da semana. Tantas vezes ouvi como foi atravessar o mar e se aventurar pelas matas do Brasil, que esta para mim é “a história”. Deixar a própria terra e em navio abarrotado, lançar-se para outro mundo. Antes de qualquer outra história, da bíblia, infantil, da televisão, da literatura, esta é a história, a história que sempre me conta e se reconta nas esquinas dos meus textos. É a primeira. História contada recontada, ou seja, contada por alguém que já nascera aqui, mas que fazia questão de torná-la marca de vida naquelas crianças, contada por alguém que queria marcar a memória como atualização de aventuras e sonhos, coragem e determinação. História sem letra e papel, apenas voz e coração, contada, cantada num português muito precariamente assimilado, na voz de avôs, no lusco fusco de noites em que sentir o bom de viver incluía lembrar, em carinhos e reverências, os que morreram.

Tempos, meus tempos, eu tempo, em tempo...


Continuo depois com os outros séculos.

6 comentários:

maria carol disse...

meu caro já dizia saint-beuve "antiguidade é coisa nova. somos a contemporaneidade dos milênios."

abç

Dauri Batisti disse...

O texto acima foi desencadeado, foi libertado, inspirado no e pelos comentários do Eder, Paula e Eurico na postagem anterior.

Obrigado amigos.

Paula Barros disse...

E agora deixei as lágrimas escorrerem.
É bonito perceber que o virtual pode nos trazer novas histórias a serem escritas em nossos cadernos da vida.
O leitor talvez, talvez, não sei, se emociona por ter tido suas subjetividades tocadas. E assim vai jorrando histórias de nós...vai jorrando vida...a vida contida nas subjetividades...

E assim seguimos Dauri..obrigada a você. abraço.

Paula Barros disse...

Putz, Dauri. Voltei, cliquei em delicadezas e o início da música me jogou no passado, 18 anos , carnaval na cidade da minha mãe, onde meus avós maternos moravam, primeiro beijo na boca. E fui lembrando de outros carnavais, de ex-marido, de sogro, da minha passagem no Espírito Santo (2009) porque eu queria ouvir músicas tocadas assim, e cheguei em Porto Alegre (2010/2011) que escutei pessoas tocando assim. Lembranças, com um clique. Histórias de uma vida.

(na primeira leitura esqueci o pão no forno e tostou. kkk)

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Dauri...independente de onde veio a inspiração para esse escrito, mas ao mesmo tempo de pessoas que também escrevem de maneira muito bonita
O que mais me chamou a atenção foi o fato, foi a parte final onde fica claro que toda essa assimilação vem das histórias contadas, narradas pelos mais experientes, assim da maneira mais simples, nesse português precariamente assimilado...aqui a gente chama isso de jogar conversa dentro, dentro da alma, dentro do coração
Um abraço neles...na alma e no coração
Bom fim de semana

EDER RIBEIRO disse...

Meu querido Dauri, qdo escrevo sempre me vejo no colo do meu avô no interior da Bahia embaixo de um pé de amêndoa ouvindo as suas histórias, e assim misturo o tempo dele com o meu e contam gdes mentiras, posto que ele era um mentiroso, ou seja, um contador de causos, e se pegarmos a nossa própria história veremos que somo a mistura do acúmulo do nosso tempo com o do nosso pai e do nosso avô. Continua escrevendo, amigo Dauri, pois na escrita, vc transmite todos os tempo que lhe pertence. Abçs.