15 outubro 2011

Era rouca, levemente áspera, mas nela havia uma maciez de voos

Uma voz no limite, um canto destes pássaros de alturas, um sussurro entre dormir e acordar, entre cantar e gritar, entre ficar quieto e entristecer-se. Vinha a voz lhe dizer qualquer coisa assim difícil de entender. Uma única vez ele me confidenciou isso nos longos anos de amizade. Era rouca, ele dizia, levemente áspera, mas nela havia, hoje entendo,  uma maciez de voos, de tempos vagos perdidos em algum lugar pedindo resgate. Era a voz um lençol de coisas, de sentimentos que não se delineiam em nenhum padrão, roupas num varal defronte ao azul de dias bonitos e tristes, voz que ele ouvia, que ouço e tu também, eu sei, se me permites. Um quê de não sei onde que vem e  diz, vai, pega a estrada. Ele olhou o perfil das montanhas recortadas nos olhares e se foi. Não foi, é claro, assim tão rápido, foi com demoras de tardes solitárias, de chuva miuda por dias, demoras de entremeios de domingos nublados e cartas por escrever. Rápida é a história, de muitos anos, na brevidade deste relato que fui encarregado de contar-te. Ele não tinha um destino, tinha vários, tantos que se perdia entre eles. Há deste tipo de pessoas por ai, talvez até conheces algumas. Sempre fora assim, desde a escola, quando por entre as lições que não deixava de ouvir, se desorientava entre o rio que corria impassível, tranqüilo, e o redemoinho que se levantava inesperado em folhas secas e espíritos. Recolheu a voz no peito, como se tivesse morrido, de certa forma tinha sim, e se alargou em passos por uma estrada que não sabia aonde ia dar. Nos passos dele aquele dia dei também os meus. Não te nego, contar-te este conto, que tão pacientemente ouves, é uma forma de reviver. Mas os tempos que pedem resgate nunca são resgatados, eles apenas se reescrevem nas novas páginas das estradas que vamos vivendo.

9 comentários:

Dauri Batisti disse...

Paula Barros,

obrigado pelo e-mail e pelo texto da sua mãe que vc teve a delicadeza de enviar. Lindo.

Muito obrigado pela atenção carinhosa.

Beijo.

EDER RIBEIRO disse...

Dauri, não tem jeito, me dou tanto à leitura que às vezes me confundo, não sei se sou leitor ou a personagem da história, me vi na estrada. Um gde abç, fico aqui na expectativa da próxima leitura.

Milla Pereira disse...

Espetacular texto, com tds os ingredientes que nos prendem a atenção e nos encanta, Dauri, parabéns! Bom fds, grande abraço

Paula Barros disse...

A sabedoria de revisitar o passado, ou por ele ser visitado, e ir se reescrevendo a cada novo passo na estrada da vida. Embora não seja tão fácil o se reescrever, o não repetir-se.

E perceber que estas visitações podem dar leveza na caminhada, ou se dá conta que carregaremos algumas bolas de ferro a serem arrastadas pelos fantasmas que nos habitam.

E sim, lembrar é reviver, é sentir, é nos darmos contas de nós mesmos.

mundo azul disse...

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Não há como revisitar os tempos, nem fazer uma releitura... A ilusão já se desfez, como estará desfeito esse momento em que escrevo, tentando inutilmente mostrar o que penso, com palavras que podem parecer estranhas... Penso que o momento, também ilusório, é único e não se repete nunca mais...

Obrigada! Como sempre, encontro aqui um texto que realmente vale a pena ler...

Beijos de luz e carinho!

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Ilaine disse...

Dauri!

Quando contas, eu viajo. Assim como em tantos outros textos seus, mergulho nesta profusão de detalhes e as figuras me tomam por inteiro. Deslizo pelo texto e no final... quero ler mais, gostaria que continuasse.

Quando contas...
Conte mais!

Abraço

Dois Rios disse...

Sim Dauri, não se pode resgatar o tempo vivido, porém se pode, como você bem definiu, redesenhar um mesma outra estrada.
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A propósito, vou me apoderar de uma bela expressão do teu texto para dizer que a tua escrita tem a maciez dos voos.

Beijo,
Inês

Luis Eustáquio Soares disse...

salve, querido dauri; sepre essas palavras do nunca; sempre essas palavras do sempre; sempre essas palavras do nuncamente pra sempre; sempre essas palavras do sepremente; sempre essas palavras vivas, na zoeira dos riachos.
saudações,
delamancha

minhas predileções disse...

muito profundo e preciso em meus sentimentos essa escrita tão pessoal.
gostei muito disso que li, era disso que eu precisava sentir...
parabéns pela profundidade de palavras que tocam nossos sentidos... respirei aliviada.